Após duas semanas de férias e igual período de treinamentos, o Inter está pronto para voltar às competições. Neste sábado, o time colorado enfrenta o Vitória, no Beira-Rio, com um objetivo muito claro: vencer para escapar das últimas posições do Campeonato Brasileiro. Ou, como disse Roger Machado em entrevista ao CP nessa quarta-feira, no CT Parque Gigante, fugir do Z-4 é a “principal urgência” do time no momento. Em mais de meia hora de conversa, o técnico, que completa um ano de Inter na próxima semana, também falou da espera por reforços, da falta que Fernando faz à equipe, das chances do Inter na Copa do Brasil e na Libertadores da América e da concorrência cm campo contra times bem mais ricos.
VOLTA AOS TREINOS
“Os 15 dias de pré-temporada foram muito importantes. Eles não levam, obviamente, o jogador a um nível de descondicionamento total. Ficamos muito tempo com jogo atrás de jogo, então os atletas acabam se desgastando e perdendo algumas variáveis importantes, como a força física. Nessas semanas, buscamos recuperar isso, esperando que estejamos 100% já no primeiro jogo da retomada do Campeonato Brasileiro. Também foi importante para recuperar jogadores. O Inter sofreu bastante com lesões por conta da carga de jogos. Essa parada serviu justamente para recomeçar e retomar o trabalho.”
RETORNOS
“O Bernabei está sendo inserido gradativamente. Ele é um pouco ansioso, quer sempre estar em campo, mas temos conversado com ele. Precisamos respeitar os prazos, porque foi uma lesão importante. É necessário que o tecido se regenere, embora a clínica dele seja muito boa. E mesmo entendendo a urgência por um retorno no Campeonato Brasileiro, também precisamos cuidar da reintegração dos atletas, porque queremos que eles tenham sequência e não retornem ao departamento médico. O Mercado também está à disposição, mas precisa de ritmo de jogo. Conversamos com ele. Ele vai entrar aos poucos. Carbonero e Victor Gabriel também estão de volta.”
SITUAÇÃO NO BRASILEIRÃO
“Nosso planejamento no início do ano previa a classificação na Libertadores e, antes disso, a conquista do Campeonato Gaúcho. Sabíamos que a sequência de jogos seria muito dura — envolvendo Copa do Brasil, Libertadores e o Gauchão — e que, logo depois, teríamos o Brasileirão. Seria um primeiro semestre muito difícil. Mas conseguimos cumprir o planejamento, com o título estadual e a classificação na Copa do Brasil e na Libertadores. Agora, a nossa principal demanda é o Campeonato Brasileiro, que fugiu um pouco do nosso controle. Temos quatro jogos (antes das Copas) e, se pontuarmos bem, recolocamos o time no trilho também no Brasileiro, afastando a desconfiança externa que existe por estarmos numa zona de desconforto. Portanto, a urgência agora é o Brasileirão. Copa do Brasil e Libertadores ficam, respectivamente, para outro momento.”
COPAS X BRASILEIRÃO
“Entendo quando dizem que o time respondeu melhor nas Copas do que no Brasileiro, mas não vejo essa afirmação como totalmente verdadeira. Ela se apoia em alguns elementos: o Brasileiro tem 38 rodadas, e a Libertadores é tiro curto, com jogos eliminatórios que exigem níveis de concentração diferentes. O jogador também é um ser humano. Tem momentos em que está mais motivado, mais envolvido, inclusive em função do ambiente externo. Um exemplo: depois de uma classificação com 50 mil pessoas no Beira-Rio contra o Bahia, você vai jogar contra o Fluminense, que está prestes a disputar o Mundial, com um público bem menor. Isso passa uma mensagem. A gente tenta desconstruir isso diariamente, mas não é fácil.”
FALTA DE FERNANDO
“Ele é parte da espinha dorsal do time, principalmente na zona central do campo. Ele e o Alan Patrick se procuram muito durante o jogo e funcionam como satélites, aos quais os jogadores mais periféricos se conectam. O Fernando atua na primeira fase de construção e nos nossos controles de cobertura e transição. É um jogador muito importante, que vinha muito bem. Infelizmente, vai ficar três ou quatro meses afastado, e vamos ter que olhar para dentro do grupo para buscar o substituto. O Thiago Maia já fez essa função até pouco tempo, antes de eu transformá-lo em ‘oito’. Ele é uma opção, especialmente para o primeiro jogo (Vitória), já que o Ronaldo está suspenso. Mas o mercado abriu agora e, embora o clube tenha sido claro quanto à situação financeira, temos essa demanda. Estamos em busca de alternativas.”
CONCORRÊNCIA
“Competir com orçamentos maiores sempre será muito difícil. O Inter, nesse momento, precisa trabalhar com criatividade: buscar jogadores que queiram mais oportunidades ou tentar outros modelos de negócio para se manter competitivo. Além disso, é preciso olhar para a base. Às vezes, é necessário entender que um lateral-esquerdo com boa imposição física pode virar um zagueiro, como no caso do Victor Gabriel. Já fizemos isso.”
UM ANO DE INTER
“Cheguei no ano passado em um momento pós-enchente, com jogos atrasados e uma eliminação na Sul-Americana logo em seguida. A recuperação foi muito boa no Campeonato Brasileiro, quando tínhamos apenas uma competição em andamento, e conseguimos a vaga direta para a Libertadores. Durante quatro ou cinco rodadas ainda sonhamos com algo maior — até mesmo com o título. Neste ano, conquistamos o Gauchão e nos classificamos em primeiro lugar no grupo da Libertadores, além de passar para a próxima fase da Copa do Brasil. Quase todos os objetivos que projetamos lá atrás foram alcançados. Então, avalio como um ciclo de bom a muito bom. Seria ótimo ou excelente se estivéssemos em uma posição mais confortável no Brasileirão.”
REFORÇOS
“A gente não fica falando publicamente sobre o que precisa, mas alinhamos as demandas do time com a capacidade do clube no momento. Tenho certeza absoluta de que o clube está fazendo um esforço grande para qualificar o elenco. Queremos reforços, o torcedor também quer, mas a janela só abre agora (nesta quinta-feira). No início da janela, os preços estão sempre muito inflacionados. Vamos ver como o mercado vai se movimentar, mas temos a necessidade de, por exemplo, um volante para a função do Fernando e outros atletas para posições diferentes. Estamos monitorando, fazendo ligações e usando nossos contatos e influência no futebol.”
VALENCIA E BORRÉ
“Temos a certeza de que, quando os dois estiverem juntos em campo ou até revezando na função de centroavante, estaremos mais próximos dos gols. Desde que cheguei aqui, venho quebrando a cabeça para encontrar uma forma de tê-los juntos. Eles dão outro tipo de peso ao time. O desafio é encaixá-los junto com o Alan Patrick. É preciso equilíbrio entre ataque e defesa. Se algum dia eu optar por três zagueiros, consigo colocar os dois na frente, com o Alan no meio. Mas, para isso, seria preciso reorganizar várias peças. Mas tanto o Borré quando o Valencia estão prontos e à disposição para jogar.”
POLÍTICA
“Sou uma figura pública e tenho também minhas demandas sociais. Posso e devo ter opiniões sobre como a sociedade se movimenta. Mas percebi, ao longo do tempo, que, especialmente quando o campo não vai bem, algumas manifestações minhas soavam como se eu estivesse prestando mais atenção em outras coisas do que no futebol, que é minha atividade principal. Por isso, passei a me preservar mais e entender os momentos certos de me posicionar. Continuo atento ao que acontece na sociedade, e para mim é muito difícil me abster de dar opinião quando acho que devo. Como cidadão, sigo atento ao meu redor e vou falar quando achar necessário e certo.”