Há uma frase que pode parecer óbvia, mas ainda causa alguma confusão até entre apreciadores de vinho: Chianti não é Chianti Classico. E entender essa diferença é fundamental para compreender a identidade de um dos territórios mais importantes da viticultura italiana. O Chianti Classico ocupa a área histórica de produção, entre Florença e Siena, e desde 1996 é uma DOCG autônoma — não uma subzona de Chianti. São cerca de 71.800 hectares de território, dos quais aproximadamente 10 mil são ocupados por vinhedos, e cerca de 7 mil estão aptos à produção de Chianti Classico DOCG. O Consorzio Vino Chianti Classico, fundado em 1924 por 33 produtores, reúne hoje cerca de 480 associados e representa aproximadamente 96% dos produtores da denominação. A produção média fica na faixa de 35 a 38 milhões de garrafas por ano, destinadas a mais de 160 mercados. No centro dessa identidade está a Sangiovese, responsável por no mínimo 80% do Chianti Classico, em um território onde altitude, exposição, clima e solos — entre eles galestro, alberese e argilas — criam diferenças muito perceptíveis entre uma área e outra.
Tive o privilégio de conhecer esse território em uma missão técnica da ABS-RS, ao lado de professores e profissionais, incluindo um encontro no Consorzio Chianti Classico com Alessandro Masnaghetti, que nos ajudou a aprofundar justamente essa leitura territorial. Foram dias de muito aprendizado, com visitas a diferentes propriedades e mais de 30 vinhos degustados, permitindo comparar estilos, vinificações e, principalmente, a influência dos diferentes terroirs. Hoje, o Chianti Classico reconhece 11 UGA — Unità Geografiche Aggiuntive: San Casciano, Greve, Lamole, Montefioralle, Panzano, San Donato in Poggio, Radda, Castellina, Gaiole, Castelnuovo Berardenga e Vagliagli. Elas representam um passo importante na busca por traduzir no rótulo a diversidade de um território que está longe de ser homogêneo.
E há um Chianti Classico que está se reinventando. O tradicional Gallo Nero continua sendo o símbolo mais reconhecido da denominação, mas novas regras e uma nova geração de produtores vêm ampliando a leitura sobre o território. A Gran Selezione, criada em 2014 e posicionada no topo da pirâmide qualitativa, trouxe ainda mais foco para a origem das uvas, com matéria-prima exclusivamente da propriedade e pelo menos 30 meses de envelhecimento. A valorização das variedades autóctones também ganhou espaço, enquanto as UGA permitem uma leitura cada vez mais precisa das diferenças entre os territórios. Durante a viagem, isso ficou evidente em vinhos de diferentes estilos: desde interpretações mais frescas e diretas até Riservas e Gran Selezione de grande profundidade. Na Rocca delle Macìe, por exemplo, provamos desde o Santo Alfonso Chianti Classico 2023 até o Sergio Zingarelli Gran Selezione 2021, além do Roccato 2023, um Super Toscano 100% Cabernet Sauvignon. Na Fattoria di Fugnano, já em San Gimignano, uma vertical de Donna Gina mostrou a capacidade de envelhecimento da Vernaccia. E, em propriedades menores, encontramos algo que talvez seja uma das maiores riquezas dessa região: hospitalidade, proximidade e produtores dispostos a dividir sua história.
Conhecer Chianti Classico, portanto, vai muito além de visitar os grandes nomes — embora a visita à Antinori nel Chianti Classico tenha sido, sem dúvida, incrível. Foi também uma experiência curiosa: pela primeira vez em uma viagem profissional, visitamos uma vinícola que nos recebeu e apresentou sua estrutura, mas não apresentou nenhum vinho. Em contraste, algumas das propriedades menos famosas nos receberam de maneira extremamente calorosa e permitiram compreender o vinho a partir da terra e das pessoas. E talvez o ponto alto tenha sido Brolio, onde visitamos o castelo e a propriedade da família Ricasoli, ligada ao território desde 1141. Ali, entre vinhedos e diferentes formações de solo, ficou muito claro como terroir não é apenas uma palavra bonita: ele pode ser percebido na taça. A degustação dos Gran Selezione Colledilà, Roncicone, CeniPrimo e Castello di Brolio foi uma verdadeira aula de território. Saio do Chianti Classico com a sensação de que estamos diante de um clássico que não pretende viver apenas de sua história. O Gallo Nero continua firme, mas o território está olhando para frente. Novos produtores, novas gerações, as UGA, a valorização das castas locais e uma atenção cada vez maior às diferentes parcelas mostram que tradição e renovação podem caminhar juntas. Chianti Classico continua sendo um clássico — justamente porque sabe se reinventar.
PROVEI E AMEI
1. Fattoria Lavacchio — Puro Chianti DOCG 2022
Pontassieve, Chianti Rufina — Toscana | Sangiovese
A Fattoria Lavacchio está no alto do Montefiesole, a cerca de 450 metros de altitude, em Chianti Rufina. Propriedade familiar e pioneira na agricultura orgânica da região, trabalha com fermentações espontâneas e uma linha que inclui Chianti Rufina, Super Toscanos e os vinhos Puro, elaborados sem adição de sulfitos. O Puro Chianti 2022 é Sangiovese, de perfil fresco, frutado e direto, traduzindo muito bem a identidade mais natural proposta pela casa.
No Brasil a Fattoria Lavacchio está no portfólio da Mondoroso, importadora especializada em pequenos produtores italianos.
2. Rocca delle Macìe — Sergioveto Chianti Classico Riserva 2021
Castellina in Chianti, Chianti Classico — Toscana | 100% Sangiovese
Um dos vinhos mais emblemáticos da família Zingarelli. O Sergioveto nasceu em 1985 como homenagem de Italo Zingarelli ao filho Sergio e utiliza Sangiovese proveniente de um vinhedo específico. A safra 2021 passa por fermentação em aço, fermentação malolática em concreto e amadurecimento em carvalho francês por cerca de 20–24 meses, seguido de estágio em garrafa.
A Rocca delle Macìe foi fundada em 1973 pelo produtor cinematográfico Italo Zingarelli e hoje está sob a condução de Sergio e da nova geração da família. No Brasil, o Vissimo Group – Grand Cru – Evino é o distribuidor da linha Rocca delle Macìe–Famiglia Zingarelli.
3. Fattoria di Fugnano — Donna Gina Vernaccia di San Gimignano 2023
San Gimignano — Toscana | 100% Vernaccia
Uma das minhas grandes descobertas da viagem. A Fattoria di Fugnano está profundamente ligada a San Gimignano e tem na Vernaccia uma de suas principais expressões. O Donna Gina 2023 é elaborado exclusivamente com Vernaccia, passa por criomaceração de 48 horas e depois amadurece aproximadamente dez meses em aço inoxidável. O resultado é um branco de grande identidade territorial, textura e capacidade de evolução. A vinícola produz ainda outros vinhos sob a marca Donna Gina, além de Vernaccia, Sangiovese, Chianti Colli Senesi, rosato e espumante.
4. Ricasoli — Brolio Riserva 2023
Gaiole in Chianti, Chianti Classico — Toscana | Sangiovese
No Castello di Brolio, a história e o terroir caminham juntos. A propriedade da família Ricasoli soma 1.200 hectares, dos quais cerca de 240 hectares são vinhedos, e está no coração de Gaiole in Chianti. O Brolio Riserva 2023 é elaborado com Sangiovese proveniente de diferentes parcelas da propriedade, plantadas sobre cinco formações geológicas: Macigno del Chianti, Scaglia Toscana (galestro), Monte Morello (alberese), depósitos marinhos e antigos terraços fluviais. No Brasil, a Via Vini é a importadora exclusiva da Ricasoli e mantém a marca em seu portfólio.
5. Castello di Verrazzano — Chianti Classico Riserva 2022
Greve in Chianti, Chianti Classico — Toscana | 95% Sangiovese + 5% uvas tintas complementares
Localizado em Greve in Chianti, o castelo di Verazzano pertence à família Cappellini desde 1958, e a tradição vitivinícola da propriedade remonta ao século XII. Seus vinhedos estão entre 280 e 450 metros de altitude, com solos predominantemente calcários. A Riserva é amadurecida por no mínimo 24 meses em pequenas botti de carvalho e depois permanece ao menos seis meses em garrafa. A propriedade produz Chianti Classico, Riserva, Gran Selezione, Super Toscano, Vin Santo e outros vinhos toscanos.
