Esportes

Ingressos caros afastam torcedores com menor renda dos estádios

Com aumento do valor das entradas, sobram espaços nas arquibancadas

São cada vez mais comuns cenas com generosos espaços nas arquibancadas
São cada vez mais comuns cenas com generosos espaços nas arquibancadas Foto : Lucas Uebel / Grêmio / Divulgação / CP
Recentemente, o ex-presidente do Atlético-MG e hoje prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, deu uma opinião que é sua e de muito mais gente. Ao site El País, afirmou com uma franqueza cortante que chegou a hora de o futebol, o esporte mais popular do Brasil, se elitizar de vez. Pregou a implementação de ingressos mais caros para bancar clubes perdulários e jogadores cada vez mais endinheirados. “No mundo inteiro, futebol não é coisa para pobre. Doa a quem doer. Ingresso é caro em todo lugar. Torcida dividida e entrada a preço de banana estragada só existem no Brasil”, afirmou.

A polêmica declaração retrata um movimento que começou bem antes mas se evidenciou com maior rapidez após a Copa do Mundo. Com estádios mais confortáveis à disposição, os clubes de maneira geral fizeram subir o ingresso médio dos seus jogos, afastando as camadas mais populares das arquibancadas. O fanático mais tradicional, que frequentava as partidas de chinelo de dedo e camiseta, está cada vez mais fora do espetáculo. Não vai ao jogo e não compra produtos oficiais — embora desejasse fazer ambos.

No Brasil inteiro, as torcidas se mobilizam para cobrar preços mais acessíveis. No Rio de Janeiro, a torcida do Flamengo, que é a maior do país, frequentemente leva faixas à Ilha do Urubu, pequeno estádio na Ilha do Governador reformado neste ano, protestando contra o valor dos ingressos. Em São Paulo, corintianos e palmeirenses repetem o gesto. Para o sociólogo Mauricio Murad, que estuda o futebol desde a década de 1990, o processo de elitização que está sendo implementado no Brasil é um atentado ao próprio futebol. Para ele, a política de ingressos caros pode até aumentar a arrecadação dos clubes no curto prazo, mas trará prejuízos em breve.

“Algumas autoridades e empresários defendem a elitização de uma forma oportunista, justamente com o objetivo de faturar mais. Mas eles sabem que isto também está errado. A elitização fere de morte a cultura e a história do futebol. No médio e longo prazo, não funcionará. As famílias perderão o costume de frequentar os estádios”, observa Maurício Murad, que recentemente lançou o livro “Violência no Futebol: Novas Pesquisas, Novas Ideias, Novas Propostas”.

O sociólogo, inclusive, afirma que a majoração das entradas sequer diminui a violência. “Não há uma relação direta entre preço de ingresso e a presença das camadas mais populares com o aumento da violência. Ou seja, não é aumentando o preço do ingresso que violência vai diminuir. Na verdade, o problema da violência está servindo para justificar uma elitização do futebol, embora se saiba que a violência é um fenômeno que está presente em todas as classes sociais”, continua.

No Rio Grande do Sul, há um movimento para barrar a elitização dos estádios. O Inter, que administra o seu estádio e pode ditar a política de preços dos ingressos, luta com armas mais poderosas que o rival para manter o rótulo de “Clube do Povo”. Há um mês, o Conselho Deliberativo colorado aprovou uma nova categoria de associados destinada a pessoas de baixa renda. O objetivo é associar novos torcedores ao preço de R$ 10,00 mensais. Os ingressos dos jogos para essa categoria também custarão R$ 10,00.

Para participar do projeto, os colorados devem preencher a um de três pré-requisitos: possuir renda mensal de até dois salários mínimos (R$ 1.874,00), integrar o Cadastro Único do Governo Federal ou estudar em escola pública. Inicialmente, o clube vai oferecer duas mil novas associação nesta categoria. Depois, avaliará se abrirá um lote extra da categoria. O projeto deve ser lançado em agosto, mas já causa grande interesse da torcida.

“Nós estamos em movimento contrário a isso. O Inter está resgatando as suas origens e trabalhando para proporcionar acesso ao futebol para todos os nossos torcedores, sejam eles ricos ou pobres. O futebol é para todos os públicos”, prega o vice-presidente de marketing do Inter, Gildo Sibemberg. Ele discorda frontalmente de Alexandre Kalil: “O Beira-Rio tem vários setores, que podem ter vários preços. Hoje, ele é um estádio melhor, mais confortável e mais seguro, mas não pode afastar o torcedor. Pelo contrário. Todas essas qualidades devem servir para atrair mais público, principalmente as famílias”, continua o dirigente.

Ele diz que outra medida que o clube analisa é separar os jogos de acordo com a sua importância e a data. Os mais relevantes, como as finais e os clássicos, teriam um preço maior, assim como aqueles programados para os melhores dias e horários. Os outros teriam preço mais acessível. Para o executivo de marketing do Grêmio, Beto Carvalho, o ex-presidente do Atlético-MG e atual prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kallil, está equivocado. “Em hipótese alguma dou razão para a frase dele. O futebol é um esporte para todos, talvez o único que integra todas as classes sociais e faixas etárias”, destaca. A presença de público na Arena tem ficado na média de 19 mil torcedores por partida em 2017, ou seja, menos da metade da capacidade total.

O torcedor que não se associa ao clube é quem mais sofre com os preços atuais dos ingressos, afinal ele não tem desconto na hora da compra. “Hoje, se tem a condição de ser sócio pagando a partir de R$ 30,00. Com esse valor, já se tem desconto no ingresso. Um sócio que paga R$ 50,00, por exemplo, pode assistir a um jogo do Brasileirão por R$ 25,00. Antigamente, as opções de preços não eram muitas. Os estádios não tinham essa variedade de espaços encontrada hoje”, acrescenta Beto Carvalho.

Para assistir a um jogo do Grêmio no Brasileirão, o torcedor comum precisa desembolsar, no mínimo, R$ 50,00. Na Libertadores da América, esse valor sobe para R$ 60,00. “Ninguém pode forçar o torcedor a se tornar sócio. Agora, é uma condição que trará benefícios. Cabe ao futebol criar uma modelagem de preços e condições, alguma situação que melhore a relação custo-benefício. Se for comparar, em algumas localidades, os ingressos estão até mais baratos que há oito, dez anos atrás”, afirma o dirigente gremista. O executivo também salienta que o clube tem pensado no torcedor menos favorecido economicamente em diversas ações. “Nós temos dentro da própria loja do Grêmio produtos com os mais variados preços. A camisa do Rei de Copas, por exemplo, custa R$ 49,00. Se for sócio, tem 10% de desconto. Nós oferecemos produtos baratos e produtos premium”, diz.