Andreia Gentilini


Entre vinhos e sabores, Tiradentes transforma a cidade em uma grande mesa

O Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes coloca em evidência a relação histórica entre Minas Gerais e Portugal e ocupa diferentes pontos da cidade com gastronomia, cultura, aulas, produtores e experiências

Foto : Andreia Gentilini / especial / cp

Foi minha primeira vez no Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes — e talvez justamente por isso a experiência tenha sido de descoberta. Em sua 29ª edição, realizada de 21 a 30 de agosto, o festival escolheu como tema “Minas Lusitânia – um elo entre culturas”, colocando em evidência a relação histórica entre Minas Gerais e Portugal e ocupando diferentes pontos da cidade com gastronomia, cultura, aulas, produtores e experiências. O que mais me encantou, porém, foi perceber que Tiradentes não recebe simplesmente um festival: ela se transforma no próprio festival. A programação se espalha pelas ruas, praças e restaurantes, e o visitante vai descobrindo cada experiência a pé, pelas ruas de pedra, de charrete, entre uma mesa e outra, um prato e uma taça. É uma maneira muito mineira de celebrar a gastronomia: sem pressa, com conversa, encontros e, claro, boa comida.

Há espaços para diferentes públicos e diferentes maneiras de viver o evento. Na Praça da Rodoviária, a atmosfera é mais democrática e acessível, com gastronomia, música e programação cultural; no Largo das Forras, o festival ganha ainda mais a cara de Tiradentes, com o movimento constante de pessoas circulando pelo centro histórico. Mas, para mim, o grande destaque foi a gastronomia: pequenos pratos preparados por chefs brasileiros, com preços acessíveis, que permitem experimentar mais de uma cozinha em uma mesma tarde. É justamente aí que o vinho entra como companheiro perfeito. Em vez de uma refeição longa e formal, a proposta convida a provar, compartilhar, voltar à fila, descobrir um novo sabor e harmonizar cada mordida com uma nova taça. Entre uma aula-show, uma música e uma conversa, a gastronomia deixa de ser apenas o que está no prato e passa a ser parte da experiência.

Um dos lugares em que mais permaneci foi a Vila Verdemar, espaço com acesso mediante ingresso e número mais reduzido de pessoas. Ali havia menos opções gastronômicas, mas uma experiência que, para quem gosta de vinho, é especialmente interessante: uma verdadeira adega do supermercado Verdemar, onde pude provar diferentes rótulos mineiros. E foi também ali que encontrei o Pobre Juan, uma das grandes surpresas da viagem. Senti-me em casa, da gastronomia ao atendimento impecável. A experiência reforçou uma convicção que levo comigo há muitos anos: vinho e gastronomia não precisam competir pelo protagonismo. Quando existe equilíbrio, um amplia o outro. O festival também oferece os Festins, encontros entre chefs brasileiros e portugueses em menus especiais, além de cozinhas ao vivo e atividades de conhecimento que exploram justamente as pontes entre as duas culturas.

E, falando em vinho, Tiradentes merece ser explorada também para além do centro histórico. A Vinícola Trindade, em Bichinho, a apenas 7 quilômetros de Tiradentes, foi uma das dicas que mais gostei de descobrir: o lugar tem um belo cenário para contemplar o pôr do sol e trabalha com Sauvignon Blanc e Syrah cultivados pela técnica da dupla poda; durante o festival, recebeu novamente o Sunset Fartura.

Outra parada que vale incluir no roteiro é a Vinícola Luiz Porto, que reúne produção, tecnologia e enoturismo em Tiradentes, com vinhedos de altitude na Serra da Mantiqueira e degustações que ajudam a entender a evolução dos vinhos mineiros. E foi justamente nas taças que encontrei outra dimensão da viagem: Minas não é apenas território de queijo, café, doce de leite e cozinha de afeto. É também um território que está construindo, safra após safra, uma identidade própria para seus vinhos.

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  • Luiz Porto Brut — Método Tradicional

Começo pelas borbulhas porque elas combinam perfeitamente com o espírito do festival. O Luiz Porto Brut é elaborado pelo método tradicional, com segunda fermentação na garrafa e seis meses de contato com as leveduras. O corte reúne Chardonnay e Pinot Noir, provenientes de vinhedos de altitude em Cordislândia, na Serra da Mantiqueira. Na taça, entrega perlage fino, frescor e uma textura cremosa, acompanhados por frutas brancas e cítricas e nuances de pão tostado, torrefação e manteiga. É um espumante que mostra como a vitivinicultura mineira pode ir muito além dos tintos de inverno: tem estrutura para acompanhar entradas, queijos, embutidos e, sobretudo, aqueles pequenos pratos que fazem parte da melhor experiência de um festival gastronômico.

  • Maria Maria kika Syrah 2025

O Kika Syrah é um ótimo retrato da força que a técnica da dupla poda trouxe para Minas. Produzido na Fazenda Capetinga, em Boa Esperança, no Sul de Minas, é fruto da colheita de inverno de 2025, realizada manualmente em julho. A fermentação acontece em inox, com maceração prolongada de 20 dias e posterior fermentação malolática. No aroma, aparecem ervas finas — como louro, tomilho e orégano — acompanhadas por frutas negras frescas. Em boca, tem bom corpo, acidez equilibrada e taninos finos, com final persistente. É um Syrah jovem, mas já muito gastronômico, daqueles que pedem carne, embutidos, queijos mais intensos e uma boa conversa. E há algo particularmente interessante nesse vinho: ele demonstra como diferentes regiões mineiras estão encontrando suas próprias expressões para a Syrah, uva que se tornou protagonista dos vinhos de inverno brasileiros.

  • Luiz Porto Gran Reserva Syrah 2018

Aqui está um dos vinhos que mais traduzem a ambição da vitivinicultura mineira. O Gran Reserva Syrah 2018 nasce em vinhedos de altitude, a aproximadamente 980 metros, em Cordislândia, numa região de transição entre Mata Atlântica e Cerrado. A colheita de inverno permite que a maturação aconteça em um período mais seco e de maior amplitude térmica, favorecendo concentração e equilíbrio. O vinho passa 18 meses em barricas de carvalho francês e americano e mostra uma combinação muito interessante de amora madura, baunilha, pimenta, noz-moscada e toques defumados. Na boca é estruturado, mas com taninos aveludados, final longo e boa profundidade. É um Syrah que já apresenta complexidade de vinho de guarda e que eu colocaria facilmente à mesa com carnes grelhadas, cordeiro, pratos de longa cocção e queijos curados.

  • Dom de Minas Sauvignon Blanc 2025 — Luiz Porto

Entre tantos tintos, foi uma alegria encontrar um branco que mostra outra faceta de Minas. O Dom de Minas Sauvignon Blanc vem de vinhedos de altitude da Luiz Porto, em Cordislândia, e apresenta a combinação que espero de um Sauvignon Blanc de clima mais fresco: fruta, acidez e tensão. No nariz, aparecem maracujá, pêssego e pera, acompanhados por um leve toque de especiarias. Em boca, tem estrutura, persistência e uma acidez bastante marcada, responsável pelo frescor que torna o vinho tão versátil à mesa. É especialmente interessante para acompanhar peixes, frutos do mar, queijos mais delicados e pratos que tragam ervas e ingredientes frescos. Para mim, é também um lembrete de que falar em vinho mineiro não significa falar apenas de Syrah: a diversidade de castas e estilos começa a ganhar cada vez mais espaço.

  • Jacinta Rosé 2025 — Vinícola Trindade

A Vinícola Trindade, em Bichinho, a poucos quilômetros de Tiradentes, é um dos novos projetos que ajudam a escrever a história da vitivinicultura mineira. Aos pés da Serra de São José, a propriedade aposta na técnica da dupla poda para produzir vinhos de inverno, trabalhando principalmente com Syrah e Sauvignon Blanc, e vem associando a produção à experiência de enoturismo, com um cenário privilegiado para contemplar os vinhedos e o pôr do sol. Entre seus rótulos está o Jacinta Rosé 2025, elaborado com Syrah, de perfil fresco, delicado e gastronômico, com fruta vibrante e acidez que convida à mesa — perfeito para acompanhar queijos, entradas e os pequenos pratos que fazem do festival uma experiência tão saborosa. O vinho acaba de receber Medalha de Ouro no Brazil Wine Challenge 2026, reconhecimento que reforça o potencial desse jovem projeto e mostra que Minas Gerais está, cada vez mais, encontrando sua própria identidade também na produção de vinhos.