Formar um bom goleiro obedece a uma lógica quase industrial. Ou seja, entre outras coisas, é fundamental dispor de boa matéria-prima e utilizar um processo de produção eficiente e moderno. No Inter, neste momento, há abundância de ambos. Por isso, a boa fase dos camisas 1 do Beira-Rio não chega a ser uma surpresa, principalmente para as pessoas que circulam na intimidade desta “fábrica”.
Não é de hoje que o clube é reconhecido por sua capacidade de formar goleiros. Das categorias de base do Beira-Rio já surgiram, por exemplo, Taffarel, Renan e André Döring, todos com passagem pela Seleção Brasileira. “Os goleiros têm que estar em constante evolução. Não tem segredo, mas há alguns fatores que ajudam a alcançarmos a excelência. O primeiro deles é o trabalho. E, aqui no Inter, eles trabalham muito, inclusive os mais velhos, que servem de exemplo para os mais novos”, enfatiza Daniel Pavan, preparador de goleiros do Inter e artífice desta safra que renderá novos frutos a seguir - pelo menos é o que ele próprio garante.
Ele explica que os goleiros têm características natas. A “matéria-prima” essencial para eles é a estatura avantajada, de preferência acima de 1,90 m, sem comprometer a agilidade e a personalidade forte, que deve incluir frieza, equilíbrio emocional, arrojo e muita coragem. Pavan admite que, hoje em dia, candidatos mais baixos, mesmo que bons tecnicamente, são desencorajados a seguir a carreira. “Infelizmente, deixamos de lado os que não vão chegar a 1,90 metro de altura ou muito perto disso”, confirma.
Com a matéria-prima na mão, vem a fabricação propriamente dita. No Inter, seja no CT Parque Gigante, onde treina o grupo principal, seja em Alvorada, onde estão alojadas as categorias de base, os goleiros trabalham muito. Em média, cerca de uma hora a mais que os jogadores “de linha”. “Os goleiros são os primeiros a chegar e últimos a sair. Não pode ter medo de trabalhar e ser arrojado. Goleiro não pode ter medo de ir na bola. Por isso, para jogar em time grande, tem que ter personalidade para encarar os grandes jogos”, confirma Giuliano Roxo, que trabalha com o grupo sub-23 e tem a formação de goleiro no sangue. Ele é filho de Ilo Roxo, que trabalhou no Inter na época das grandes conquistas, como a Libertadores e o Mundial de 2006.
Pavan, com auxílio de Roxo e dos demais preparadores do clube, estão trabalhando na elaboração de uma espécie de cartilha para ser usada em todas categorias. Nela, os preceitos fundamentais utilizados pelo clube estarão explícitos e, mesmo que haja a troca de um profissional, o trabalho não perderá a sua personalidade. “É importante ter uma linha de treinamento, com os mesmos fundamentos desde a base. Assim, quando os goleiros chegam ao profissional não sentem tanto”, confirma.
Neste trabalho de formação, Taffarel, ídolo colorado e brasileiro, campeão do mundo com a Seleção Brasileira em 1994, é um referencial. Os profissionais colorados querem que os novos goleiros do Inter tenham a frieza e a técnica de Taffarel, cujo estilo transmitia segurança para o time. Outro referencial, este mais recente, é Manuel Neuer, da seleção da Alemanha e do Bayern de Munique, cuja qualidade com a bola nos pés é uma das principais características.
Sim, porque hoje em dia um goleiro é mais que um goleiro. Ele precisa, em muitos casos, deixar a meta atrás e jogar como um antigo líbero, trocando passes como os demais jogadores. Por isso, precisa desenvolver a qualidade no passe. No tempo em que Taffarel jogava, era permitido a um goleiro pegar a bola com a mão após um recuo dos zagueiro, por isso, jogar com os pés não era tão fundamental. “O goleiro hoje em dia não está mais ali só para defender, ele está incluído em todo um modelo de jogo. A posição de goleiro evoluiu muito neste sentido”, afirma Luiz Felipe, 20 anos e uma das promessas das categorias de base. Titular da camisa 1 na Copa São Paulo deste ano, vem atuando pelo time Sub-23, que disputa atualmente a Terceirona gaúcha.
Para Roxo, além da imposição física - Luiz Felipe tem 1,96m -, outras características chamam a atenção no garoto. “Ele é diferenciado com os pés. Além disso, é grande, rápido e potente, tem uma boa saída de gol. E é um guri muito concentrado, o que é importante para um goleiro, que precisa ser frio em campo”, avalia o preparador, lembrando que a participação em competições como a Supercopa gaúcha, onde jogava diante de atletas já profissionais, deu mais experiência à futura promessa colorada.
A fila antes de Luiz Felipe, no entanto, é grande: Danilo Fernandes, Marcelo Lombra e agora Keiller. Nos corredores do Beira-Rio, há confiança também em outros nomes para os próximos anos: Kevin e Miguel, do Sub-20, e Emerson, do Sub-17, são alguns deles. “O importante é continuar sempre trabalhando e estar pronto assim que aparecer uma oportunidade. Quero aproveitar bastante o fato de estar jogando agora, sempre procurei dar um passo de cada vez”, conta Luiz Felipe, que tem contrato com o Inter até o final do ano, mas já adianta que a tendência é que o vínculo seja ampliado.
A fábrica de goleiros do Inter ganhou notoriedade nacional nas últimas semanas. Pavan deu entrevistas para jornalistas de várias partes do Brasil explicando o método colorado depois que jogadores treinados por ele, em uma sequência incrível, encarreiraram atuações quase perfeitas. Mas é injustiça restringir-se a 2017. O bom trabalho de Pavan e seus comandados coincide com a afirmação de Alisson em 2014. Ele surgiu no vácuo de Muriel, seu irmão, e afirmou-se como um dos melhores do Brasil. Chegou à Seleção e acabou vendido para a Roma. Vieram Danilo Fernandes e Marcelo Lomba, que cresceram em atuações no Beira-Rio.
Quando ambos lesionaram-se, surgiu Keiller, jovem de 20 anos que, ao defender duas cobranças de pênaltis na semifinal do Gauchão, domingo passado, garantiu a classificação do clube para a decisão. O garoto, aliás, é apontado como potencial sucessor de Danilo Fernandes e de Marcelo Lomba. Aos 20 anos, o titular do Inter na decisão do Gauchão - e único goleiro do elenco com condições legais e, por enquanto, físicas de jogar contra o Novo Hamburgo - é tranquilo, tem boa estatura e é rápido. Lomba e Danilo Fernandes estão lesionados, mas pelo menos o primeiro deve sentar no banco de reservas nos dois jogos decisivos. “O Keiller, assim como todos os demais goleiros que estão no grupo principal, inclusive o Danilo e o Lomba, foram indicados por mim. Isso gera uma relação de confiança e de respeito”, enfatiza Pavan.
Preparação de goleiros do Inter se transforma em fábrica de talentos
De Taffarel a Alisson, clube consolida tradição entre os camisas 1