Renato: "Duvido outro passar tanto tempo aqui"
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Renato: "Duvido outro passar tanto tempo aqui"

Treinador completou três anos de Grêmio

Por
Rafael Peruzzo e Rafael Pfeiffer

Renato comanda o Grêmio há três anos

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Renato Portaluppi completou na última quarta-feira três anos como técnico do Grêmio em sua terceira, e mais exitosa, passagem pelo clube. O treinador recebeu a reportagem do CP e da Rádio Guaíba para uma conversa na qual fala sobre fatos marcantes neste período em que conquistou títulos como a Copa do Brasil e a Libertadores da América. Renato também projetou o futuro e afirmou que seu desejo é permanecer no clube na próxima temporada 

Você chegou há três anos em um período de seca de títulos, podendo mudar a história. Além das conquistas, o que mudou?

Os cabelos brancos. Cada ano você fica mais experiente, isso é da natureza. Acho que o mais importante de tudo foram os objetivos alcançados. O Grêmio estava há 15 anos sem títulos e um clube como esse não pode passar todo esse tempo sem ganhar. A partir de 2016, a gente conseguiu quebrar isso, o grupo ficou mais aliviado e ganhamos tranquilidade para trabalhar a partir do momento em que as coisas aconteceram. 

Três anos no mesmo clube. Você é uma exceção no Brasil. Por que isso é surpreendente? Essa cultura um dia vai mudar?

Concordo com vocês, é surpreendente mesmo. Eu não acredito que vai mudar, a gente vive em um país onde as pessoas querem, principalmente no futebol, resultados da noite para o dia. Então você me pergunta por que estou há três anos no Grêmio? É lógico que eu tenho uma tranquilidade a mais, sou um dos ídolos do clube, ajudei como jogador a conquistar muitos títulos e agora como treinador. Mas eu tenho a consciência de que os resultados me ajudaram bastante. Completei três anos, realmente é uma marca histórica. Eu duvido que qualquer outro treinador passe tanto tempo aqui no Grêmio, a não ser que ele também conquiste os títulos que eu tenho ajudado o clube a ganhar. As pessoas não dão o devido tempo aos treinadores. É mais fácil mandar um embora do que desfazer um plantel de 30 jogadores. 

Os títulos deram tranquilidade, mas também te valorizaram. Olhando para trás, você acha que fez as escolhas certas em relação à permanência no clube?

Eu fiquei muito feliz com o convite de outros clubes, alguns inclusive vocês (imprensa) nem ficaram sabendo. O que vocês souberam foi do Flamengo, que foram dois convites. Não me arrependo de maneira alguma de ter permanecido no Grêmio, muito pelo contrário, aqui eu me sinto em casa, estamos dando continuidade a um trabalho muito bom. Além de o Grêmio jogar um futebol bonito, a gente revela jogadores, o que é muito importante para o clube. Além do mais, eu tenho uma amizade muito forte com o presidente do clube (Romildo Bolzan Júnior), com a diretoria. Eu trabalho com um grupo que é maravilhoso, do presidente ao roupeiro, cada um em seu departamento, com sua parte no trabalho. E o que é mais importante, a gente tem resultados em campo. 

Foram mais vitórias que derrotas nesses três anos. Mas existem derrotas que marcam muito, como o Real Madrid (Mundial) e o River Plate (Libertadores). Existe alguma que te doeu mais. Se pudesse voltar, faria algo diferente?

Quando perde é muito fácil falar. Será que poderia ter feito algo diferente? Eu não sou dono da verdade, infelizmente a gente perde, não vai ganhar todas, mas sempre vai procurar fazer a coisa certa. No Mundial nós pegamos um dos melhores times do mundo. Estávamos com problemas no grupo porque tínhamos muitos jogadores machucados. Nós perdemos aquele jogo por 1 a 0 por falha nossa, então ali ficava muito difícil fazer algo diferente. Na semifinal contra o River no ano passado nós fizemos tudo certo, teve um gol do River que poderia ter sido anulado, foi um gol de mão. E gol de mão não pode ser validado, ainda mais com o VAR. Ali eu acredito que nós perdemos fora de campo, e não dentro dele. Tem que lembrar de todas as derrotas. Teve aquela para o Novo Hamburgo nos pênaltis (semifinal do Gauchão de 2017). Aquela sim me doeu, nós não poderíamos ter chegado nem nas penalidades, com todo o respeito, o Grêmio era superior. Mas a que mais me doeu foi a semifinal da Copa do Brasil deste ano. Nós tínhamos uma boa vantagem e perdemos para o Athletico Paranaense. No meu entender, tivemos um pênalti que não foi dado a nosso favor. Mas nós estávamos com a vantagem e com uma boa equipe, deixamos escapar uma grande oportunidade de disputar mais uma final de Copa do Brasil. 

Você costuma recuperar jogadores. O Tardelli parece mais um que você recuperou. Nessa lista, tem tempo para recuperar o Luan?

Tem, a gente está fazendo um trabalho com o Luan, eu venho há muito tempo conversando com ele. Vocês citaram o Tardelli. Eu vou falar uma coisa com muita humildade: para mim recuperar esses jogadores é que nem tomar um chope. O mais importante de tudo o jogador tem, que é a qualidade. Aí eu volto a falar, no momento em que você entende do babado, fica fácil, e para mim é muito fácil recuperar os jogadores. O difícil é você, de repente, ensinar um cara que não consegue jogar futebol, aí é uma dificuldade muito grande. O Luan foi merecidamente o melhor da América e chegou à Seleção Brasileira. Estamos tentando recuperar o Luan e ele tem nos ajudado. Ninguém esquece de jogar futebol. Cadê aquele Luan que encantou todo mundo? É isso que eu converso com ele.

Qual dos times que você comandou nesses três anos te deu mais orgulho? 

Não tem um específico. Eu me sinto muito orgulhoso porque nesses três anos nós mudamos jogadores, vendemos jogadores importantíssimos, descobrimos novos atletas e a equipe continua jogando da mesma maneira, encantando o Brasil. A equipe continua jogando bonito e conquistando títulos, isso é um trabalho maravilhoso. Seria muito fácil eu chegar aqui e dizer para vocês que o Grêmio não joga o mesmo futebol há um, dois anos porque perdeu fulano ou ciclano. Não, o Grêmio perdeu jogadores, mas nunca sua maneira de jogar. Isso tem que ser dito e aplaudido. Você ser reconhecido em todo o Brasil pelo futebol que joga, pelos títulos e por formar jogadores. Não adianta jogar bonito e não ganhar nada. Agora mesmo, ninguém conhecia, nós descobrimos o Matheusinho e o Jean Pyerre, são jogadores talentosíssimos. Tem coisa melhor para o clube do que isso? Não tem, então o clube amanhã ou depois ele se aperta e sabe que aqui dentro tem galinhas dos ovos de ouro, que podem ser vendidos. Nesse três anos, o Grêmio subiu muito de patamar, não só aqui no Brasil, lá fora também. Hoje se você olhar, outros clubes também têm, mas se você quiser um jogador com talento, as pessoas vão olhar para o Grêmio, sabem que aqui têm novos talentos surgindo. 

O Grêmio ainda tem três jogos até os confrontos com o Flamengo. O quanto você já pensa nesse jogo, quanto ele mexe com o Renato? 

É degrau a degrau. Nós temos jogos importantes pelo Brasileiro. A gente precisa pontuar bem porque o nosso objetivo é chegar, no mínimo, no G-4 nesse segundo turno. Agora, não adianta, não tem como não falar de uma semifinal de Libertadores. O Grêmio conseguiu eliminar um fortíssimo candidato ao título que era o Palmeiras. No meu entender, junto com o Flamengo, são os melhores elencos. E agora estamos em uma semifinal com o Flamengo, não tem como deixar de pensar, na cabeça do treinador não tem como. Eu já me vejo numa semifinal, quem vai jogar, quem não vai jogar, se todo mundo vai estar inteiro.

Você e o Jorge Jesus (técnico do Flamengo) dizem que seus times jogam o melhor futebol. As provocações no futebol acabaram? Esse é o máximo que se pode chegar?

Não, o futebol permite muito mais, o problema é que hoje em dia os jogadores não falam, eles têm assessor de imprensa. Na minha época de jogador a gente falava, mas nunca ofendendo. A gente promovia, digamos assim, os jogos. Hoje eu concordo que o Flamengo está jogando um belíssimo futebol, mas isso há quatro meses. Se eu tenho uma seleção nas mãos como o Jorge Jesus tem, eu sou obrigado a jogar bonito. Tenho que ser obrigado a ganhar títulos. Outro dia até falei para o meu grupo: se você pegar a Seleção Brasileira e fizer um amistoso com o Flamengo, é páreo duro. No momento em que uma diretoria te dá um grupo como tem o Flamengo, você é obrigado, sim, a jogar bonito e, acima de tudo, a ser campeão. Até agora o Flamengo está jogando bonito. Se vai ser campeão, bom, aí é outro departamento. 

O presidente Romildo será reeleito para mais três anos. Ele já disse que assinaria a renovação a qualquer momento. O Renato assina?

Olha, o meu desejo é de permanecer no Grêmio. Agora o mais importante são as prioridades, recuperar no Brasileiro e chegar, no mínimo no G-4, e depois a semifinal contra o Flamengo. Na hora certa eu sento com o presidente, que é uma pessoa que eu admiro bastante. Ele sempre diz que não importa o resultado, se eu quiser, eu continuo. Fico feliz com as palavras dele. Acontece todos os anos, então, na hora certa, a gente se senta e define o futuro do Renato. 

Alguém, algum dia, vai conseguir superar o Renato em termos de idolatria no Grêmio?

Nesse século, não. No próximo eu não sei, não vou estar aqui. Eu me orgulho muito disso, tenho mais é que agradecer a Deus. Nesse século eu não vou conseguir ver isso não, se você conseguir ver, depois você me avisa lá em cima.