Manhã de quarta-feira em um campo de futebol de Pelotas. Apenas as orientações do técnico André Luis ecoam no gramado. Por duas horas e sob um sol escaldante, os jogadores do Brasil suam a camisa xavante. Tudo para que a estreia na Segundona, dia 31 contra o Rio Grande, marque outro recomeço na trajetória do clube. Após o treino, o grupo embarca no ônibus para retornar ao Bento Freitas, distante menos de 15 minutos. No trajeto, passa em frente à casa de Wendel Oliveira Vergara.
Nenhum dos atletas que está no veículo sabe que ali mora o condutor do ônibus que capotou há um ano no quilômetro 150 da ERS-471, em Canguçu. Nem o meia Cléber Gaúcho, o goleiro Luciano, o zagueiro Alex Martins ou o atacante Jair, remanescentes do Gauchão 2009, imaginam que naquela casa branca reside o motorista da empresa Bosenbecker que os trazia de volta às suas famílias naquele 15 de janeiro.
E mesmo sem saber desse detalhe, nenhum deles deixou de pensar, pelo menos por um instante, na noite em que perderam os amigos Claudio Millar, Régis Gouveia e Giovani Guimarães. "Não passa um único dia sem que alguém fale e lembrar machuca bastante. Perdemos muito mais que a Primeira Divisão. Perdemos amigos", diz Luciano.
Um ano após o acidente que de uma maneira brutal encerrou três carreiras promissoras, o Correio do Povo retornou ao local da tragédia. E encontrou vidas que, mesmo despedaçadas pela dor, lutam para recomeçar dia após dia. "A gente se cobra, não entende o porquê das coisas", diz Zilmara Guimarães, esposa do preparador de goleiros Giovani. "Fico pensando que eles estão jogando em outro time, que estão viajando", diz o zagueiro Alex Martins.
"Tem dias que a gente vive melhor, outros não. É um de cada vez", destaca Márcia Guimarães, irmã de Giovani. "Parece que a saudade aumenta a cada dia", resume Noeli Gouveia, mãe do zagueiro Régis.
Verbo mais conjugado na vida de quem ficou, recomeçar também resume a rotina dos xavantes que sofreram lesões sérias. O volante Edu e o auxiliar Paulo Roberto ainda estão em tratamento na clínica do médico do Brasil, André Guerreiro. "O Paulo têm 100% de chances de voltar. O Edu vai jogar futebol, não tenho dúvida nenhuma, mas não sei se no mesmo nível", explica.
Apenas os dois, entre os nove feridos graves, seguem em recuperação. O técnico Armando Dessessards, o massagista Luis Carlos, o volante Odair, os meias Uendel e Xuxa, e os laterais Rafael e Alemão já retornaram ao futebol. Todos, é claro, com o sentimento de que ganharam uma nova chance para viver.
Missa nesta sexta
A torcida xavante e a comunidade de Pelotas não se reunirão no estádio Bento Freitas, nesta sexta-feira, como ocorreu há ano. Desta vez, as homenagens a Claudio Milar, Régis Gouveia e Giovani Guimarães acontecerão na Catedral São Francisco de Paula, em Pelotas. Às 11h, será rezada uma missa para marcar o primeiro ano do acidente. Além dos familiares das vítimas, jogadores como o ex-goleiro Danrlei já confirmaram presença na cerimônia.
Tragédia com delegação do Brasil-Pe completa um ano
Claudio Millar, Régis Gouveia e Giovani Guimarães morreram no acidente na ERS-471