Rodrigo Celente
rcmachado@correiodopovo.com.br
O menino de Campo Bom, no Vale do Sinos, então com oito anos que assistiu o Grêmio ser bicampeão da América em 1995 nem poderia imaginar que, 22 anos depois, seria ele o goleiro da conquista do tão almejado tricampeonato. Marcelo Grohe, fã confesso do goleiro Danrlei, campeão em 95, atinge, com o título da Libertadores, o mesmo patamar. Mazaropi, Danrlei e Marcelo Grohe, o trio de goleiros que ergueu a taça da Libertadores.
• Campeão como jogador e técnico, Renato vira mito no Grêmio
• Emocionado, grupo destaca merecimento do Grêmio
Criado nas categorias de base do Tricolor, Grohe, torcedor declarado do Grêmio, está no grupo principal desde 2005. Viu Galatto ser o herói da Batalha dos Aflitos. No ano seguinte, aos 19 anos, virou titular na final do Gauchão. Galatto havia se lesionado. Mostrou segurança e ajudou o time a conquistar o título dentro do Beira-Rio. Porém, na sequência, a direção do clube resolveu trazer um nome com mais experiência. Assim chegou Saja. Grohe voltou para o banco de reservas. Seguiu trabalhando firme. Sabia que sua hora iria chegar.
Em 2008, quando Grohe tinha tudo para ser confirmado como titular, já havia entrado e dado conta do recado após uma lesão de Saja, mais uma vez, o clube optou por trazer um outro profissional: Victor assumia a camisa 1. Em 2012, Victor é vendido para o Atlético-MG. Grohe é alçado para a titularidade. Se destaca no Brasileirão com grandes atuações. O Tricolor tem a melhor defesa do campeonato.
No começo de 2013, porém, Dida chega ao Tricolor. Indicado por Luxemburgo que queria um goleiro "cascudo" para a Libertadores. Porém, o destino sempre fazia questão de recolocar Grohe debaixo da goleira do clube gremista. Dida se machuca e Grohe, na decisão por pênaltis contra a LDU durante a fase preliminar da Libertadores, brilha e coloca o time na fase de grupos.
Enfim, titular absoluto
Dida é dispensado em 2014 e desde então Marcelo Grohe defende o Tricolor como goleiro titular. Ainda em 2014, atinge a marca histórica de 803 minutos sem levar gols pelo Brasileirão. Mas, faltava um título de expressão. O time empilhava eliminações em Libertadores e Copa do Brasil. As coisas mudaram em 2016. Grohe renova o seu contrato até dezembro de 2020. No mesmo ano é destaque na conquista da Copa do Brasil, comandado por Renato Portaluppi. Defendeu pênaltis, chutes em cima, cabeçadas mortais.
A Libertadores de Grohe
Com a base do grupo mantida, o Tricolor entrou com força na Libertadores. É verdade que houve lesões, saídas, mas quem foi entrou deu conta do recado. O goleiro gremista teve papel decisivo no título do Grêmio. Os anos de trabalho árduo solidifcaram o profissional. Frio e calculista dentro de campo. Amável e sentimental fora dele. Virou líder. Grohe se tornou um dos símbolos deste tricampeonato. Foi protagonista em pelo menos três ocasiões.
Nas oitavas de final, na Argentina, contra o Godoy Cruz fez defesas importantes e complicadas e ajudou o time a manter o 1 a 0. É verdade que na partida de volta, falhou no gol dos argentinos. Mas não se abateu. O time pegou junto, afinal é um grupo, e virou o placar. Nas quartas-de-final, no jogo na Arena contra o Botafogo - um dos mais complicados nesta trajetória gremista na Libertadores - realizou uma grande partida. Mas, os lances que milhares de pessoas assistiram na partida contra o Barcelona-EQU e Lanús, na partida em Porto Alegre, são daqueles que ficam para sempre na retina de quem aprecia futebol.
No Equador, o Grêmio vencia por 2 a 0, mas na volta do intervalo os equatorianos, empurrados por um estádio lotado, foram para cima. Numa bola cruzada, Ariel rompe entre os zagueiros. O atacante, então, estica a perna e dispara um chute potente à queima-roupa, na pequena área. Atrás, Edílson e Geromel olham tensos. Grohe, num instinto de pura coragem, como um míssil, intercepta a bola com o braço esticado. Ela ainda bate no chão antes do goleiro aninha-la no seu peito. O estádio inteiro, o mundo todo se pergunta: Como ele defendeu? Edílson chega, se abaixa e beija carinhosamente a cabeça de Grohe.
Como que para retribuir, o lateral, no lance seguinte, faz grande jogada pela direita e cruza na medida para Luan fechar a conta em 3 a 0. Na Arena, no primeiro jogo da final, Grohe voltou a brilhar, a mostrar que esta Libertadores não sairia das mãos do Grêmio e das suas. Primeiro, num chute cruzado de Martínez. E o segundo lance, a cabeçada de Braghieri , do alto para baixo, forte, no cantinho. O estádio inteiro e mundo todo, novamente se perguntou: Como ele defendeu? Voo no canto, braço esticado e bola para escanteio. Recebeu os cumprimentos dos rivais. No segundo jogo, na Argentina, o goleiro apareceu de novo ao defender uma cobrança de falta venenosa de Velázquez.
A paciência é uma virtude dos vencedores. Marcelo Grohe sabe muito bem disso. Foi paciente para, primeiro conquistar a posição de titular da camisa 1 do Grêmio, depois esperou, trabalhando duro, para conquistar a confiança e o apoio da torcida gremista, aguardou, com serenidade, colocar uma faixa de campeão no peito - Copa do Brasil 2016 - e por fim, a consagração: herói do TRI da Libertadores. Grohe superou críticas, desconfiança e cravou seu nome na história vitoriosa do clube, que agora é também a sua: goleiro campeão da América.
Grohe, o menino de Campo Bom vira o goleiro do Tri da Libertadores
Arqueiro foi destaque do time na campanha vitoriosa do Grêmio