Diz-se que a noite de 16 de agosto de 2006 não acabou para os colorados. De fato, principalmente para aqueles que estavam no Beira-Rio na decisão da Libertadores da América contra o São Paulo, ela continua viva. Mas as lembranças e marcas daquele empate por 2 a 2, vivido debaixo de chuva e algum frio, variam para cada uma das quase 60 mil pessoas que lá estavam.
Umas, devido à forte emoção, sequer lembram dos detalhes do jogo e guardam apenas a emoção do desagravo pelos anos de sofrimento, como o torcedor Jorge, que viu o jogo — embora não guarde muitas recordações — das arquibancadas. Outros, como o massagista Juarez, tiveram a chance de assistir a tudo de perto, de dentro do gramado. Outros ainda, abriram mão do jogo para apelar ao transcendental. Seu Gelson está neste grupo. Ele ocupou-se em rezar e não viu Índio — que viu e participou de tudo dentro do campo — engalfinhar-se com os atacantes do São Paulo até a exaustão completa.
Aquela noite — que completará uma década nesta terça-feira e será revivida com um jogo festivo entre jogadores daquele time contra craques colorados históricos — mudou a trajetória do Inter. O clube saiu da fila, elevou-se em nível mundial e encarreirou uma série de conquistas. Acima de tudo, o título da Libertadores 2006 foi o marco de uma virada na história do Inter. O colocou em outro patamar. Um patamar de vitórias.
A insônia de Índio
Antes de ser jogador de futebol, Índio cortava cana em lavouras do interior de São Paulo. Começou a carreira tardiamente e correu o Brasil antes de desembarcar no Beira-Rio no início de 2005, já com 30 anos. Na noite de 16 de agosto, tinha a missão de segurar o forte ataque do São Paulo ao lado de Bolívar e Fabiano Eller, os outros dois zagueiros do time montado por Abel Braga. Por isso, a insônia, que marcou toda a sua trajetória, foi ainda mais impiedosa às vésperas da decisão. “Não dormi um minuto sequer na noite antes do jogo. A gente sabia que seria difícil. O São Paulo era um timão. Eu sempre me cobrei muito, queria melhorar, ficava nervoso. Por isso, hoje tenho uma úlcera no estômago. Não conseguia descansar”, lembra. Em campo, o tempo passou mais rápido para os jogadores do que para quem estava nas arquibancadas. Menos os derradeiros minutos: “Aquele final de jogo foi complicado, pois a gente estava com um homem a menos e o São Paulo veio para cima. Foi uma correria louca”, diz. A lembrança mais viva é o pós-jogo: “O Beira-Rio estava lindo. E quando terminou o jogo, nossa senhora, foi demais”.
A Tranquilidade de Juarez
Juarez Quintanilha, o Jura, é um profissional exemplar. Massagista do Inter há 27 anos, executa com zelo as suas funções dentro do vestiário, cuidando da boa forma dos jogadores. Mas a verdade é que ele une o útil ao agradável: “Eu sou muito colorado”, assume. Por força de escala, Juarez trabalhou na final da Libertadores de 2006 e, por isso, teve o privilégio de assistir a todo o jogo do banco de reservas — não exatamente sentado. Admite a tensão da partida, mas afirma que jamais acreditou na possibilidade de o Inter não conquistar o título. “Por incrível que pareça, eu estava tranquilo. Naquela noite, ninguém iria tirar a taça do Inter. A energia era muito positiva”, diz. Do alto do hotel que o Inter usava de concentração, que fica bem próximo do Beira-Rio, ele assistiu à multidão rondar o estádio na noite da véspera. “Perdi o sono. Fui para a janela e vi toda aquela gente caminhando em volta do Beira-Rio. Aquilo foi um loucura! Nunca mais vai se repetir”, afirma Juarez. Para ele, aquela formação do Inter tinha uma trunfo que o inimigo não poderia neutralizar: “O Inter tinha um anjo em campo. Ele se chamava Fernandão”.
As orações de Gelson
Quando a decisão contra o São Paulo foi chegando nos seus momentos finais, Gelson Pires, hoje com 71 anos, deixou o seu refúgio dentro do vestiário, onde estava rezando desde o primeiro minuto, e foi caminhando pelo túnel de acesso ao gramado. Como vice-presidente de comunicação social na época, ele tinha a prerrogativa de circular pelo estádio. Em jogos importantes e em Gre-Nais — sim, porque seu Gelson não gosta de ver “eles jogarem nem contra o Inter” —, ele costumava abrir mão de assistir ao jogo para resguardar-se e rezar. “Caminhei até o final do túnel e, quando me deparei com o campo, gelei. Virei de costas e fiquei olhando para a torcida. E voltei a rezar”, relembra. Foi então que percebeu a pressão que o São Paulo, a esta altura nos minutos finais da partida, exercia sobre o Inter: “Os torcedores só olhavam para um lado do campo, o lado da nossa defesa. Pensei: ‘nossa, eles estão em cima’”. E estavam mesmo. O São Paulo, aproveitando-se da expulsão de Tinga, armou uma verdadeira blitze cercando a defesa colorada: “Foram os piores 12 minutos da minha vida. Mas resisti para comemorar”.
A champagne de Jorge
Jorge Luiz Souza Ferreira assistiu às conquistas da década de 1970 feliz e orgulhoso. Depois, amargou os anos de jejum sem abandonar o clube. Ia ao Beira-Rio mesmo com poucas perspectivas e aguentava altivo a corneta dos gremistas, principalmente após as conquistas da América e do Mundo pelo rival. “Em 1999, ganhei uma garrafa de champagne francesa, daquelas grandes. Era uma garrafa bonita, cheia de detalhes. Disse para que só abriria quando o Inter fosse campeão da Libertadores. Isso foi em 1999! Todo mundo ria de mim. Mas eu guardei a champagne”, lembra. Até 16 de agosto de 2006, quando retirou o pó e colocou a garrafa na geladeira. À noite, acondicionou-a em uma caixa com gelo e levou até o Beira-Rio. Deixou guardada para depois do jogo. “Não me lembro de nada. Estava emocionado”, diz. Os amigos que estavam com ele recordam que Jorge viu todo o segundo tempo grudado ao alambrado, abraçado em desconhecidos. A chuva que caiu insistentemente naquela noite ajudou a disfarçar as lágrimas que escorriam do rosto enquanto ele tomava a champagne ainda nas cercanias do Beira-Rio. Era a sua desforra.
O caminha até o título teve uma campanha consistente e uma decisão rica em emoção contra o São Paulo
Depois de início complicado, o Inter consolidou campanha na Libertadores de 2006. Enfrentando Maracaibo, Nacional e Pumas, construiu a segunda melhor campanha da primeira fase, condição que lhe garantiu o privilégio de decidir as etapas seguintes no Beira-Rio. Passou, após dois jogos complicados com o Nacional (de novo) e chegou às quartas de final. Jogou em Quito, e perdeu de virada por 2 a 1 para a LDU. Após um mês e meio de parada para a disputada da Copa de 2006, a competição foi retomada para o Inter com a vitória que lhe garantiu passagem para a semifinal. O Libertad tinha elenco forte, com Guiñazu como um dos destaques.
Um empate no Paraguai deu tranquilidade para o jogo no Beira-Rio, mas a classificação não veio fácil. Os dois gols foram marcados só no segundo tempo. Então, vieram as finais. No primeiro jogo, Rafael Sobis calou o Morumbi com dois gols e o Inter ganhou por 2 a 1. Em vantagem, jogou no Beira-Rio lotado em busca do título. Fernandão abriu o placar aos 29 minutos do primeiro tempo. Fabão empatou aos 5 do segundo. Tinga colocou o Inter em vantagem aos 20, mas levantou a camisa na comemoração e foi expulso. Lenílson empatou aos 39, submetendo os colorados ao terror no final do jogo. Quem foi ao Beira-Rio não esquece.
Confira a campanha do Inter na Libertadores 2006
Primeira fase
16/02 Maracaibo (VEN) 1 x 1 Inter
23/02 Inter 3 x 0 Nacional (URU)
08/03 Pumas (MEX) 1 x 2 Inter
22/03 Inter 3 x 2 Pumas (MEX)
04/04 Nacional (URU) 0 x 0 Inter
18/04 Inter 4 x 0 Maracaibo (VEN)
Oitavas de Final
27/04 Nacional (URU) 1 x 2 Inter
03/05 Inter 0 x 0 Nacional (URU)
Quartas de final
10/05 LDU (EQU) 2 x 1 Inter
19/07 Inter 2 x 0 LDU (EQU)
Semifinal
27/07 Libertad (PAR) 0 x 0 Inter
03/08 Inter 2 x 0 Libertad (PAR)
Final
09/08 São Paulo 1 x 2 Inter
16/08 Inter 2 x 2 São Paulo
Libertadores 2006: Visões da noite que não acabou
Índio, o massagista, o dirigente e um torcedor contam as lembranças da conquista