Não precisou sequer do anúncio oficial. Na véspera, noite desta terça-feira, quando o nome de Eduardo Baptista ganhou o noticiário, imediatamente boa parte da torcida colorada lembrou de Nelsinho, o pai do escolhido para ser o substituto de Paulo Pezzolano. Não exatamente do ex-treinador em si, mas sim de sua polêmica passagem pelo Inter. Neste 24 de setembro, a conturbada saída, curiosamente, completa exatos 30 anos.
Agora, passadas três décadas, quis o destino que o filho assumisse o Inter em um momento muito mais delicado do que em 1996. Outra enorme coincidência é que o primeiro jogo de Eduardo Baptista com as cores vermelho e branco será contra o Corinthians, justamente para onde o pai. Será no dia 7 de outubro, na retomada do Brasileirão.
No final de setembro de 1996 o Inter lambia as feridas da derrota por 2 a 1 no Gre-Nal, em pleno Beira-Rio quando o Corinthians demitiu Valdyr Espinosa. E quem estava na mira paulista para voltar ao clube onde conquistara o Brasileirão de 1990? O técnico do time derrotado no clássico.
A notícia pegou a todos de surpresa no Beira-Rio e movimentou os bastidores do clube. Relembre abaixo, pelas páginas do Correio do Povo da época, a cronologia das 72 horas entre o Gre-Nal, a negativa do treinador em trocar de clube e a reação dos dirigentes diante do que parecia ser difícil de acreditar.
Domingo - 22 de Setembro
O Beira-Rio recebeu 47.172 pessoas na vitória gremista por 2 a 1, gols de Paulo Nunes, de bicicleta e Dinho, de falta. Murilo marcou para os donos da casa. O resultado prejudicou ainda mais a campanha do Inter no Campeonato Brasileiro e contribuiu para a classificação tricolor para a segunda fase de onde sairia campeão.
Segunda-feira - 23 se Setembro
"O Inter foi melhor, mas caiu diante da frieza de seu adversário, implacável como um assassino de aluguel". O texto de abertura da crônica do jornal não deixava dúvidas de quem havia jogado melhor. A cotação da partida também destacava atuações individuais. Danrlei recebeu nota 10 e do outro lado Gamarra e Arilson ganharam 9.
A coluna do Hiltor Mombach revela a passagem do tempo, o que talvez seja difícil de explicar para as novas gerações: "Escrevo antes de ver pela televisão o lance que originou o segundo gol do Grêmio. (...) Me parece que o goleiro André falhou".
Terça-feira - 24 se Setembro
Eram outros tempos e o acesso da imprensa, fosse pessoal ou por telefone, era muito maior do que o atual. Diante do burburinho (não existia internet nem whats app), as fontes eram primárias. No caso, o próprio Nelsinho peremptoriamente negava a sua saída. Isso a poucas horas de arrumar as malas. "Só se fosse demitido na madrugada".
Em outro contato, o presidente Pedro Paulo Záchia também não titubeava diante da informação: "Ele tem contrato até dezembro e com certeza cumprirá. Em outro clima, ligando talvez o resultado do jogo às consequências dele, o vice de futebol Ibsen Pinheiro lançou mão de uma frase de efeito: "Ao virar bruscamente a bacia para jogar fora a água suja, corremos o risco de perder também a criança".
Quarta-feira - 25 se Setembro
O Correio do Povo já trabalhava com o nome do substituto de Nelsinho, a essas alturas longe da capital gaúcha. Seria Mário Sérgio, que não veio e a opção foi por Figueroa. Naquele momento, o presidente admitia o que os dirigentes consideraram uma traição.
"Não posso colocar um revólver na cabeça dele e obrigá-lo a ficar", disse Záchia. Enquanto isso, Nelsinho, explicava as suas razões para a mudança: "Estou voltando para São Paulo, um grande centro do futebol. É um passo importante na minha carreira. Nunca larguei o barco afundando e não faria isso agora, mas no futebol as trocas são frequentes. Quando o técnico é mandado embora, fica tudo certo. Quando sai por uma proposta melhor é chamado de traídor."