Roberto Carlos Abbondanzieri, ou simplesmente Pato, se acomodou em uma das cadeiras de ferro do gramado suplementar do EstádioBeira-Rio. De cara, fez um pedido: ''Despacito, porque yo no entiendo bien''. Prestativo, o assessor de imprensa do Inter, José Evaristo Villalobos, ofereceu o seu espanhol de Rivera para ajudar a traduzir a conversa. Não seria necessário. O novo goleiro do Inter se esforça para entender e ser entendido. Foi assim que começou a entrevista concedida com exclusividade ao CP na última sexta-feira.
Pato chegou a Porto Alegre há menos de duas semanas, mas já circula pelo Beira-Rio como antigo convidado. D’Alessandro e Guiñazu são seus cicerones não só pelo clube, mas também pela cidade. Afinal, Cabezon e El Cholo são argentinos como o goleiro e o conheciam há mais tempo. ''Desde o dia que cheguei, a torcida me deixou muito feliz. Aqui no Inter, os companheiros também me receberam muito bem. Isso torna as coisas bem mais fáceis. Já passei dias lindos aqui'', disse Pato, sorridente.
Neste final de semana, o goleiro comemorou a chegada dos familiares. Além da esposa, vieram os filhos Felipe, 9 anos, Ernesto, 14, e Camila, 18. Nos próximos dias, o jogador vai providenciar a mudança do hotel onde está para um apartamento no mesmo condomínio onde moram Guiñazu e Índio. O atleta conta que ficou surpreendido pelo interesse do Inter.
''Foi tudo muito rápido. Saí do time e dois ou três dias depois fui procurado. Fechamos tudo em 48 horas'', afirma o goleiro. O argentino confirma que oColorado se tornou um clube de referência na América do Sul: ''A imagem do Inter é muito boa na Argentina. Há alguns anos, só se falava no São Paulo. Agora, o Inter também é muito comentado. Isso ajudou muito'', afirma.
Saída do Boca Juniors
Apesar de ter deixado o Boca Juniors, onde colecionou títulos, não esconde seus sentimentos de profunda ligação com o clube e a torcida xeneize. Envergando a camisa do clube argentino, foi bicampeão mundial (2000 e 2003) e tri da Libertadores (2000, 2001 e 2003), além de outros tantos. Pato explica que trocou Buenos Aires por Porto Alegre porque queria jogar, simplesmente.
No Boca, entrou em rota de colisão com o técnico Abel Alves e acabou preterido por Javi García, um goleiro de 22 anos. Fazia parte do grupo dos ''históricos'', que comandava o vestiário da Bombonera há anos. ''Preciso jogar. Na minha idade, não posso mais ficar esperando uma oportunidade. Tenho de jogar e me divertir até quando puder'', disse.
Seu plano deu certo. Ele chegou em Porto Alegre em uma quinta-feira. Cinco dias mais tarde, fez sua estreia. Ocupou a camisa 25 na partida contra o Emelec, que também foi a primeira do Inter na Libertadores. O time colorado venceu os equatorianos por 2 a 1, de virada. ''A Libertadores é assim. Tem de saber acelerar na hora certa, mas também tem horas que o time deve ter outro ritmo'', ensina o tricampeão do torneio.
Experiência no futebol
Os cabelos prateados denunciam a idade: Abbondanzieri completará 38 anos em agosto. Portanto, experiência acumulada não falta. Em tantos anos de carreira, já enfrentou o Inter três vezes, com duas vitórias e uma derrota. Lembra o último confronto, em 2005, pela Copa Sul-Americana, no Beira-Rio: ''Resistimos até o final, mas daí o Fernandão fez aquele gol. O árbitro me expulsou e eu fiquei de fora da revanche'', lembra Pato, que não fez tanta falta assim ao Boca, que venceu o Inter por 4 a 1 na Bombonera, ficou com a vaga na fase seguinte e, em seguida, com o título do torneio.
E o futuro? Pato não faz planos. Os 37 anos o impedem. Por enquanto, se sente perfeitamente bem e garante que cumprirá seu contrato com o Inter até dezembro em alto nível. Depois, analisará as possibilidades. ''Pelo Boca, ia encerrar a carreira no final do ano. Mas a situação mudou. Vou jogar até dezembro e ver como fica, mas gostaria muito de jogar mais uns dois ou três anos pelo Inter. Daí, encerro a carreira feliz'', conta.
Ping-pong com Pato:
Roberto Carlos Abbondanzieri, o Pato, completa 38 anos em 19 de agosto. Ele tem 1,86 metro e nasceu em Bouquet, cidade de Santa Fé, na Argentina. Sua carreira começou no Rosário Central em 1994. Foi para o Boca Juniors em 1996, onde ficou até 2006. Passou pelo Getafe, da Espanha, e voltou para a Buenos Aires e para o clube da Bombonera em 2009. Foi titular da seleção argentina na Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, e, agora, defende o Inter. Em 16 anos de carreira, acumula um cartel de títulos que impressiona.
Ser goleiro, o que significa? É ótimo algumas vezes, mas, em outras, é muito injusto. Se um goleiro erra, é gol. Se um atacante erra, não passa nada.
Se você não fosse goleiro, seria... Zagueiro central.
Principal defesa da carreira: Muitas... não tem como dizer, mas adoro defender pênaltis.
Melhor momento da carreira: A disputa da Copa do Mundo da Alemanha. Foi maravilhoso.
Momento mais difícil: Tive de parar de jogar duas vezes para fazer duas cirurgias no ombro esquerdo. Foi em 2005 e 2000. Não gosto nem de lembrar.
Música: Argentina de todos os tipos. Rock, folclore, cumbia, etc.
Hobby: Adoro corridas de automóvel. Gosto de Fórmula 1, rali, qualquer tipo de corrida. Já até brinquei de piloto, mas evito novas aventuras para não me machucar.
Lugar: Bouquet, mi pueblito.
Ídolo: Fillol (Ubaldo Matildo Fillol, conhecido como ''El Pato''. Jogou por clubes da Argentina, no Flamengo e no Atlético de Madrid nas décadas de 1970 e 80. É considerado até hoje um dos melhores goleiros argentinos da história).
Imagem do Inter é muito boa na Argentina, diz Pato
Goleiro do Inter concedeu uma entrevista exclusiva ao jornal Correio do Povo