A Batalha dos Aflitos é tão peculiar que até filme com relatos de quem escolheu não assistir ao jogo foi produzido. Há, no entanto, histórias muito melhores de quem não teve essa escolha. E que se tivesse, certamente não teria tomado a mesma decisão. Eles não são protagonistas ou coadjuvantes do acontecido, mas também não são meros figurantes. São funcionários do Grêmio, privilegiados por estarem para sempre marcados em um dos maiores acontecimentos dos 122 anos do clube.
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Juntando os torcedores, talvez 200 nas arquibancadas, jogadores que jogaram, os ficaram na reserva, e os sobraram do banco, dirigentes, cartolas, funcionários e grupo de apoio envolvido naquele jogo, o número não chega a 300 pessoas. Cada uma, em tese, com um ponto de vista próprio do que testemunhou. Em comum a todos, a curiosidade das pessoas saberem direto de uma fonte primária alguma coisa a respeito daquele dia 26 de novembro de 2005.
Como o Grêmio ganhou aquele jogo?
“Como é que o Grêmio ganhou aquele jogo?” não titubeia o roupeiro Marco Aurélio Severino, ex-funcionário do clube. Com 30 anos de casa, acostumado a viajar com o time pelos quatro cantos do mundo, mantinha uma rotina trabalhosa. Além de zelar pelo material de jogo e treino e viagem de atletas e comissão técnica, sofria sozinho quando a bola rolava. “Não gostava de ouvir pelo rádio. E esse jogo eu não ia conseguir”, conta Alemão, como é conhecido.
Com experiência de décadas também no vestiário tricolor, o fisioterapeuta Henrique Valente volta e meia é pego com a mesma questão:
“Como foi ter vivido aquilo? Eu sempre respondo que o que a gente viveu lá não tem uma explicação lógica. Tem algo mais envolvido. Credito ao grupo de jogadores, ao ambiente de amizade e companheirismo. Acho que tinha algo divino preparado.”
Os dois viveram momentos difíceis de reproduzir com a carga de emoção da hora do acontecimento. Os minutos intermináveis no insalubre vestiário dos Aflitos despertam lembranças indescritíveis. Quando começou a confusão que paralisaria a partida por quase meia hora, Henrique e os dirigentes deixaram a arquibancada e foram para o vestiário na tentativa de acessar o campo. O fisioterapeuta ficou por ali.
“Fiquei vendo tudo acontecer ali e não no jogo. Não vi a defesa do Galatto e nem o gol do Anderson. Vi o Escalona sentando no chão olhando para o chão, travado, em transe. Vi o Patrício e o Nunes chegando caminhando e depois o Domingos chegando destruindo todo o vestiário com um pedaço da porta que ele arrebentou. Ele demoliu todo o vestiário. Vi o Zelinho Hocsman tremendo parado, parecia que teria um infarto na nossa frente. Vi a reação do Alemão no final do corredor escutando o jogo narrado por um brigadiano. Quando o Galatto pega o pênalti ele entra correndo para contar”, recorda.
71 segundos de tensão
Na sequência, 71 segundos depois, Alfredo Oliveira, o Carioca e assim como Pelaipe, assessor de futebol, se aproximou do local com mais uma notícia difícil de acreditar. “Não vi como ele apareceu. Estava chaveado o portão. O Carioca gritando gol. Foi por ele que eu soube”, garante Alemão, cena que o colega recorda com riqueza de detalhes.
“O Alemão vem de novo correndo gritando: ‘O neguinho fez um gol, o neguinho fez um gol!’ E daí foi uma loucura. A gente estava rezando desde a hora do pênalti e não tinha mais o que fazer e ficamos assim. Faltavam dez minutos e ficamos ali no mesmo lugar até essa hora do Alemão. Os caras da porta do vestiário largaram de mão e abriram para a gente ir para o campo”, conta Valente.
A festa no vestiário com os sete jogadores que terminaram o jogo mais os do campo, os que sobraram da lista e os renascidos quatro expulsos ganhou a madrugada na piscina do hotel e no dia seguinte, na volta a Porto Alegre, com desembarque no aeroporto em desfile de carro de bombeiros.
Quatro dias depois, em um churrasco na fazenda do presidente Paulo Odone foi quando todo mundo parou para relembrar os lances na frente de uma TV. Para alguns a defesa de Gallato e o gol de Anderson por um ângulo que todo mundo viu. Menos para quem apenas o imaginou mesmo estando lá.