Recentemente, o ex-presidente do Atlético-MG e hoje prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, deu uma opinião que é sua e de muito mais gente. Ao site El País, afirmou com uma franqueza cortante que chegou a hora de o futebol, o esporte mais popular do Brasil, se elitizar de vez. Pregou a implementação de ingressos mais caros para bancar clubes perdulários e jogadores cada vez mais endinheirados. “No mundo inteiro, futebol não é coisa para pobre. Doa a quem doer. Ingresso é caro em todo lugar. Torcida dividida e entrada a preço de banana estragada só existem no Brasil”, afirmou.
A polêmica declaração retrata um movimento que começou bem antes mas se evidenciou com maior rapidez após a Copa do Mundo. Com estádios mais confortáveis à disposição, os clubes de maneira geral fizeram subir o ingresso médio dos seus jogos, afastando as camadas mais populares das arquibancadas. O fanático mais tradicional, que frequentava as partidas de chinelo de dedo e camiseta, está cada vez mais fora do espetáculo. Não vai ao jogo e não compra produtos oficiais — embora desejasse fazer ambos.
No Brasil inteiro, as torcidas se mobilizam para cobrar preços mais acessíveis. No Rio de Janeiro, a torcida do Flamengo, que é a maior do país, frequentemente leva faixas à Ilha do Urubu, pequeno estádio na Ilha do Governador reformado neste ano, protestando contra o valor dos ingressos. Em São Paulo, corintianos e palmeirenses repetem o gesto. Para o sociólogo Mauricio Murad, que estuda o futebol desde a década de 1990, o processo de elitização que está sendo implementado no Brasil é um atentado ao próprio futebol. Para ele, a política de ingressos caros pode até aumentar a arrecadação dos clubes no curto prazo, mas trará prejuízos em breve.
“Algumas autoridades e empresários defendem a elitização de uma forma oportunista, justamente com o objetivo de faturar mais. Mas eles sabem que isto também está errado. A elitização fere de morte a cultura e a história do futebol. No médio e longo prazo, não funcionará. As famílias perderão o costume de frequentar os estádios”, observa Maurício Murad, que recentemente lançou o livro “Violência no Futebol: Novas Pesquisas, Novas Ideias, Novas Propostas”.
O sociólogo, inclusive, afirma que a majoração das entradas sequer diminui a violência. “Não há uma relação direta entre preço de ingresso e a presença das camadas mais populares com o aumento da violência. Ou seja, não é aumentando o preço do ingresso que violência vai diminuir. Na verdade, o problema da violência está servindo para justificar uma elitização do futebol, embora se saiba que a violência é um fenômeno que está presente em todas as classes sociais”, continua.
No Rio Grande do Sul, há um movimento para barrar a elitização dos estádios. O Inter, que administra o seu estádio e pode ditar a política de preços dos ingressos, luta com armas mais poderosas que o rival para manter o rótulo de “Clube do Povo”. Há um mês, o Conselho Deliberativo colorado aprovou uma nova categoria de associados destinada a pessoas de baixa renda. O objetivo é associar novos torcedores ao preço de R$ 10,00 mensais. Os ingressos dos jogos para essa categoria também custarão R$ 10,00.
Para participar do projeto, os colorados devem preencher a um de três pré-requisitos: possuir renda mensal de até dois salários mínimos (R$ 1.874,00), integrar o Cadastro Único do Governo Federal ou estudar em escola pública. Inicialmente, o clube vai oferecer duas mil novas associação nesta categoria. Depois, avaliará se abrirá um lote extra da categoria. O projeto deve ser lançado em agosto, mas já causa grande interesse da torcida.
“Nós estamos em movimento contrário a isso. O Inter está resgatando as suas origens e trabalhando para proporcionar acesso ao futebol para todos os nossos torcedores, sejam eles ricos ou pobres. O futebol é para todos os públicos”, prega o vice-presidente de marketing do Inter, Gildo Sibemberg. Ele discorda frontalmente de Alexandre Kalil: “O Beira-Rio tem vários setores, que podem ter vários preços. Hoje, ele é um estádio melhor, mais confortável e mais seguro, mas não pode afastar o torcedor. Pelo contrário. Todas essas qualidades devem servir para atrair mais público, principalmente as famílias”, continua o dirigente.
Ele diz que outra medida que o clube analisa é separar os jogos de acordo com a sua importância e a data. Os mais relevantes, como as finais e os clássicos, teriam um preço maior, assim como aqueles programados para os melhores dias e horários. Os outros teriam preço mais acessível. Para o executivo de marketing do Grêmio, Beto Carvalho, o ex-presidente do Atlético-MG e atual prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kallil, está equivocado. “Em hipótese alguma dou razão para a frase dele. O futebol é um esporte para todos, talvez o único que integra todas as classes sociais e faixas etárias”, destaca. A presença de público na Arena tem ficado na média de 19 mil torcedores por partida em 2017, ou seja, menos da metade da capacidade total.
O torcedor que não se associa ao clube é quem mais sofre com os preços atuais dos ingressos, afinal ele não tem desconto na hora da compra. “Hoje, se tem a condição de ser sócio pagando a partir de R$ 30,00. Com esse valor, já se tem desconto no ingresso. Um sócio que paga R$ 50,00, por exemplo, pode assistir a um jogo do Brasileirão por R$ 25,00. Antigamente, as opções de preços não eram muitas. Os estádios não tinham essa variedade de espaços encontrada hoje”, acrescenta Beto Carvalho.
Para assistir a um jogo do Grêmio no Brasileirão, o torcedor comum precisa desembolsar, no mínimo, R$ 50,00. Na Libertadores da América, esse valor sobe para R$ 60,00. “Ninguém pode forçar o torcedor a se tornar sócio. Agora, é uma condição que trará benefícios. Cabe ao futebol criar uma modelagem de preços e condições, alguma situação que melhore a relação custo-benefício. Se for comparar, em algumas localidades, os ingressos estão até mais baratos que há oito, dez anos atrás”, afirma o dirigente gremista. O executivo também salienta que o clube tem pensado no torcedor menos favorecido economicamente em diversas ações. “Nós temos dentro da própria loja do Grêmio produtos com os mais variados preços. A camisa do Rei de Copas, por exemplo, custa R$ 49,00. Se for sócio, tem 10% de desconto. Nós oferecemos produtos baratos e produtos premium”, diz.
Ingressos caros afastam torcedores com menor renda dos estádios
Com aumento do valor das entradas, sobram espaços nas arquibancadas