Direto ao Ponto

Feminicídios: o que mudaria esta realidade?

A Educação é o fomento de tudo, o pilar principal, a política primeira. A essência de qualquer transformação. Falta muito para mudar. Todos os passos são importantes, com certeza. Mas enquanto não se mudar mentes, a insanidade terá sempre seu lugar ao sol.

Pode ser até uma infeliz coincidência. De fato, todos nós que lidamos com o cotidiano policial sabemos que certos crimes acontecem, em muito maior escala, nos finais de semana, feriados e datas festivas. Por uma série de questões, inclusive a maior incidência da ingestão de álcool e mergulho nas demais drogas ilícitas que cada vez mais nos rodeiam. É um sem-número de violências domésticas, desordens e mortes no trânsito, marcas das folgas dos brasileiros. Mas o que vivemos no feriadão de Páscoa como um todo, aqui no Rio Grande do Sul, ultrapassou qualquer lógica negativa que estejamos acostumados a enfrentar como provável. Foram vítimas demais. Mulheres de todas as idades sendo assassinadas brutalmente por companheiros, ou ex-companheiros, adoecidos pela chaga da possessividade, cegos pelo seu machismo torpe ou por uma misoginia intrínseca que carrega consigo toneladas de ódio, humilhação e objetificação, tudo disfarçado sob a máscara de um ciúme ou orgulho tão falsos e débeis quanto perigosos em suas mentes doentias.

Há tempos que insisto aqui na coluna, a Lei Maria da Penha foi um tremendo avanço legal, mas não adiantou muita coisa por pura falta de vontade humana. Ou seja, descaso com o tema. E começa pelas comunidades diretamente responsáveis pelos seus cidadãos: os municípios. Basta uma espiada atenta e realmente preocupada com cada detalhe deste tema, com um olhar para muito além dos discursos floridos e eleitoreiros, e irá se constatar que a imensa maioria das cidades não cumprem o seu papel. Não fortalecem como poderiam (e deveriam!) a rede de proteção, não têm sequer um abrigo em suas cidades onde a mulher vítima de violência possa se abrigar com decência e a salvo do seu agressor, muito menos um programa de emprego e renda para stas vítimas.

E seguimos adiante, com as ações necessárias e urgentes sempre dependendo da boa vontade e do interesse das pessoas responsáveis, nos poderes executivo, legislativo ou judiciário, em fazer a coisa andar com a celeridade e seriedade que precisa, sem empacar em burocracias que não dialogam com a realidade de uma vida ameaçada. Também podemos perguntar: quantos agentes públicos são designados para tratar exclusivamente destes casos, mas exclusivamente mesmo, sem acumular outras funções? O quanto nossos gestores públicos tornam de fato importantes este tema? E a violência contra crianças e adolescentes? Sim, precisamos nos questionar sempre. A filosofia do “deixa comigo, dou um jeito com o que tenho” pode contentar quem acha que investir no ser humano é “gasto público”. Mas não atende nem quem precisa dos serviços públicos, muito menos os agentes que precisam ter condições para exercer um trabalho de qualidade que exige dedicação atenta.

E há o fundamental: Educação. Que é o fomento de tudo, o pilar principal, a política primeira. A essência de qualquer transformação. Quem está preocupado em mudar mentes? Não vejo muito ação neste sentido. Palestras sobre o tema? Certo, são instrumentos importantes. Que, sozinhos, viram encontros para bocejar e nem lembrar o que foi dito horas depois. Falo de ações. De transformação. De convencimento. De mostrar o que é bom e arrastar pelo exemplo. Do que se vê na internet circulando sem qualquer pudor ou censura. Do que se canta em certas músicas rotuladas como “populares”, ou vídeos viralizantes, inundando mentes com um lixo comporatamental e sem qualquer problema - e digo lixo não por preconceito: basta prestar atenção no que certas letras dizem sobre meninas e seus órgãos sexuais e a multidão que dança isso sem ao menos se dar conta (elas) do que dizem e fazem. Ou do que farão com elas. Enfim. Falta muito para mudar. Todos os passos são importantes, com certeza. Mas enquanto não se mudar mentes, a insanidade terá sempre seu lugar ao sol.

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