Às vésperas do Natal, em 16 de dezembro, o Conselho Deliberativo do Inter se reunirá para debater e aprovar ou não um plano, elaborado pela atual gestão colorada, para lançar debêntures no mercado. A ideia, que divide a torcida, também causa discussão nos bastidores, mas o pano de fundo de todo o debate é o tamanho da dívida colorada, que não para de aumentar, apesar das reiteradas promessas de diminuí-la ao longo dos últimos anos. O projeto serviria para amortizar e alongar essa dívida, mas ela continuaria existindo.
Em resumo, o projeto das debêntures visa arrecadar R$ 200 milhões junto a investidores para, de acordo com os dirigentes, pagar uma parte das dívidas antigas. Porém, o Inter terá que quitar esses R$ 200 milhões em até cinco anos, com um ano de carência. O lado positivo é que há uma troca de um débito mais caro (juros mais altos) por outro mais barato (juros mais baixos). Ou seja, o clube gastaria menos com os juros da dívida em um futuro próximo, ganhando fôlego para investimentos.
O problema é que a garantia dada aos credores é o Beira-Rio, além das receitas com o quadro social – em grande parte já utilizadas como garantia de outros débitos, principalmente a bancos. O estádio colorado, cujo valor é estimado em cerca de R$ 1 bilhão, seria oferecido por meio de uma operação chamada “alienação fiduciária”, na qual, em resumo, um devedor entrega ao seu credor um bem de sua propriedade como garantia de que pagará uma dívida. No caso, as debêntures.
Portanto, em troca de receber os R$ 200 milhões à vista, o Beira-Rio seria transferido imediatamente para uma empresa securitizadora, que faria a operação de crédito. O estádio ficaria em nome desta empresa até que o empréstimo seja totalmente quitado, em cinco anos. E, em caso de não pagamento, há risco de perda do patrimônio.
Importante ressaltar que, de acordo com a legislação brasileira, um clube de futebol não pode lançar debêntures no mercado. O Inter fará isso auxiliado por uma instituição financeira. Outro detalhe é que o plano das debêntures só precisa da aprovação do CD porque o Beira-Rio é a garantia. Se não fosse, seria considerado um “ato de gestão” e poderia ser realizado sem aprovação dos conselheiros.
São Paulo e Atlético-MG já realizam movimentos semelhantes. Porém, em geral, empresas ou instituições financeiras lançam debêntures para amealhar recursos necessários para novos investimentos que, em um prazo compatível, aumentem a produtividade da empresa e deem retorno suficiente para o pagamento do débito. Ou seja, o próprio projeto garante receitas futuras capazes de pagar os credores. No caso dos clubes, servirá apenas para o pagamento de dívidas.
O plano das debêntures foi estudado por um grupo de sete conselheiros por cerca de quatro meses. Além do plano em si, eles avaliaram a origem das dívidas e o panorama financeiro do clube. Por cinco votos contra dois, a comissão rejeitou o plano justamente por conta do Beira-Rio ser utilizado como garantia. Porém, serão os conselheiros, provavelmente com voto nominal, que aprovarão ou rejeitarão o projeto. A promessa é de uma votação apertada.
O ENDIVIDAMENTO DO INTER
As dívidas do Inter aumentaram com certa regularidade na última década, passando de cerca de R$ 360 milhões em 2016 para R$ 693 milhões no final de 2023. O clube ainda não se manifestou sobre uma nova elevação agora, mas, com base no déficit de R$ 44,3 milhões programado para 2024, é provável que haja um novo salto. Uma parte desse aumento deve-se aos prejuízos causados pelas enchentes, mas outra tem causa nos investimentos feitos no futebol, que foram superiores aos projetados no orçamento.
O calcanhar de aquiles do projeto de debêntures é que a atual gestão não conseguiu reduzir a dívida nem quando houve receitas extraordinárias, como a venda de Yuri Alberto, em janeiro de 2022, ao Zenit, da Rússia, por 25 milhões de euros, nem no ano passado, quando o clube recebeu mais de R$ 109 milhões da Liga Forte União pela venda de seus direitos de transmissão por um prazo de 50 anos.
Em 2023, aliás, a dívida aumentou, inclusive com bancos. Nesse mesmo período, esse tipo de débito chegou a R$ 123,2 milhões. Além disso, entre 2021 e 2023, as obrigações com outros clubes e jogadores do elenco aumentaram em R$ 69,3 milhões, chegando a quase R$ 200 milhões. Ou seja, o Inter utilizou os recursos da LFU para pagar dívidas antigas, mas fez novas.
Importante ressaltar que as contratações feitas neste ano, algumas das quais já causam cobranças públicas ao Inter – como as compras de Wesley, do Cruzeiro, Thiago Maia, do Flamengo, e Borré, do Eintracht Frankfurt – não estão computadas neste número. Elas aparecerão no balanço de 2024, que será publicado até maio.