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Primeira lenda da Fórmula 1 completaria cem anos

Pentacampeão Juan Manuel Fangio assombrou a Europa na década de 1950

Confira reportagem da época
Confira reportagem da época Foto : Reprodução
"Conheci muitos pilotos mais corajosos e rápidos que eu. Estão todos mortos", definiu Fangio na era da Fórmula 1 que mais tirou vidas. O argentino que ainda é considerado o maior piloto da história por muitos completaria 100 anos nesta sexta-feira e certamente teria muito o que ensinar a um grid que conta em sua maioria com pilotos de menos de 30 anos. No Brasil, ele deu aulas de pilotagem nos anos 40, onde venceu sua primeira prova internacional, o Grande Prêmio Getúlio Vargas, em 1941, e inspirou a família Andreatta, gaúchos que marcaram época no automobilismo brasileiro.

Fangio venceu uma corrida a cada duas que disputou na F-1 e também foi o mais velho a levantar o troféu, ao se sagrar pentacampeão aos 46 anos, em 1957. Conquistou títulos na Maserati, na Mercedes, na Alfa Romeo e na Ferrari, em três regulamentos diferentes. O primeiro recorde, nem o prodígio Sebastian Vettel terá condições de bater, pois tem índice de uma vitória a cada 4,6 corridas. Mesmo o heptacampeão Michael Schumacher, que superou Fangio em 2003, registra uma vitória a cada três GPs disputados. Para superar a "experiência" do maestro argentino, o "Alemão" precisaria estender sua carreira até 2014, muito improvável, já que inclusive voltou da "aposentadoria" recentemente.

A história da F-1 se mescla com a de Fangio. Ele disputou a primeira prova da categoria, em 1950, e seria o vencedor da segunda corrida, exatamente em Mônaco, templo sagrado do esporte a motor, com seu consagrado Maserati. Todos destacavam a imensa força física do sul-americano que desafiou os gigantes e depois foi adotado na Europa pelas maiores equipes. A origem disso, talvez o final da infância, na pequena cidade Balcarce. Logo aos 9 anos foi levado pelo pai para ser ajudante numa forjaria e, a partir daí, se tornou um grande mecânico antes de assumir o comando dos automóveis.

Aos 12, porém, o talento ao volante dava seus sinais quando ele ainda comandava uma retroescavadeira. O garoto manejava tão bem o equipamento que ganhou a função oficial de operador de máquinas. Em 1923, finalmente chegou perto de automóveis profissionalmente. Foi contratado pela Concesionaria Rugby de Carlini, que promovia corridas de carro. Recebeu suas primeiras aulas de direção de Carlini, que emprestava sua caminhonete para consertar máquinas agrícolas na região. Em 1924, foi trabalhar na fábrica da Ford, em Estevez. Com o chefe de mecânicos Guillermo Spain aprendeu sobre os componentes e funcionamento de motores.

Um desvio de percurso, contudo, colocou Fangio a jogar futebol, em 1928. Não atuava profissionalmente, mas foi convidado diversas vezes para defender o Club Rivadavia. Também tentou a sorte no boxe, mas os músculos desenvolvidos nas lutas teriam emprego mais nobre. Ainda não seria descoberto pelo dom da direção, mas foi co-piloto e mecânico em provas de estrada entre 1929 e 1930, até ser convocado ao serviço militar, em 1931.

O físico forjado numa época de pilotos "reforçados" fez toda a diferença contra os também talentosos e velozes Alberto Ascari, José Froillán González e Giuseppe Farina. Seu talento aliado à resistência permitiu vitórias acachapantes, como primeira: naquela prova de Mônaco, por exemplo, liderou todas as 100 voltas previstas e colocou uma volta de vantagem sobre todos os concorrentes, inclusive Farina, que com o mesmo carro registrou tempos de dois a três segundos mais lentos do que o argentino.

                                     Fangio mostra seu talento em câmeras on-board na pista de Mônaco


Numa época que não apresentava o "conforto" da direção hidráulica e do câmbio semi-automático para os corredores, Fangio conduzia o seu gigantesco volante de madeira com uma agilidade e aparente leveza que para outros condutores não parecia possível. Sua última vitória, em Nurburgring (Alemanha), no ano do penta (1957), pareceu uma "assinatura" derradeira do que o argentino era capaz.

As Ferrari eram superiores a seu Maserati nas 174 curvas que definiam o traçado gigantesco de 22,8 quilômetros, batizado de "Inferno Verde". Os rivais Mike Hawthorn e Peter Collins poderiam completar a prova sem parar nos boxes, enquanto Fangio teria que trocar pneus. Para piorar a situação, no pit stop uma porca de roda ficou presa e manteve o argentino por mais de um minuto nos boxes. Hawthorn, agora, tinha 48 segundos de vantagem, com 10 voltas para o final da prova.


Fangio leva sua Ferrari para mais um pódio nas ruas de Mônaco, em 1956 – Foto de Bernard Cahier

Foi então que o quase aposentado Juan Manuel Fangio acordou para buscar seu quinto título. Descobriu novas linhas no traçado, reduziu pontos de frenagem e ignorou os postes e árvores que rodeavam a paisagem e poderiam dividir um carro (e um piloto) ao meio em qualquer erro. Passou a baixar o tempo a cada volta e bateu o recorde do circuito por 10 vezes, enquanto ultrapassava outros carros. Na penúltima volta estava a apenas seis segundos da dupla da Ferrari, que já esperava uma dobradinha. Na última passagem, já apareceu a frente dos concorrentes, "como um demônio, com apenas duas rodas no asfalto do do túnel verde", descreveria Collins após a bandeirada.

Depois de respirar um pouco no pódio, o próprio Fangio descreveu com surpresa que tinha chegado ao seu limite: Hoje fiz coisas que jamais fiz numa pista, e não quero nunca mais ter de pilotar assim. Estava preparado para fazer tudo o que fosse necessário. Eu atingi os meus limites de concentração e de determinação para ganhar. Até esse dia, nunca tinha levado o carro ou a mim próprio a tais limites. Jamais tivera coragem para chegar tão longe. Durante dois dias não consegui dormir.

O amigo e companheiro de equipe por diversas temporadas, Stirling Moss (foto ao lado) definiu: "Essa foi talvez a maior performance de todos os tempos. Sei o quanto a palavra incrível é desvalorizada hoje em dia, mas o que Fangio fez naquele dia foi isso mesmo".

Esse arrojo foi inspiração para muitos, mas particularmente para Ayrton Senna, que nutriria uma relação de amizade com o "velho senhor das pistas". Em 1990, o tricampeão mundial do Brasil pediu para visitar o ídolo argentino na Argentina. Dali nasceu um diálogo que seguiu até o final da vida de Senna, em 1994.

Em 1993, o momento mais emocionante entre os dois: Senna venceu o GP do Brasil e Fangio foi escolhido para entregar o troféu. Em meio ao protocolo do pódio, o brasileiro pulou do degrau mais alto e abraçou o argentino, sob os olhos do futuro grande campeão, Michael Schumacher, terceiro naquela corrida.

Fangio morreu dois anos depois, em 1995. Ele já sofria complicações de doença renal desde o final dos anos 1980. Internado longe de sua Balcarce, na capital Buenos Aires, seus desejos foram cumpridos e o corpo sepultado na cidade natal.


Senna abraça Fangio após vencer GP do Brasil de 1992