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Torneio master no Juvenil valoriza o tênis para além dos resultados

Evento, que está em sua 38ª edição, foi realizado ao longo da semana e contou com representantes de 13 países

Prática é cada vez mais procurada na terceira idade
Prática é cada vez mais procurada na terceira idade Foto : Pedro Piegas

Por Ana Nazario* e Victória Rodrigues

A prática do tênis a uma temperatura que beira os 30ºC, somada a uma ventania que por vezes pode atrapalhar o trajeto da bola, pode, dependendo das circunstâncias espantar muitos jovens atletas. No entanto, nem mesmo o forte mormaço afastou os experientes tenistas da Associação Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre, durante o Bordaza Shopping Seniors Internacional, tradicional competição de tênis na Capital que reúne atletas master de diferentes países.

Em sua 38ª edição, a proposta da competição vai além das quadras de saibro. Além da modalidade ser uma das mais indicadas para manter o corpo em movimento na “melhor idade”, o evento também proporciona um ambiente de interação e proximidade até mesmo com os adversários.

"Vim para cá porque no Japão tem poucos torneios nesse estilo. Depois daqui, ainda vou para a Argentina e para o Chile competir”, afirma tenista japonesa

Talvez por esse motivo que nem mesmo o clima úmido e quente foi suficiente para afastar a japonesa Kiyoko Seki do torneio. Natural de Fukuoka, Seiki trocou o badminton pelo tênis aos 19 anos e nunca mais parou. Apesar de ter 64 anos, o corpo da tenista se movimenta de maneira tão ágil como o de um atleta de vinte e poucos. “Vim para cá porque no Japão tem poucos torneios nesse estilo. Depois daqui, ainda vou para a Argentina e para o Chile competir”, relata Seiki. “Eu vim sozinha e vou completar o circuito sozinha também”, completa a tenista.

Não é novidade que moldar um estilo de vida com hábitos saudáveis faz com que o envelhecimento seja vivido de maneira mais leve e, na maioria das vezes, até mais fácil. Os benefícios do tênis para o corpo envolvem a coordenação motora, a necessidade de raciocínio rápido e o aumento da concentração. A prática na terceira idade e a procura por torneios masters no Brasil é um aliado para a longevidade do evento gaúcho. Nesta edição, a competição contou com um tenista de 83 anos. Em outros anos, o evento chegou a receber atletas com até 95.

A prática na terceira idade também serve como um incentivo para os pequenos dentro do clube. “É uma demonstração para a gurizada da força de vontade, da postura deles dentro da quadra, porque nenhum deles fica reclamando, então é uma coisa muito educativa”, explica Ennio Lopes, organizador do evento.

Competição reuniu atletas de 13 países | Foto: Pedro Piegas

Torneio distribui pontos no ranking mundial master

Organizador do evento desde a primeira edição, Ennio Lopes Moreira possui uma ligação com o tênis que não é de hoje. Natural de Porto Alegre, iniciou sua trajetória aos 5 anos nas quadras do Juvenil. Viajou o mundo jogando tênis pelo circuito juvenil e chegou a se profissionalizar, mas como o esporte não era valorizado socialmente e economicamente, teve que desistir do sonho. "Era muito difícil tu dizeres, ‘ah eu vou ser tenista profissional’, lá em 1977. Então resolvi criar a empresa para não me afastar do tênis", conta.

Ennio organizou também a famosa Copa Gerdau durante 35 anos e comenta sobre a diferença de construir um evento para pessoas adultas/idosas e para crianças. "A única diferença que noto é que na criança tu tens mais o pai e a mãe por trás, né? E muitas vezes são passionais ao extremo, são fanáticos, acham que o filho está sendo prejudicado”, revela.

Vencedor leva 700 pontos no ranking mundial master

O torneio Master (MT) 700, seria equivalente a um campeonato intermediário entre um Master 1000 e um ATP 500 do circuito profissional. O vencedor conquista 700 pontos no Ranking Mundial Master da sua categoria, um dos únicos que possui essa pontuação na América Latina.

O torneio é dividido em 10 categorias e cada uma possui chaves de simples e duplas. Cada uma tem um limite de cinco anos de diferença. Por exemplo, na 30M jogam os tenistas de 30 até 34 anos e assim sucessivamente. Cada categoria possui um chaveamento diferente e a com mais participantes têm mais rodadas, enquanto outras podem começar direto das quartas de final.

O evento tem atletas de 13 países (Brasil, Argentina, Jordânia, Uruguai, Peru, Chile, Japão, México, Índia, Colômbia, Equador, Áustria e França) e vai até o sábado, dia 9. A diversidade dos estrangeiros diminuiu bastante esse ano. De acordo com a organização, muito em função das dúvidas quanto à abertura do aeroporto.

Aos 57 anos, Mauro Araújo também organiza torneio juvenis em Belém | Foto: Pedro Piegas

Rotina de preparação inclui treinamentos diários às 5h

Amante do tênis desde os 8 anos, o paraense Mauro Araújo por pouco não seguiu carreira profissional. Destaque na categoria juvenil até os 18 anos, o tenista era terceiro do país até o início da vida adulta. Porém, seguir na modalidade não é um percurso fácil, muito pelo fator financeiro, e Mauro optou por dar aulas.

“Depois de muito tempo ensinando, resolvi voltar quando vi o Circuito Mundial de Seniors. Decidi voltar a treinar muito para jogar em 2022. Joguei muito bem e consegui representar o Brasil ano passado no Mundial em Lisboa”, destaca Mauro.

"O tênis é um dos esportes com raquete que dão uma sobrevida de dez anos na terceira idade e combatem doenças como o Alzheimer”, afirma Mauro Araújo

O resultado justifica a rotina de treinos do tenista, que começa às 5h fielmente todos os dias. Aos 57 anos, Mauro não parou de dar aulas e conta que o incentivo dos alunos é fundamental para ele seguir jogando. “Foi uma geração que não me viu jogar, então isso me incentiva muito”, explica.

O fator saúde também impulsionou Mauro a retornar ao esporte que nunca saiu da sua rotina. “Quando eu decidi voltar, eu me lesionava muito, então precisei me preparar bastante. Além disso, o tênis é um dos esportes com raquete que dão uma sobrevida de dez anos na terceira idade e combatem doenças como o Alzheimer, por exemplo”, afirma.

Além da vida como competidor, Mauro ainda organiza torneios juvenis em Belém que oferece apoio financeiro aos jovens que não conseguem arcar com estes gastos. “Eu quero oportunizar isso para dar chances a esses garotos, porque, quando eu precisei dessa chance, eu não tive”, diz.

Wong Kwan deve atual disposição física anos de dedicação ao esporte | Foto: Pedro Piegas

Aos 72 anos, o brasileiro Wong Kwan é mais um tenista amante do tradicional torneio gaúcho. Experiente na modalidade, Wong já disputou diversos torneio nacionais e internacionais. Apesar da idade, o tenista afirma que deve muito da atual condição física ao esporte. “O tênis é como se fosse uma cachaça, depois que prova uma vez é impossível parar. O ambiente do tênis também é diferente, ele tem uma capacidade de agregar pessoas e de criar amizade impressionante”, destaca Wong.

O brasileiro sempre manteve os hábitos esportivos ao longo de toda a vida. Os resultados dessa escolha vieram na melhor idade. “Às vezes acontece de eu precisar jogar três partidas no mesmo dia. Então sempre temos que estar preparados, com uma capacidade física melhor para enfrentar essas situações”, conta o tenista.

*Sob supervisão de Carlos Correa