Esportes

O que está acontecendo com o mercado da bola?

A transferência iminente de Thaciano para o Santos por 4,5 milhões de euros ilustra um momento de cifras até bem pouco tempo irreais

Thaciano se valorizou bastante desde que trocou o Grêmio pelo Bahia
Thaciano se valorizou bastante desde que trocou o Grêmio pelo Bahia Foto : Divulgação Bahia / CP


O torcedor na faixa dos 40 anos de idade talvez esteja relembrando do final da década de 1990 e começo do novo milênio, época em que alguns clubes faziam ou ainda desfrutavam de parcerias com grandes empresas. E como resultado disso, o primórdio dos três dígitos no contracheque dos principais jogadores dos times. O fenômeno atual resgata aqueles tempos idos, mas com um asterisco. Atletas de menor expressão também estão movimentando cifras irreais e os chamados “consagrados” também se aproveitam do mercado super inflacionado. Não há uma razão específica para tal, mas algumas. Exemplos recentes envolvendo a Dupla Gre-Nal ilustram o processo.

Em 2023, desgastado com a torcida, Thaciano deixou o Grêmio rumo ao Bahia por cerca de R$ 1,5 milhão. Agora, dois anos depois, elogiado por Rogério Ceni, está para trocar Salvador pela Baixada Santista por mais de R$ 30 milhões em uma meteórica super valorização. “Pode jogar em espaço interior e exterior, 9 e falso 9. Vai nos ajudar com essa mentalidade, em diferentes posições”, garante Pedro Caixinha, novo técnico do Santos.

O Inter, prestes a desembolsar 5,5 milhões de euros por Bernabei, pode lucrar outros 2,5 milhões relativos à saída, a confirmar, de Thiago Maia para a Vila Belmiro com os paulistas ainda assumindo a dívida de outros 4,5 mi de euros do clube gaúcho com o Flamengo. Soma essa por apenas 50% dos direitos do volante. Ou seja, pela cotação atual, ele custaria no mercado R$ 88,6 milhões. A título de comparação, Gabriel Carvalho, de 17 anos, foi vendido pelo mesmo Inter ao Al Qadisiyah, da Arábia Saudita por cerca de R$ 99,1 milhões.

Do mundo árabe pode vir uma das explicações para a injeção milionária no futebol pelo país que sediará a Copa do Mundo de 2034. A Arábia está lançando mão do "Sportswashing", processo de uso dos esportes por parte de governos autoritários para tentar esconder ações que violam os direitos humanos. A chegada de Neymar e Cristiano Ronaldo, dentre outros astros naquele país, pega carona na Fórmula-1 e até no restrito mundo do tênis que tem se curvado aos valores absurdos despejados nos grandes eventos esportivos no Oriente Médio.

O começo de 2025, em particular no Brasil, aponta uma outra direção para que os valores investidos em contratações façam o torcedor lembrar da época em que craques atuavam por aqui antes de migrarem para a Europa: “As SAF’s estão marcando posição, trabalhando até fora da projeção inicial e dando resposta rápida. As receitas de marketing e TV aumentaram. Por fim, as bets estão derramando dinheiro”, avalia Fernando Carvalho, ex-presidente do Inter e hoje consultor no mundo do futebol.

A maioria dos clubes das Séries A e B expõem marcas de apostas esportivas. O mais recente é justamente o Botafogo, atual campeão brasileiro e da América. Ele acaba de fechar patrocínio de R$ 55 milhões com uma bet. “Vou falar para todo mundo entender, em claro e bom tom. Sabe esses rankings de patrocinadores que existem na internet? É tudo mentira. Os clubes do Brasil mentem os seus números para falar que são os maiores”, disse Thairo Arruda, CEO do Glorioso na última segunda-feira ao anunciar o novo parceiro do clube carioca.

Os concorrentes do Fogão são vários. Flamengo e Corinthians que investiram milhões ano passado mantiveram os elencos. O Palmeiras pagou 12 milhões de dólares para tirar o uruguaio Facundo Torres dos Estados Unidos e outros 18 mi de euros para levar Paulinho do Galo. Enquanto isso, espera o aceite do Fulham de R$ 128,9 milhões por Andreas Pereira. Se não der negócio, Villasanti, do Grêmio de dedos cruzados, é o plano B. Com o dinheiro de Paulinho, o Galo flerta com Arthur e Rony, ambos ex-Palmeiras.

Qualquer que seja o alvo, haverá de enfiar a mão no bolso. Como fez o rival Cruzeiro, mas com uma outra estratégia diferente. Os principais alvos Dudu e Gabigol estavam em final de contrato e assim, o maior investimento é no salários. O São Paulo fez movimento parecido ao repatriar Oscar. Até dias atrás entre os maiores salários do mundo na China, volta ao Morumbi para tentar colocar o tricolor paulista no páreo. Pelo menos em campo, pois na mesa de negociações, as fichas parecem concentradas.