“O que mudou foi a minha vida como técnico e a do Grêmio como clube”. No ar condicionado da sala de entrevistas do CT Luiz Carvalho, 20 anos depois, Mano Menezes preserva o mesmo tom de voz do calor sufocante dos Aflitos quando, no meio da confusão com jogadores, dirigentes, policiais e equipe de arbitragem pediu “apenas calma”.
Duas décadas para cá, Mano passou por Cruzeiro, Corinthians, Flamengo, Palmeiras, Bahia, Inter, Fluminense, China e Seleção Brasileira. Sereno, preserva a perspectiva histórica do que vivenciou e mais do que isso, reconhece a importância para quem não a viveu, mas enxerga naquele fatídico jogo algo para ser compartilhado.
Confira o especial completo sobre os 20 anos da Batalha dos Aflitos
“É um fato relevante que por onde eu passei no mundo as pessoas queriam saber. No curso do treinador em Portugal, iria preparar uma palestra e eu estava em dúvida do que falar. Eles disseram ‘tu vais ter que falar sobre aquele jogo, aquele acontecimento’. Para quem é do futebol, o acontecimento é usado em vários momentos como motivação do que é possível na vida usando aquilo como exemplo”, revela Mano.
Ao forçar a memória para relembrar tantos detalhes, até ele se atrapalha. Mistura a data da troca de hotel de concentração para fugir da incomodação da torcida adversária. Aconteceu mais de uma vez, inclusive na véspera do último jogo. Faz uma brincadeira ou outra com o próprio sofrimento no hostil vestiário dos Aflitos e considera um momento nevrálgico para que a história viesse a acontecer da maneira como aconteceu.
A marcação do segundo pênalti, minutos depois do árbitro ignorar um pênalti de Gallato em Miltinho, foi o estopim. “Ali estourou. Aí tudo que está guardado dentro de cada pessoa explode”, avalia Mano, que revela sua participação efetiva na hora em que os dirigentes, já no gramado invadido, eram pressionados por terceiros a retirar a equipe de campo sem que a partida de fato encerrasse.
“Na verdade eu participei dela. E penso que essa foi a coisa mais importante que a gente fez na temporada. Foi muito difícil conversar com o presidente Paulo Odone porque era um tumulto muito grande. Eu não sei quem queria tirar (o time de campo). É meio que uma tentativa de fugir da realidade, de sair e perder com classe. Só que a gente ia perder e nenhum tribunal do mundo ia dar ganho de causa ao Grêmio se a gente saísse de campo. E foi isso que eu disse ao presidente: ‘Se a gente sair de campo, duas pessoas vão arcar com essa responsabilidade para o resto da vida: Eu como treinador e o senhor como presidente. Eu não quero isso para mim’. Ele disse que eu tinha razão”, relembra com tranquilidade as palavras.
Mano foi o lado vencedor da história. Ficou marcado, mas faz questão de contar duas coisas pouco ou até então sequer lembradas. A primeira se refere ao colega de profissão, Roberto Cavalo, então treinador do Náutico: “Conversei com ele no curso da CBF. Acho que foi algo muito marcante. O Náutico foi de uma resiliência muito grande porque no ano seguinte subiu e aquilo poderia ser quase arrasador para o clube”. A segunda diz respeito a um reencontro recente no início de 2025.
“Fui jogar esse ano na Ilha do Governador com o Fluminense no campo da Portuguesa carioca e reencontrei o Djalma Beltrami (árbitro da Batalha dos Aflitos) atuando como fiscal. Conversei com ele pela primeira vez desde aquele episódio. Não falamos muito sobre o jogo”, brinca Mano, que rapidamente volta para o tom peculiar sem pestanejar: “Sem dúvida nenhuma foi e sempre será o jogo mais importante da minha vida”.