Grêmio

Como fiquei trancado no vestiário do Grêmio no momento mais decisivo da Batalha dos Aflitos

Clima era de tensão nos minutos finais do histórico jogo de 2005

Anderson marcou o gol do Grêmio que garantiu a vitória nos Aflitos
Anderson marcou o gol do Grêmio que garantiu a vitória nos Aflitos Foto : Diego Vara / CP Memória

Os dois lances mais importantes da Batalha dos Aflitos, o histórico jogo em que o Grêmio venceu o Náutico em 2005, foram a defesa de pênalti pelo goleiro Galatto e o gol de Anderson, ambos a favor do Tricolor. Eu estava no estádio naquele dia cobrindo o jogo pelo Correio do Povo. E não vi nenhuma dessas jogadas. Mas tal qual aqueles personagens em situações aparentemente sem volta no começo do filme, eu digo: calma, eu posso explicar, mas antes preciso voltar um pouco no tempo.

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A temporada 2005 tinha sido atípica para o Grêmio desde o começo. Rebaixado no ano anterior, só havia um objetivo naquele ano: voltar à Série A. Só que era também um período de reconstrução. O então presidente Paulo Odone havia recebido um clube aos pedaços em todos os aspectos, do financeiro ao anímico.

Para completar, o começo não foi dos mais animadores e o time sequer foi à final do Gauchão. Era um ano tão maluco que o técnico Hugo De León, ídolo na Libertadores e no Mundial de 1983, foi demitido a dois dias da estreia da Série B. E aí veio Mano Menezes.

Aos trancos e barrancos o Grêmio foi avançando. É verdade que a campanha nunca foi brilhante. Mas isso seria só um bônus, o que interessava mesmo era voltar à Série A. Assim, o Grêmio terminou a primeira fase em quarto lugar. Na segunda, avançou como segundo no seu grupo, atrás do Santa Cruz.

Galatto virou um dos herois da Batalha dos Aflitos ao defender o segundo pênalti | Foto: Diego Vara / CP Memória

Veio o quadrangular final. Apesar de alguns tropeços como o empate em casa com a Portuguesa, o Olímpico lotou no dia 19 de novembro para ver o Tricolor voltar à elite. O Grêmio fez a sua parte e ganhou de 2 a 0 do Santo Cruz. Só que ninguém esperava que no outro jogo o Náutico fosse vencer a Portuguesa em São Paulo. Como venceu, bastaria ganhar em casa na última rodada que estaria na Série A. E o adversário era o Grêmio. A Batalha dos Aflitos começava muito antes do embarque.

Corta para Pernambuco. Ciente de que a torcida pernambucana queria fazer com o Grêmio o que os tubarões fazem com os banhistas mais desavisados em Recife, a direção azul escolheu um resort bem afastado da capital e lá se recolheu para os últimos treinos. Eu e o fotógrafo Diego Vara, ambos pelo CP, ficamos no mesmo hotel, uma prática mais comum à época, já que quanto mais perto da notícia, mais facilitado seria o trabalho.

Foguetes na madrugada era o mínimo

Por mais que os jogadores não ficassem “acessíveis”, o contato com os dirigentes no resort não era algo raro, pelo contrário. E desse convívio era nítida a impressão de uma certeza entre os gremistas: os torcedores do Náutico iriam tentar transformar a noite da véspera da partida em um inferno. Seria uma resposta ao tratamento recebido em Porto Alegre. Incessantes baterias de foguetes seriam o mínimo. E foi justamente por isso que o Grêmio fez a sua primeira manobra.

Em dado momento daquela noite, os jogadores discretamente foram levados a um ônibus, com destino a outro hotel. Alguns dirigentes ficariam na concentração, afinal era preciso dar motivos para os rivais acreditarem que os atletas seguiam lá. E assim os atletas dormiram tranquilos - o quanto era possível dormir tranquilo ante uma decisão tão tensa.

Em conversa com os repórteres, o então chefe do policiamento de Recife Luiz Meira dizia estar preparado para o trajeto que levaria o ônibus aos Aflitos. E justificou de forma peculiar:

“O que eles fizeram lá (Porto Alegre) foi horrível e gerou uma ojeriza ao Grêmio entre os pernambucanos. Alguns podem querer revidar e temos que ter atenção redobrada”.

Esse era o clima. Sobre o jogo em si, quase tudo já foi dito, então podemos pular para o segundo pênalti a favor do Náutico e voltar lá para o começo deste texto. Porque quando o árbitro Djalma Beltrami assinalou a penalidade, o mundo virou outro.

Nada mais obedecia à lógica. A confusão dos jogadores em campo parecia não ter fim. Naquele momento, eu e o jornalista Luís Henrique Benfica, então na Zero Hora, assistíamos ao jogo em um setor da arquibancada, junto com alguns dirigentes do Grêmio. Esse era o espaço da imprensa e esperar mais que isso, naquele contexto, seria ingenuidade.

Porta trancada no vestiário

E foi justamente um dos dirigentes, o saudoso Alfredo Oliveira, quem passou por nós comentando que o Grêmio ia sair de campo. Mais experiente, o Benfica na hora me olhou e disse: “vamos atrás”. Junto dos dirigentes, o acesso ao gramado seria mais fácil. Sem eles, impossível.

Nisso, demos a volta por fora do estádio. O problema é que quando chegamos ao vestiário, que dava acesso ao campo, a informação de que o Grêmio abandonaria o jogo também já era de conhecimento do Náutico. E aí a direção prontamente trancou a porta. Ninguém entrava, ninguém saía.

O Grêmio estava “trancado” no gramado. Os jogadores que haviam sido expulsos, funcionários de apoio do clube e alguns dirigentes, trancados no vestiário - além de mim e do Benfica. O ambiente era o mais insano possível. O zagueiro Domingos, um dos expulsos, chutava cadeiras como quem chutava bolinhas de papel.

Vestiário que era tenso virou palco de comemoração ao final | Foto: Diego Vara / CP Memória

Era tanta gente berrando ao mesmo tempo que entender o que alguém dizia era impossível. As frases podiam ser incompreensíveis, mas o sentido era claro, uma mistura de indignação com ansiedade em saber o que estava acontecendo para lá daquela porta. Não faço ideia quanto tempo levou aquilo, mas com certeza menos do que minha memória me faz acreditar.

Fato é que a loucura não cessou quando enfim a porta foi aberta. Minha primeira visão foi Renato Moreira, vice de futebol, jogado nas escadas, chorando. E, bem, se o Grêmio tinha contra si um pênalti a 10 minutos do fim, a tristeza pela permanência na Série B era um sentimento plausível. Até que ele balbuciou: “Gol do Grêmio”. Hein? Mas não era pênalti para o Náutico? Como assim gol do Grêmio?

Já no entorno do gramado, com a bola ainda rolando, fui informado - não faço ideia por quem - do que acontecera: Galatto havia defendido o pênalti e na saída de jogo a bola foi para Anderson, que driblou 37 jogadores do Náutico antes de marcar um golaço. O vídeo mais tarde mostrou que não era bem assim, mas isso era o de menos. O Grêmio havia vencido o jogo e estava de volta à Série A e como campeão.

Eu não tinha visto nem o pênalti e nem o gol, é verdade. Mas eu tinha muita história para contar, afinal de contas aquele jogo entraria para a história por aspectos que muito transcendem o futebol.

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