Andreia Gentilini


Alentejo: entre talhas milenares e arquitetura do futuro

Vinhos e vinícolas da região portuguesa unem tradição, projetos futuristas e uma nova geração de vinhos brancos que reposicionam o Alentejo no mapa mundial

Foto : arquivo pessoal

Há regiões do mundo onde o tempo não anda em linha reta — ele se dobra. No Alentejo, essa dobra é evidente: tradições com mais de dois mil anos convivem, sem ruído, com projetos arquitetônicos futuristas, enólogos inquietos e uma nova geração de vinhos brancos que reposicionam a região no mapa mundial.

A viagem começa pela herança profunda dos vinhos de talha, técnica que sobrevive desde os romanos e que hoje encontra guardiões dedicados como a CARMIM, em Reguengos de Monsaraz, e a familiaríssima Honrado Vineyards — momento que parece suspender a lógica do mundo moderno. Também no lado tradicional está a Tapada do Chaves, em Portalegre, referência absoluta quando se fala em vinhas velhas e centenárias. Com parcelas plantadas em 1901 e 1903, a propriedade — hoje sob a Fundação Eugénio de Almeida, produtora do Pera Manca— preserva castas antigas como trincadeira e arinto, e elabora brancos e tintos de pequena produção e profundidade raríssima. Ali, entender o Alentejo é compreender que o solo e a idade das vinhas falam tão alto quanto os rótulos.

Vinhos de talha, técnica que sobrevive desde os romanos | Foto: arquivo pessoal

Mas o Alentejo não vive apenas de memória. Vive de movimento. Nos últimos anos, a região surgiu com um vigor contemporâneo que desafia antigos estereótipos. Entre as grandes surpresas está a Herdade do Freixo, ícone de arquitetura subterrânea e precisão técnica, onde degustamos brancos vibrantes, um rosé marcante e a evolução de castas como o Alvarinho em solos alentejanos.

A visita à Tiago Cabaço Winery reforça essa pulsão moderna: rótulos ousados, linhas como blog e um enólogo conhecido por unir tradição e arrojo numa estética absolutamente contemporânea. E o movimento não para: a Herdade do Rocim, onde participamos da festa de São Martinho e do Amphora Wine Day, mostra como as talhas ganham nova vida sob novas mãos, novos conceitos e um marketing global que projeta o Alentejo a públicos mais jovens.

O mesmo sopro de renovação aparece na Quinta do Plansel, conduzida pela família Lindemann, que trouxe rigor alemão ao estudo das castas e produziu o primeiro espumante do Alentejo em 1997 — um legado que segue influenciando o panorama atual.

Entre as grandes hospedagens e experiências de enoturismo, nada marcou tanto quanto a estadia na Herdade do Sobroso, eleito pela Forbes entre as 50 melhores vinícolas do mundo. Em meio aos vinhedos, fomos recebidos pelos proprietários Sofia e Filipe, que transformaram o projeto em um refúgio de charme, hospitalidade e autenticidade.

De lá, seguimos para a Herdade de Coelheiros, onde encerramos a press trip organizada pela CVRA- Comissão Vitivinícola Regional Alentejana. A propriedade impressiona pela beleza, pela biodiversidade, pelo safari entre vinhas e pela consistência dos tintos — especialmente o memorável Tapada de Coelheiros Taco 2014, um vinho que fica na memória pelo vigor e elegância. Entre as castas tintas, o destaque absoluto segue sendo a Alicante Bouschet, rainha do Alentejo moderno, que ao lado de variedades clássicas e de novas apostas como o Viosinho, mostra a capacidade da região de se reinventar. Também cresce com força a produção de varietais — um sinal de confiança e maturidade enológica — e o protagonismo dos brancos, sobretudo os de altitude da região de Portalegre, que exibem frescor surpreendente.

A gastronomia reforça esse encontro entre passado e futuro. Foram dias intensos de cozinha alentejana, onde a carne de porco e seus miúdos reinam absolutos — das bochechas aos embutidos –, acompanhando vinhos que variam da rusticidade emocionante das talhas à sofisticação de projetos modernos. Na Herdade do Rocim, durante o Amphora Day, o enólogo Pedro Ribeiro sintetizou o espírito deste novo tempo ao afirmar: “O resgate do passado é o futuro.”

A frase ecoa ao caminhar entre talhas de barro ancestral, rótulos com design arrojado, vinhas centenárias e projetos jovens que ousam desafiar o que se espera do Alentejo. Uma região vasta — a maior de Portugal — onde microterroirs distintos convivem: a altitude fresca de Portalegre, a amplitude térmica de Évora, a força solar de Reguengos e Vidigueira, e a sofisticação crescente de projetos que integram sustentabilidade, identidade e contemporaneidade. No Alentejo, o tradicional e o moderno não competem; caminham lado a lado, reinventando-se. E foi essa combinação — inesperada e fascinante — que marcou profundamente cada dia desta viagem.

🍷 Provei e Amei

Vinícolas e vinhos de destaque no Alentejo durante a Press Trip da CVRA:

1️⃣ Tapada de Coelheiros

📍 Arraiolos

Recomendação: Tapada de Coelheiros Tinto 2014

➤ Um vinho de grande estrutura e elegância, ícone da propriedade. Marcado por profundidade, equilíbrio e longevidade. Foi também um dos vinhos mais memoráveis da viagem.

2️⃣ Honrado Vineyards

📍 Vila de Frades – Capital do Vinho de Talha

Recomendação: Talha Premium Tinto

➤ A expressão mais pura da tradição milenar. Fermentado e elaborado inteiramente em talha, entrega rusticidade autêntica, taninos firmes e identidade marcante.

3️⃣ Herdade do Sobroso

📍 Vidigueira

Recomendação: Élevage Branco 2022

➤ Elegância e delicadeza num branco que traduz o estilo refinado da propriedade. Macio, aromático e perfeito para gastronomia.

4️⃣ Herdade do Freixo

📍 Redondo

Recomendação: Freixo Rosé Special Edition 2024

➤ Um rosé surpreendente: delicado, moderno, de cor pálida e perfil mineral. Representa perfeitamente a estética contemporânea da adega subterrânea.

5️⃣ CARMIM – Reguengos de Monsaraz

📍 Reguengos

Recomendação: Reguengos Garrafeira dos Sócios 2021 Tinto

➤ O topo da cooperativa: concentração, fruta negra intensa e taninos sedosos. Um vinho que mostra a força da maior cooperativa do Alentejo.

6️⃣ Tiago Cabaço Winery

📍 Estremoz

Recomendação: Tiago Cabaço Vinhas Velhas Branco

➤ Complexo, vibrante e com assinatura de terroir. Foi um dos destaques da degustação, mostrando o equilíbrio entre modernidade e tradição.

7️⃣ Quinta do Plansel

📍 Évora

Recomendação: Plansel Viosinho

➤ Um branco aromático e elegante, mostrando o potencial das castas portuguesas reinterpretadas pelo rigor germânico da família Lindemann.