O Campeonato Gaúcho entra neste final de semana na sua fase semifinal, o que significa que — pelo menos em tese — o público deve crescer e com ele as rendas. Para a maioria das equipes, principalmente as já eliminadas, nada vai mudar o fato de que a competição, ano após ano, segue sendo deficitária para a maioria dos seus participantes, à exceção da Dupla Gre-Nal, que, não por acaso, abocanha mais de dois terços da cota de TV.
Das 74 partidas realizadas até o momento, em 21 uma delas o público pagante não foi nem de mil torcedores — isso sem contar as partidas com os portões fechados do São José que, não recebeu a liberação por não cumprir requisitos de segurança. Incluídos os jogos de Grêmio e Inter, a renda média no Gauchão até o momento é de R$ 90,7 mil. No entanto, excluídos os confrontos com a Dupla, o valor despenca para R$ 27,1 mil.
Uma renda apenas regular, no entanto, não é sinônimo de lucro. Isso porque afora os encargos descontados da renda bruta, ainda existem outros custos cada vez que um estádio é aberto para receber uma partida. Neste ponto, os valores variam de acordo com o tamanho.
Um jogo na Arena, por exemplo, só passa a ser lucrativo a partir de rendas que superem os R$ 150 ou R$ 200 mil — isso para a administradora do estádio, uma vez que a renda não fica com o Grêmio. No Beira-Rio, os dirigentes revelam que os custos em jogos “comuns” do Campeonato Gaúcho ficam em torno de R$ 180 mil, crescendo para R$ 240 mil nas semifinais.
Fora do âmbito da Dupla, os custos variam bastante. Enquanto, por exemplo, um jogo no Estádio do Vale, do Novo Hamburgo, precisa bater na casa dos R$ 12 mil para ter algum lucro, no Alfredo Jaconi, do Juventude, os números saltam para R$ 60 mil. Como recebeu o Inter e também foi palco de dois clássicos Ca-Ju, o Gauchão deste ano não foi dos piores para o clube da Serra, que teve três rendas acima de R$ 140 mil. O presidente Roberto Tonietto, no entanto, observa que esta não é a regra. “À exceção dos jogos com a Dupla Gre-Nal e os clássicos com o Caxias, nos demais geralmente pagamos para abrir o estádio. Quase sempre jogo em casa é prejuízo”, revela.
A dificuldade financeira vai um pouco além. Ex-presidente do Passo Fundo, Selvino Ferrão observa que a renda de cada jogo como mandante tem que ser suficiente para bancar também os custos com transporte e hospedagem da partida seguinte, como visitante. “Se não faturar uns R$ 20 mil, não paga a próxima viagem”, assegura o dirigente.
É opinião unânime entre os dirigentes dos clubes do Interior que depender apenas das rendas torna a sobrevivência de qualquer clube inviável. O sustento acaba vindo mesmo (menos) dos patrocínios e (mais) das cotas de TV. E é justamente neste aspecto que residem as maiores reclamações. Da mesma forma que Inter e Grêmio reclamam de uma distribuição desigual em relação a clubes como Corinthians e Flamengo em nível nacional, no Estado são os clubes do Interior que clamam por mudanças nas fatias do bolo.
Atualmente, a Dupla Gre-Nal recebe cerca de R$ 12,5 milhões, Brasil e Juventude R$ 1,5 milhão e todos os demais em torno de R$ 1,1 milhão. “Com essa diferença, fica inviável. Por isso os campeonatos são tão desiguais. Um time do Interior até pode ser campeão eventualmente, mas tem que dar tudo certo, tem que ser a tempestade perfeita”, afirma Tonietto.
O desejo é diminuir a diferença para as próximas edições e um cálculo especulado é o de 50% para ser dividido entre Inter e Grêmio e o restante entre os demais — hoje a relação é de 68% para a Dupla. “Falta um balanceamento maior. Senão isso ainda vai acabar matando o futebol do Interior”, arrisca Ferrão.
Da parte dos dois gigantes do futebol do Rio Grande do Sul, existe margem para negociação para que essa diferença seja reduzida. ainda que, como lembre o presidente do Grêmio, Romildo Bolzan, para o Tricolor a competição seja lucrativa. “Aceitamos discutir, desde que sejam levadas em conta algumas questões”, afirma o dirigente, destacando por exemplo que a Dupla também possa ficar com parte das rendas dos jogos que realizarem no Interior, uma vez que as maiores arrecadações invariavelmente envolvem colorados ou gremistas, mas o regulamento estabelece que o total fica apenas com o mandante.
Maiores rendas líquidas
Grêmio x Inter
R$ 1.504.310,99
Passo Fundo x Inter
R$ 348.704,00
Grêmio x Ypiranga
R$ 295.359,59
Grêmio x Veranopolis
R$ 294.916,27
Inter x São Paulo
R$ 289.009,33
Menores rendas líquidas
São José x Ypiranga
R$ -7.576,45
Cruzeiro x Juventude
R$ -1.760,70
Cruzeiro x Ypiranga
R$ -1.343,70
Cruzeiro x São Paulo
R$ 718,80
Cruzeiro x São José
R$ 2.331,80
Maiores públicos pagantes
Grêmio x Inter
43.032
Inter x São Paulo
17.303
Grêmio x Veranópolis
13.691
Inter x Cruzeiro
13.266
Grêmio x Ypiranga
11.505
Menores públicos pagantes
São José x Ypiranga
36
Cruzeiro x Juventude
218
Cruzeiro x São Paulo
259
Cruzeiro x Ypiranga
270
Cruzeiro x São José
299
Para equipes do Interior, Gauchão segue deficitário
No total, 21 partidas tiveram públicos inferiores a mil torcedores