Antes de fazer sucesso como ponta-direita do Grêmio no final da década de 1960 e início de 1970, a velocidade que consagraria Gilberto Alves de Souza, o Flecha, já era mostrada nos campinhos de várzea do bairro Mont’Serrat, onde foi criado. Foi em uma das peladas disputadas por lá que ele foi visto por Abílio dos Reis, histórico garimpeiro de talentos do Internacional, responsável pela descoberta de craques como Paulo Roberto Falcão e Paulo César Carpegiani. Do campo de rua, “seu” Abílio levou Flecha direto para dentro do Inter, onde atuou antes de se tornar profissional. Na semana seguinte a sua chegada, já viajava para disputar partidas com a equipe colorada.
Anos depois de se tornar jogador, Flecha retornou ao bairro Mont’Serrat para visitar alguns amigos. Durante sua infância, a antiga vizinhança tinha pelo menos três campos, mas, ao chegar lá novamente, lembra de ter levado um susto. As áreas utilizadas por ele para bater bola deram lugar às construções elevadas de edificações comerciais e residenciais.
Aos 69 anos, o antigo ponteiro percebe uma mudança de cenário muito grande. Reconhece o crescimento das escolinhas de futebol como uma profissionalização do esporte desde muito cedo, mas sente falta de um pouco da desenvoltura que os campos esburacados criavam nos meninos e os deixavam calejados para quando chegassem a um gramado regular. “Eu aprendi a jogar em campo ruim. Me chamam de saudosista, mas como tinha jogador bom na várzea!”, recorda.
Um desses espaços ainda remanescentes é o Campo da Tuca, localizado no bairro Partenon. Por lá, Flecha desenvolve, ao lado do também ex-jogador gremista Jacson, atividades do projeto Social Futebol Clube. Trata-se de uma iniciativa criada em 2005 e que é mantida por uma cooperativa de atletas aposentados com o apoio da Secretaria Municipal de Esportes, Recreação e Lazer (SME). Hoje, a maior movimentação em campinhos de rua da Capital é através de projetos como este, que utiliza dez áreas da prefeitura e tem como objetivo a inclusão social pelo esporte.
Às 14h de uma quarta-feira, o sol forte em céu aberto faz ferver o terrão no centro do Campo da Tuca. Por um buraco em uma parte da tela, chegam os primeiros guris com a paixão de jogar futebol, que começam a bater bola e praticar o bom e velho chute a gol antes mesmo de o treino começar. Entre eles, que têm idades e tamanhos diferentes, está Vytor Kawan da Rosa, de 10 anos. Nos pés, chuteiras da Nike personalizadas com o apelido: Vytinho.
Para os amigos, Vytinho é o melhor da turma, mas é muito “balaqueiro”. Dizem que gosta de driblar a todos e nunca toca bola, o que ele imediatamente, cenho franzido, revida: “Eu toco, sim!”. Vytinho, na verdade mostra que tem atitude. A pedido da reportagem, bate pênaltis, executa bicicletas e voleios. Cai no chão, se suja e não demonstra se importar. Sua atitude é a de um boleiro na sua forma mais genuína. Nos treinos, gosta dos coletivos e diz que, se pudesse, jogaria somente com os meninos da mesma faixa etária que a sua.
Às 14h30min, Flecha e Jacson chegam ao campinho para começar o treinamento. Distribuem coletes, montam os primeiros exercícios com alguns cones e depois começam um coletivo em campo reduzido. Alguns meninos que chegam atrasados, logo são abordados pelos treinadores para saber por onde andavam. Isso porque, se no tempo deles as crianças ficavam por aí jogando bola, hoje há outras preocupações. “A maior ideia é tirar essas crianças da rua. Não importa se vão sair craques”, explica Flecha.
Os campinhos de várzea da atualidade
Um dos espaços remanescentes é o Campo da Tuca