Esportes

Mundial Master de Atletismo traz experiência e história a Porto Alegre

Competição tem primeiras disputas nesta quarta-feira

Dumitru Radu participou da Segunda Guerra, mas garante ser da paz
Dumitru Radu participou da Segunda Guerra, mas garante ser da paz Foto : Fabrício Falkowski / Especial CP
Foi com festa que teve início nesta terça-feira, no Centro Estadual de Treinamento Esportivo (CETE), em Porto Alegre, o XX Campeonato Mundial de Atletismo Master. A competição — que reúne mais de 4 mil atletas, entre 35 e 99 anos, de mais de 80 países — tem as suas primeiras disputas a partir desta quarta-feira, em quatro locais diferentes (confira abaixo).

Ao longo da competição, o Correio do Povo mostrará alguns dos personagens que já fazem parte da história do evento, começando o romeno Dumitru Radu, que prestes a completar 87 anos disputará medalhas no cross country, 5 e 10 quilômetros, e a de Alceu Moojen Chaves, que conquistou nada menos que três títulos da São Silvestre ao longo de seus 79 anos.

A nova guerra de Radu 

Corria a Segunda Guerra Mundial. Sob a tutela da Alemanha nazista de Adolf Hitler, a Romênia envolveu-se em uma luta fratricida contra os soviéticos, seus vizinhos ao Leste. Entre os homens que “combateram” estavam o jovem Dumitru Radu, na época com menos de 18 anos. “Não dei nenhum tiro. Sou da paz”, garante Radu, que completa 87 anos na próxima terça-feira. Hoje, ele cruza fronteiras não com uma arma em punho, mas com um par de tênis e uns poucos pertences em uma mochila. Sua guerra é nas pistas. E sua próxima batalha é no Mundial Master.

Radu chegou à cidade há uma semana. Nos primeiros dias, tentou descolar-se dos locais de treinos até seu hotel, no Centro Histórico, próximo da rodoviária, a pé. Desistiu após perder-se mais de uma vez. Em uma delas, foi recolhido pela Polícia e chamou a atenção das autoridades, que não compreenderam seu idioma. Ele fala romeno, mas entende e fala um pouco de alemão. “Agora, só ando de táxi. Mas é estranho, pois uma viagem custa oito e a outra 80”, reclama Radu, que, sorrindo, explica: “Os taxistas acham que sou louco. Mas eu vejo que eles passam na frente do hotel e não me deixam. Já fiz vários tours pela cidade”.

Mas e o atletismo? Radu conta que foi professor de natação durante boa parte da vida. Ele mora em Piatra Neam, cidade da região da Moldávia. Com o ofício, criou dois filhos, ambos engenheiros, que trabalham na Polônia. Com a aposentaria, passou a dedicar-se às corridas, um passatempo que tem há 40 anos. E a competir em competições masters ao redor do mundo. Já visitou vários países da Europa e também os Estados Unidos. Em praticamente todas as competições, conquista medalhas. “Não trabalho mais. Agora, gosto de dormir e de treinar. E de participar destas competições”, resume.

Ele estreia no Mundial Master nesta quarta-feira, a partir das 7h, na prova de cross country, que será disputada no Parque Marinha do Brasil. Depois, ele tentará medalhas — com boas chances de sucesso — nas disputas de 5 e 10 mil metros. A volta para a Romênia está programada para o dia 29 de outubro. Até lá, fará novos amigos em Porto Alegre. Na Sogipa, onde concedeu esta entrevista e tem treinado, conheceu Arataca, o treinador da equipe de atletismo do clube: “Ele me convidou para visitar a Romênia e disse que a cerveja é por conta dele. Estou pensando...”, ri.

Conquistas comprovadas

Poucos atletas podem dizer que venceram uma prova da Corrida de São Silvestre. Alceu Moojen Chaves não apenas pode, como faz questão de provar. Aos 79 anos, carrega consigo uma pasta com diversos recortes e documentos. Entre eles, os comprovantes de que conquistou, na categoria entre 74 e 79 anos, a primeira colocação na tradicional prova de São Silvestre em São Paulo, em três ocasiões, a última delas no ano passado, com o tempo de 1h09min22s. Isso que a preferência dele é por provas mais curtas, como os 800m e os 1.500m. “Gosto daquelas mais rápidas”, conta.

A história de Alceu no esporte não é nova: são 65 anos competindo, e uma coleção de 2 mil medalhas. Uma carreira que começou por acaso. “Sempre fui baixinho, então nunca tinha espaço para mim no time de futebol. Até que um dia fizeram uma rústica. Mesmo de pé no chão, ganhei. Aí vi que meu esporte era esse”, recorda o atleta.

Boa parte do sucesso nas pistas, diz ele, está nos treinamentos e em uma dieta bastante definida. “De manhã como granola; de tarde, um mamão; e depois, de noite, não janto, faço apenas um lanche. O almoço, sim, eu como bem, tem que ter bastante verduras e legumes. E, claro, carne e feijão”, ensina.

Apesar de todo o preparo, Alceu não vai competir no Mundial. Em agosto, durante o treinamento em São Sebastião do Caí, foi olhar o relógio, perdeu o equilíbrio e caiu. Achou que não era nada demais e foi participar de uma competição em Porto Alegre. Durante a prova sentiu-se mal e caiu novamente. Levado pelo filho ao hospital, foi constatado um derrame. Impedido de treinar como queria, achou melhor abrir mão da disputa: “Se for para fazer fiasco, eu não vou”. Enquanto isso, espera estar liberado o quanto antes para retomar a rotina das disputas. De preferência, com outra São Silvestre no currículo.

Provas desta quarta-feira

8 quilômetros cross country: Parque Marinha do Brasil, entre 7h e 16h
Decatlo: Centro Estadual de Treinamento Esportivo (Cete), entre 8h e 11h45min
Decatlo: Sogipa, entre 8h e 11h50min
Heptatlo: PUCRS, entre 9h e 12h30min

Por Carlos Corrêa e Fabrício Falkowski / Correio do Povo

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