Quem testemunhou o episódio do papel picado antes do jogo de volta das oitavas de final da Libertadores entre Inter e Flamengo no último dia 21 ficou com a sensação de que o episódio esfriou o Beira-Rio ao atrasar o apito inicial por 21 minutos.
É bem provável que o atraso tenha de fato prejudicado mais o time de Roger Machado do que o de Filipe Luís pela atmosfera criada pelos donos da casa. No entanto, o que o apito final mostraria depois é o que vem acontecendo muito antes do constrangimento pelo botão apertado antes da hora. Não é de agora, começou em gestões anteriores e se estende até a atual o período em que o clube passou a sofrer com a carência de títulos.
A frustração à frente da torcida há mais de uma década vem sendo uma constante. O Beira-Rio, pelo menos em momentos decisivos, principalmente nas competições eliminatórias, vem perdendo força como fator local a favor do Inter. Os números mostram isso, assim como a presença de público na casa colorada onde cabem aproximadamente 50 mil pessoas.
Se na derrota recente para o Fluminense de Renato Portaluppi na Copa do Brasil foram 33.801 torcedores, contra o Flamengo no 'jogo do ano' estiveram presentes 43.581 torcedores, sendo dois mil rubro-negros. A título de comparação, o recorde de 2025 é da decisão do Gauchão quando 49.295 pessoas lotaram o Beira-Rio.
A vitória do último domingo contra o Fortaleza trouxe mais um dado a ilustrar o comportamento recente da torcida colorada. Desde a remodelação do estádio para a Copa do Mundo de 2014, este foi o pior público do Inter em jogos de Brasileirão: 9.099 abnegados colorados superando a marca de 2019 contra o Botafogo de 9.962 pessoas, coincidentemente também logo após uma eliminação para o Flamengo na Libertadores.
Em agosto de 2011 quando Giovanni Luigi presidia o clube, o Inter derrotou o Independiente-ARG por 3 a 1 no Beira-Rio levantando o bicampeonato da Recopa Sul-Americana. De lá para cá, com o passar dos anos, o que se vê é que a energia entre time e torcida, capaz de produzir belos espetáculos como as 'Ruas de Fogo' criada em 2010, não se reflete a contento em resultados dentro do campo.
Desde então, passaram na presidência Vitorio Piffero (2015 e 2016), Marcelo Medeiros (2017 a 2020) e Alessandro Barcellos (2021 a 2025). Somados todos os presidentes e tirando as finais disputadas dentro e fora de casa, foram 28 eliminações, sendo 12 delas dentro do Beira-Rio onde o Inter foi derrotado 14 vezes. Ou seja, na metade das disputas com partidas de ida e volta, o visitante saiu-se vencedor.
O ano de 2025 não reserva mais nenhuma partida eliminatória para os comandados de Roger Machado. Porém, como resta apenas o Brasileirão, a dificuldade na tabela e a necessidade de subir posições para voltar a disputar competições sul-americanas no ano que vem impõem ao time a responsabilidade de somar pontos dentro de casa, onde historicamente o Inter conquistou a grande maioria de suas glórias com a torcida pegando junto.