Com a despedida dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão e Cortina, a pergunta que fica é: onde estão os patinadores brasileiros? Já são duas edições que a delegação brasileira não emplaca nenhum atleta na maior disputa esportiva do planeta. Será que nesse tempo todo não surgiu ninguém como Isadora Williams, a única brasileira na história a se classificar para a modalidade em uma edição de Jogos Olímpicos de Inverno em 2014, na Rússia, e novamente em 2018, na Coreia do Sul?
Depois de ela se aposentar das pistas frias, a verdade é que ainda há joias que brilham pelos cantos do país. No Brasil, existem seis locais para a prática da modalidade. O Rio Grande do Sul, aliás, conta com dois: um na Região Metropolitana e o outro na Serra Gaúcha. A pista de gelo da Snowland, onde treinam as promessas gaúchas, Arthur Alcorte e Lucaz Candria, e o Parkshopping, em Canoas.
Potências na capital
Um dos aspirantes a representar o Brasil nos próximos Jogos de Inverno, que ocorrerão na França, é Lucaz Candria, de 18 anos. Natural do bairro Glória, em Porto Alegre, o atleta compete na categoria júnior no programa curto e longo. O jovem gaúcho é tetracampeão brasileiro, com títulos conquistados nos anos de 2019, 2021, 2023 e 2024.
Em 2025, também alcançou a medalha de ouro no Campeonato Latino-Americano e participou da Copa do México. Quando questionado sobre a vontade de se tornar um atleta de alto nível, Lucaz afirma com brilho nos olhos: “Claro. Acho que todo mundo quer se tornar um atleta olímpico”.
Aos seis anos, Lucaz iniciou na patinação sobre rodas, em um projeto escolar. O interesse pelo gelo sempre existiu, mas a transição só ocorreu em 2017, quando surgiu a pista de gelo do Parkshopping, em Canoas. Em 2019, durante um campeonato, foi descoberto pelos treinadores Eduardo e Cristina Garcia, da Arts and Sports Academy (ASA), escola de artes situada em Gramado, que treina os atletas do espetáculo Snowland. A partir daí, o jovem passou a treinar de forma assídua com os professores na Serra.
Sua rotina é dividida entre Porto Alegre, onde treina durante a semana por logística, e Gramado, onde treina com seus técnicos aos finais de semana. No Snowland, ele também atua como artista nos shows, fator que o ajudou a superar a timidez e a ganhar confiança para se apresentar em público.
“Todos os finais de semana eu vou para Gramado treinar. Durante a semana, eu treino meus saltos fora do gelo, depois vou para a academia e faço alongamento em casa”, explica.
Lucaz compete tanto no programa curto (com duração aproximada de 2min30s) quanto no longo (cerca de 4min), destacando que o programa longo exige muito mais estamina, a resistência física. Tecnicamente, prefere executar os saltos obrigatórios como o “Salchow”, o “Axel” e o “Loop”.
Esforço constante
A outra promessa das lâminas é Arthur Alcorte, 22 anos, também natural de Porto Alegre. O patinador cresceu no bairro Tristeza e atualmente divide sua rotina entre a capital gaúcha e Gramado. Embora esteja consolidado como o atual tricampeão brasileiro de patinação no gelo na categoria Sênior (títulos em 2023, 2024 e 2025) e seja tricampeão sul-americano, sua trajetória também começou sobre rodas, onde competiu por mais de uma década e participou de quatro campeonatos mundiais. A mudança definitiva para as lâminas ocorreu em 2022.
A transição foi impulsionada por uma proposta de trabalho na Snowland, onde ele trabalha há três anos e conta com o suporte do projeto ASA para seu desenvolvimento. No entanto, manter o alto rendimento exige um esforço constante, já que o atleta precisa conciliar o emprego, o último ano da faculdade de fisioterapia e os treinos intensos.
“É muito difícil você trabalhar e ser atleta ao mesmo tempo. Essa é a parte mais desafiadora de ser um atleta brasileiro”, afirma.
Assim como Lucaz, tecnicamente, o patinador demonstra preferência pelos mesmos saltos, já que os da categoria "toe", que têm como ponto inicial a parte da frente da lâmina, o atleta considera saltos mais desafiadores. Seu olhar para o futuro está fixado em um projeto olímpico focado na modalidade de duplas. No entanto, há o desafio de encontrar a parceria ideal, com a mesma entrega e região geográfica.
Apesar das ambições internacionais e olímpicas, Arthur mantém os pés no chão quanto à formação acadêmica, sendo categórico sobre a prioridade imediata: “Eu coloquei na minha cabeça que eu vou terminar a faculdade antes de fazer qualquer coisa na minha vida”, finaliza.
*Com supervisão de Carlos Corrêa