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"Quero sair de cabeça erguida", diz Marcelo Medeiros

Novo presidente do Inter quer devolver o clube "ao lugar de onde nunca deveria ter saído"

"Quero sair de cabeça erguida", diz Marcelo Medeiros
"Quero sair de cabeça erguida", diz Marcelo Medeiros Foto : Ricardo Giusti
Desde pequeno Marcelo Medeiros vestia vermelho e vivia a intimidade do Inter como se fosse a extensão de casa. Pudera. Neto, filho e sobrinho de ex-presidentes do clube, ele nasceu colorado. “Não há um momento que eu lembre como sendo o que me tornei torcedor do Inter. Já nasci vermelho”, diz.

No início de janeiro, ele assume assume a cadeira que foi de seus familiares. Como gestão, seu principal objetivo é devolver o clube “ao lugar de onde nunca deveria ter saído”. Pessoalmente, outro desejo: “Quero poder sair de casa tranquilo e com a cabeça erguida”. A seguir, algumas das ideias do novo presidente colorado.

Histórico familiar

“Eu estou muito feliz. Você ocupar um espaço que já foi do seu avô, do teu tio, do teu pai, quando tu é moço parece um negócio meio inatingível, pela responsabilidade, pela grandeza do clube, se tu vai ter a mesma competência. E esse histórico deles foi muito significativo. A primeira grande lembrança que os colorados têm é do Rolo Compressor, do time de 1945, que era presidido pelo meu avô. Uma das maiores conquistas, alguns dizem a maior porque não vai se repetir, que é o tricampeonato brasileiro invicto, é do Marcelo Feijó, meu tio. E aquele momento difícil do Inter... Quando o meu pai assumiu, ele era um orador invejável. Dizem que quando ele falava no Conselho, até as moscas paravam de voar. Ele fez a frase ‘Eu não vim para ganhar títulos, vim para pagá-los’, e acabou vice-campeão brasileiro, em 1987. Então isso te joga uma comparação muito grande pela contribuição, mas também foram ensinamentos que eu tive. Foram pessoas que me ensinaram a importância de zelar pelas coisas do clube. Isso eu acho ser o principal legado que eles deixaram: que as coisas públicas, que não são nossas, merecem ter um cuidado maior do que com as nossas próprias.”

Série B

“O Inter não se diminui com o rebaixamento. O Inter é grande e pela sua grandeza vai voltar. E vai voltar no ano que vem. Não há nenhum prejuízo financeiro previsto, não há queda de receita de TV. Inclusive as notícias que temos é de que aumentou o número do quadro social. Acho que dois fatores estão contribuindo para este aumento. É um abraço do torcedor, que não vai nos abandonar, tenho certeza de que vai estar conosco. E é uma demonstração de que está aceitando um discurso diferente, um discurso respaldado pelas urnas, um discurso de mudança. E isso que não fizemos nenhuma ação ainda para novos sócios.”

O novo treinador

“O (Antônio Carlos) Zago é um cara que tem 30 anos de vida no futebol profissional. Ele jogou em grandes times do Brasil, na Seleção Brasileira, em grandes times da Europa, com grandes treinadores. Quando parou de jogar, se preparou para essa função, estudou para estar onde está e durante toda a sua carreira, sempre teve liderança. E hoje tem conhecimento. O trabalho que ele fez no Juventude merece um espaço num clube com o tamanho do Inter. Precisamos de um profissional que tenha essas várias qualidades: liderança, conhecimento, capacidade de motivação, indignação com a derrota.”

D'Alessandro

”O D’Alessandro vai estar aqui na segunda-feira e é do Inter. Tem contrato. Temos uma relação muito boa, mas não vamos depositar a responsabilidade da mudança sobre apenas uma pessoa.”

Poder de indignação

”Um clube, um time, precisa ter indignação. O Inter não pode ter jogadores que acham que é normal perder, que tomam um gol e não tem indignação com a derrota. \[Neste ano\] eu senti um grupo muito abatido quando tomava um gol e muito inseguro ao fazer. Na verdade, esse grupo sofreu muito com a alternância de treinadores. E de treinadores com perfis completamente diferentes, sistemas de jogo completamente diferentes.”

Um desejo

“Eu não, mas nós temos o desejo de colocar o Inter na Série A, que é de onde nunca deveria ter saído. Meu desejo particular é terminar a gestão e poder sair de casa tranquilo e com a cabeça erguida. Estamos aqui no caminho das vitórias, que é o seu lugar.”

Transição

“Hoje o Inter está optando por quitar débitos e não sabemos quais são as prioridades. E poderia estar sendo feito um trabalho conjunto. A gestão não conversa conosco. Ela está nos passando informações, mas não têm ações conjuntas. Lá em 7 de novembro, depois da eleição no Conselho, eu fui no clube, no dia seguinte, pedir uma transição compartilhada. Não só para se equilibrar as informações, não só sobre finanças, mas também patrimoniais. A gente foi surpreendido na apresentação das chapas com um projeto para o entorno do Beira-Rio e para o CT. Não passou no Conselho isso. Depois da eleição, quando nos fomos para o pátio, ligamos para o escritório de arquitetura para pedir este projeto e o Emídio Ferreira não permitiu que o escritório nos passasse.”

Desvalorização dos atletas

“O resultado do desempenho coletivo do Inter foi muito ruim. O Inter perdeu valor agregado pelo desempenho da equipe. Os mesmos jogadores que hoje estão sendo criticados tiveram um destaque importante na disputa da Libertadores. Vou te dar um exemplo, estes meninos da base. A valorização deles caiu por causa do mau desempenho da equipe no Brasileirão. Mas eu discordo de quem acha que categoria de base é fábrica. Porque tu trabalha com pessoas. Com meninos que chegam lá meninos e saem homens. Algumas gerações de atletas são melhores que as outras, têm um tempo de amadurecimento diferente”

Elitização do clube

“Não gosto da expressão ‘elitização’ porque ela é discriminatória. Parece que tu divides o mundo entre ricos e pobres. Acho que o slogan do Inter se distanciou da sua natureza. Foi uma a estratégia do Inter usar uma expressão e não o seu grande patrimônio, sua grande riqueza, que é ser o clube do povo do Rio Grande do Sul. A expressão que se usa (“Campeão de tudo”) é arrogante. Nós vamos resgatar a identidade de clube do povo do Rio Grande do Sul.”

Os erros da gestão Piffero

“Acho que o maior erro da gestão Piffero foi ser concentrada no ‘eu’ e não no ‘nós’. Não gosto do ‘eu’. O Inter é muito grande para ter ‘eu’. É preciso compartilhamento, ciência, trabalho, gestão, planejamento, pesquisa, formação, divisão, aceitar a opinião contrária. A pessoa que pensa diferente de mim não é melhor ou pior do que eu, ela só pensa diferente. Houve erros, uma sucessão de erros, mas também uma falta de compreensão do que estava acontecendo. Se faziam sinais de que a coisa estava declinando e se ouviam algumas frases mágicas: ‘Porque não vai acontecer’. Se esperava uma reação cósmica: ‘Agora vai dar certo’. Mas a falta de planejamento tu vê na escolha dos treinadores, é uma montanha russa.”

Torcedor x Dirigente

“Sou intenso e emotivo, mas há um processo de amadurecimento. O que nos diferencia é a responsabilide. Tem que torcer e vibrar, mas manter a cabeça no lugar na hora de tomar as decisões. Até invejo os amigos que podem ver o jogo de outra forma, que podem fazer um churrasco para torcer pelo Inter. A diferença entre o torcedor e o dirigente é a responsabilidade.”

Gangorra

“A minha enteada mais velha tem 15 anos e ela não viveu o que eu vivi quando quando tinha essa idade. Ela pegou só a fase boa. Mas a vida não é feita só de vitórias. Temos que também saber lidar com as derrotas. Tenho certeza de que vamos voltar mais fortes após processarmos esse episódio. Vamos subir degrau a degrau e fazer a gangorra voltar para o seu lugar.”