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Alan Patrick, um fenômeno a ser entendido, divide opiniões em sua longa trajetória no Inter

Surpresa na escalação contra o Flamengo quando retornou ao time titular no meio de semana, camisa 10 desperta emoções diferentes ao longo do tempo

Alan Patrick, um fenômeno a ser entendido, divide opiniões em sua longa trajetória no Inter
Alan Patrick, um fenômeno a ser entendido, divide opiniões em sua longa trajetória no Inter Foto : Mauro Schaefer

No estádio Beira-Rio, em alguns desabafos ou cochichos entre colorados, nos grupos de WhatsApp, nos corredores das redações dos veículos de comunicação ou nas mesas redondas de programas esportivos. Alan Patrick é sempre assunto no Inter. Pelo menos era desde que retornou ao clube, em abril de 2022. E voltou na quarta-feira, quando Paulo Pezzolano fez ressurgir do banco de reservas o 'Alanpa 10 e faixa', como já foi tratado o meia. Foi, porque já não era mais, mas deveria ser. Depende do ponto de vista. O fato é que o jogador divide opiniões.

"Ele sabe muito bem o seu papel dentro do vestiário no dia a dia e está fazendo muito bem o seu trabalho. É um jogador de qualidade tremenda e que vamos necessitar muito, jogando pouco ou não", garante Paulo Pezzolano, o único dos últimos treinadores do Inter a arriscar colocar o camisa 10 sentado assistindo aos jogos de fora do time. Antes dele, Mano Menezes, Eduardo Coudet, Roger Machado e a dupla Ramón e Emiliano Díaz nunca experimentaram abrir mão do capitão.

Foi a partir da 7ª rodada do Brasileirão, na primeira vitória na competição, na Vila Belmiro, contra o Santos. Naquele momento, o uruguaio deu um passo atrás em seu modelo de jogo predileto e propositivo e preferiu uma ideia mais conservadora. "Futebol é cada vez com menos espaço e menos tempo de execução. Ele para mim não encaixa na dinâmica do futebol de hoje. Por isso, quando ele saiu do time, houve progresso. O Inter precisa de um modelo que não seja baseado na figura do Alan Patrick", aponta Rogério Amaral, comentarista da Rádio Guaíba.

TRAJETÓRIA

Ao longo da carreira, Alan Patrick vestiu poucas camisas. Começou no Santos, foi e voltou ao Shakhtar Donetsk, onde jogou por seis temporadas, passou por Flamengo e Palmeiras, mas em nenhum outro lugar, talvez apenas na Ucrânia, tenha despertado tamanha admiração como no Inter, ainda que tenha no cartel só dois troféus de Gauchão e uma Recopa.

"Quando um clube tem dificuldade para conquistar títulos maiores, fica um período sem alcançá-los, os jogadores acabam sendo marcados. Inclusive bons jogadores, com liderança, como foi Tcheco no Grêmio, e agora Alan Patrick, no Inter. Bons jogadores, líderes técnicos, capitães e que dividem o torcedor entre quem exige conquistas e quem os enxerga como ídolos. No caso do Alan, o baixo rendimento dos últimos tempos tem até arranhado essa imagem", opina Gutiéri Sanchez, também comentarista da Guaíba.

NÚMEROS
Bastaram, no entanto, 81 minutos contra o Flamengo no Beira-Rio (antes do lance do gol de empate dos cariocas) para que a sensação de que seu retorno ao time estivesse vinculado ao resultado em campo. A ficha corrida de eliminações na Sul-Americana 2022 e 2024, Libertadores 2023 e 2025, Copa do Brasil em 2022, 2023, 2024 e 2025, Gauchão 2023, 2024 e 2026, tudo isso sem contar qualquer chance de conquista no Brasileirão parece ter menor peso do que o impacto de sua presença no meio-campo colorado.

"Os números ajudam a explicar por que Alan Patrick continua sendo indispensável ao Inter. Desde o retorno, em 2022, já são 216 jogos, 59 gols e 41 assistências. Assim como Jair, o Príncipe, nos anos 1970, ele ainda é vítima do preconceito contra o chamado 'falso lento'. Parece jogar em outra velocidade, mas é justamente a sua inteligência que acelera o time e faz a bola chegar com mais velocidade", argumenta o jornalista identificado Nando Gross. Opinião contrária a do colega Fabiano Baldasso.

"Ele representa uma liderança flácida, especialmente na comparação com o que se tinha antes com o D'Alessandro. Especialmente depois da renovação de contrato dele, com pomposo aumento. Ele foi perdendo a competitividade e intensidade. Hoje ele não é mais fundamental. Acho, inclusive, que o ciclo dele deveria ser encerrado. Jogador que é lembrado pelo clube é o que ganha títulos."

Para ajudar a entender o que sente o torcedor do Inter em relação ao seu camisa 10, há diversos caminhos. O que não significa encontrar a explicação definitiva. Estar perto e no calor da arquibancada é uma boa pista. "Ele ainda é tido como referência técnica pelo torcedor, mas ontem (quarta-feira) foi inclusive vaiado quando foi feita a troca dele pelo Calebe. Logo em seguida, os aplausos abafaram o que seriam as vaias", conta Thalia de Castro, repórter da torcida da Guaíba presente no Beira-Rio, após o empate contra o Flamengo. "E com Alan Patrick, que jamais deveria ter sido banco", completou o colunista Hiltor Mombach.

PSICOLOGIA

Uma análise mais distante e, talvez, mais filosófica, vem de uma área que o futebol reluta em aceitar: a psicologia. Débora de Oliveira é jornalista, mas também psicóloga do esporte e conhece de perto a relação entre o torcedor e seus ídolos no Rio Grande do Sul. Identifica como um 'contrato invisível' o que pode acontecer no caso específico:

"Quando o jogador deixa de corresponder a essa imagem idealizada, a admiração pode sofrer uma queda muito brusca. A pessoa não é mais percebida em sua complexidade; ela passa a ser avaliada quase exclusivamente pelo desempenho daquele momento. Esse fenômeno conversa com o que a psicologia estuda sobre valor pessoal e aprovação externa: quando a percepção de valor fica muito condicionada ao desempenho ou à avaliação dos outros, um fracasso pontual pode produzir uma reação desproporcional."

A partir de domingo, contra o Corinthians, nas oitavas de final da Copa do Brasil, Alan Patrick e o atual elenco do Inter têm mais uma chance para seguir buscando um título de maior relevância para oferecer ao torcedor colorado. Em particular para o camisa 10, não se trata de uma chance derradeira; afinal de contas, no final de 2025, ele ampliou o contrato com o clube até o fim de 2027.