O primeiro dia pós-Natal de 2024 ficará para sempre na memória do judô gaúcho e mundial. A razão que marca a data é a despedida de uma das maiores atletas do esporte brasileiro nascida no Rio Grande do Sul. Aos 33 anos, Mayra Aguiar, dona de três mundiais e três medalhas olímpicas, decidiu pendurar o quimono.
Amadurecer dentro do esporte de alto rendimento não é uma tarefa fácil. Ainda mais quando a integração na seleção brasileira principal de judô começa com apenas 15 anos, somente quatro após o início no meio esportivo. Antônio Carlos Pereira, o Kiko, sabe bem como aconteceu os primeiros passos da judoca que futuramente seria medalhista mundial.
"Rapidamente a gente já observou que ela seria uma grande atleta, pela sua determinação, pela sua inteligência emocional, pela sua qualidade física. Com o passar do tempo, só fomos confirmando isso", afirma o treinador. "Ela foi para Jogos Olímpicos com 16 anos, rompeu todas as fronteiras sendo a maior vencedora, participando de cinco Olimpíadas, o que eu acredito que será muito difícil alguém bater esse recorde", acrescenta.
A experiência de Mayra nos tatames amadureceu ao lado de outro grande nome da modalidade. João Derly abriu os caminhos e apresentou o judô gaúcho ao mundo ao ser o primeiro judoca brasileiro a sagrar-se campeão mundial, em 2005. Derly também acompanhou de perto o ingresso da jovem atleta nos tatames da Sogipa.
"Ela era diferente de todo mundo, de todas todas as pessoas que eu já conheci. Muito forte fisicamente, muito determinada, ela treinava com os homens e não tinha medo, treinava com o mais forte, mais pesado, sempre foi muito destemida", destaca Derly.
Chegar ao lugar mais alto do esporte tem seu preço. E esse Derly conhece bem, já que quase enche uma mão com as lesões que teve no joelho. A dor foi uma pedra incômoda também no caminho de conquistas de Mayra. As oito cirurgias realizadas ao longo da carreira de mais de quase duas décadas dedicadas ao esporte e o cansaço mental foram decisivos na decisão da aposentadoria. Os dois também estiveram ao lado da judoca na sua última Olímpiada este ano em Paris. Apesar do resultado não ter sido como esperado, a despedida olímpica não apaga o legado gigante de Mayra no judô mundial.
Ver um ídolo deixar de competir é um misto de sentimentos que, para Derly, é até difícil de colocar em palavras. "É uma atleta que para nós deveria ser eterna. Todos os nossos Ídolos a gente fica com o sentimento muito ruim de ver que vai parar, porque vai parar de competir e a gente não vai ver mais em ação", diz. "Mas ela é um divisor de águas, é uma supermega atleta, talvez não tenhamos a oportunidade de ver tão cedo alguém como a Mayra porque ela é fora da curva", completa o judoca.
Quase vinte anos depois, o legado e a importância de Mayra irão perdurar por muito tempo nos tatames. Hoje, as pequenas atletas veem nas grandes vitórias da judoca uma inspiração para iniciar no judô e na prática esportiva. "Fica o legado, fica a saudade, mas a vida é assim. Foi uma grande campeã em todos os aspectos, tanto na vida de atleta quanto na vida social fora do tatame. Obrigado por isso Mayra", diz Kiko.