Às margens do Guaíba, está localizado um projeto social reerguido por quem tem a paixão pelo próximo e pelo ato de velejar. Para alguns, um mundo esquecido; para outros, o único espaço onde é permitido sonhar. Trata-se do “Todos a bordo”, iniciativa criada em 2009, impulsionada pelo treinador Anderson Paixão e hospedada pelo Iate Clube Guaíba (ICG), que oferece aulas teóricas e práticas de vela adaptada. O local foi um polo da prática por anos, mas, por falta de verba e de incentivos, foi desativado.
No último ano, a situação mudou. Uma iniciativa que estava adormecida ganhou uma equipe de fôlego, com uma estrutura horizontal. Foi quando o empresário e velejador Nathan Bellos, de 25 anos, e seu irmão, Henrique Bellos, reativaram a iniciativa junto dos amigos Guilherme Fogo, Murilo Arlaque, João Kraemer, Anderson Paixão e a coordenadora paradesportiva Liza Cenci. Inspirados pela história de superação do tio, Rudimar Bellos, que convive com limitações físicas, o grupo de velejadores foi tocado pela missão de incluir e rebatizaram o projeto de vela adaptada.
“Querendo ou não, a vela é elitizada e acaba que o acesso fica muito difícil para quem é de baixa renda. Reativamos o projeto para democratizar esse acesso e eu, por vir de baixo e ser um velejador negro, sei como é esse desafio. Por isso, não queremos construir nenhuma barreira nesse projeto. A gente vê que ali é o lugar onde pessoas que não têm condições financeiras podem tudo. Ali é o lugar onde eles têm uma experiência positiva. Poder trazer isso como algo que melhora, pelo menos, 1% do dia deles, para nós já é muita coisa. É o principal objetivo do projeto”, explica.
Para quem não tem nenhum tipo de limitação e não faz parte de projetos sociais de vela, se tornar um aluno velejador em Porto Alegre significa desembolsar de R$ 500 a R$ 700 mensais. Normalmente o valor varia de acordo com a situação do aluno: se possui ou não o barco.
Ideia é expandir
Os irmãos da família Bellos, criados pela mãe e pelo tio, deficiente físico e aluno do projeto social, reforçam o elo semanalmente. Todas as quartas-feiras, às 13h30min, as aulas de vela recebem os interessados. Quando entraram para o mundo náutico, os irmãos Bellos, a proa do projeto social, viram que o esporte cultivava uma cultura limitante. Daí surgiu a ideia de promover um apelo social e buscar mudar a vida de outras pessoas, inclusive a do tio Rudimar.
Para quem foi transformado por projetos sociais ao longo da infância e adolescência, como Nathan, a importância de atuar em causas muitas vezes abandonadas pelo poder público e setores esportivos é enorme.
“A nossa ideia com o projeto é justamente expandir ele, fazer algo estruturado que possamos mudar a vida também de crianças. Ser um polo onde tenhamos fisioterapeutas e psicólogos. Só eu sei a felicidade que o meu tio fica quando ele sai de cada aula, quando ele vive aquilo, quando ele ganha uma medalha. Acompanhar isso me motiva. Por isso que somos todos voluntários”, conta Nathan.
O mundo náutico exige muita estrutura, com equipamentos e custos caros. Para piorar a situação, a última vez em que a modalidade esteve nos Jogos Paralímpicos foi no Rio 2016. A modalidade foi retirada pelo Comitê Paralímpico Internacional (IPC), reduzindo a sua estrutura. Naquela edição, o Brasil ficou em 11º lugar, com os feitos de Marcos Antonio do Carmo, José Matias Gonçalves Abreu e Herivelton Ferreira Anastácio.
A equipe do Todos a Bordo opera com os barcos do ICG. Contudo, a prática exige a presença de equipamentos adaptados que, por vezes, vêm do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). Quando não chegam, resta utilizar capital próprio. O grupo então é formado por sete pessoas, sendo três deles professores, formados em educação física e velejadores experientes. Todos dedicam tempo, dividem habilidades e doam atenção para uma turma de nove alunos com diferentes tipos de limitações.
Seis dos alunos são cadeirantes, entre eles, Rudimar, que lida com a falta de memória por conta de um acidente de moto que lhe causou um traumatismo craniano e comprometeu os movimentos de uma das pernas.
Barcos adaptados
Devido à limitação de equipamentos, a equipe se reveza: enquanto parte está na água, a outra recebe instrução teórica ou observa o desempenho dos colegas para receber feedbacks e informações de performance. Quando o tempo está instável, o aprendizado acontece somente dentro da sala, com as aulas teóricas. Já quando o tempo está favorável, acontecem as aulas práticas.
É quando então os alunos vão para a água em barcos adaptados. De modo geral, os barcos utilizados no projeto são feitos para atender às limitações físicas dos alunos, permitindo que eles desempenhem as funções a bordo. Contudo, por falta de estrutura automatizada, o embarque é feito de forma manual pela equipe, que auxilia e realiza a segurança nos botes durante as atividades.
Embora o foco seja o aprendizado e a inclusão, o projeto incentiva a alta performance. Nathan destaca que a equipe toda sabe que eles têm muito potencial, para além apenas do aprendizado. “O intuito é enaltecer os alunos cada vez mais e ser um projeto formador de atletas”, diz. No ano passado, os alunos do projeto participaram de regatas no Veleiros do Sul e tiveram bons resultados.
Para um futuro próximo, o grupo almeja conseguir recursos para pagar os professores, atender em mais dias na semana e poder abrir mais turmas, tocando mais vidas por meio da vela. Por isso, o time de voluntários está aberto a atrair parceiros que se sensibilizem e apoiem a iniciativa.
*Com supervisão de Carlos Corrêa