A cada safra, o vinho brasileiro amplia suas fronteiras — e a 34ª Avaliação Nacional de Vinhos, realizada em outubro, confirmou que essa transformação vai muito além dos números. Das 558 amostras inscritas por 83 vinícolas, 191 foram classificadas entre os 30% mais representativos da safra 2026, reunindo produtores de oito estados e do Distrito Federal. O Rio Grande do Sul mantém sua liderança histórica, mas o resultado revela um cenário cada vez mais plural, no qual novos territórios, diferentes castas e projetos de menor escala ganham espaço. Promovida pela Associação Brasileira de Enologia (ABE), que completa 50 anos, a avaliação não elege os melhores vinhos: oferece um diagnóstico técnico da safra e da evolução da vitivinicultura nacional.
Entre os destaques, chama a atenção a diversidade de origens e propostas. A Quinta da Neve, pioneira nos vinhos de altitude de São Joaquim, na Serra Catarinense, representa a capacidade de regiões mais frias de produzir vinhos com identidade própria. No Distrito Federal, a Villa Triacca reforça o protagonismo da viticultura de inverno, que vem transformando o Cerrado em uma fronteira promissora para os tintos brasileiros. No Rio Grande do Sul, a Serra do Sudeste também merece atenção: o rosé de Cabernet Sauvignon da Cerro de Pedra, de Pinheiro Machado, evidencia como diferentes territórios podem explorar novas expressões de castas conhecidas. São exemplos de uma vitivinicultura que deixa de ser definida apenas por suas regiões tradicionais e passa a valorizar, cada vez mais, a singularidade de cada terroir.
Outro sinal de amadurecimento está na escolha das uvas. Ao lado de variedades consagradas, como Chardonnay, Pinot Noir e Cabernet Sauvignon, aparecem Chenin Blanc, Marselan, Rebo e Teroldego, ampliando o repertório de estilos disponíveis ao consumidor. Entre os tintos, o Tannat da Vinhos Larentis, elaborado com uvas próprias no Vale dos Vinhedos, chegou às 16 amostras apresentadas na degustação comentada, ao lado de outros dois vinhos da família classificados entre os 30% mais representativos: Marselan e Teroldego. A presença desses rótulos mostra que a inovação não depende necessariamente de grandes estruturas. Vinícolas familiares e produtores de menor escala também contribuem para a identidade do vinho brasileiro ao apostar em variedades, parcelas de vinhedos e interpretações próprias de seus territórios.
Mais do que celebrar resultados, a Avaliação Nacional de Vinhos convida a olhar para o futuro do setor. A qualidade deixou de ser uma narrativa restrita a determinadas regiões e passou a se expressar em diferentes latitudes, altitudes e modelos de produção. O desafio agora é transformar esse avanço técnico em reconhecimento de mercado, ampliar a distribuição e aproximar o consumidor de origens ainda pouco conhecidas. Para quem aprecia vinho, essa diversidade é uma excelente notícia: há novas histórias para descobrir, uvas para experimentar e regiões para explorar. Aos 50 anos da ABE, a vitivinicultura brasileira demonstra que sua próxima grande conquista pode estar justamente na capacidade de revelar protagonistas que ainda não ocupam o centro do palco.
PROVEI E AMEI | Cinco expressões da nova vitivinicultura brasileira
- Quinta da Neve – Sauvignon Blanc | São Joaquim (SC): Na Serra Catarinense, a Quinta da Neve é uma das pioneiras na produção de vinhos de altitude e, desde 1999, trabalha para expressar as particularidades de seu terroir em São Joaquim. A Sauvignon Blanc selecionada entre os 30% mais representativos da Safra 2026 alcançou mediana de 93 pontos na seleção e recebeu nota 94 do comentarista Henrique Gudde. É uma casta que encontra nas condições de altitude uma oportunidade para combinar intensidade aromática, frescor e acidez, características especialmente valorizadas em brancos gastronômicos. É um destaque que reforça o potencial da Serra Catarinense para brancos vibrantes, de identidade própria e grande versatilidade à mesa.
- Cerro de Pedra – Rosé de Cabernet Sauvignon | Pinheiro Machado (RS): Um rosé de Cabernet Sauvignon entre os vinhos mais representativos da safra é um convite a olhar para a Serra do Sudeste. A amostra da Cerro de Pedra, vinícola boutique de Pinheiro Machado, alcançou mediana de 91 pontos e recebeu nota 96 da comentarista Vanessa Leite, um dos resultados mais expressivos da degustação comentada. O resultado destaca a versatilidade de uma casta internacional e mostra como produtores de menor escala podem explorar novos estilos a partir de territórios ainda pouco conhecidos pelo grande público.
- Vinícola Mioranza – Marselan | Flores da Cunha (RS): A Marselan é uma daquelas uvas que merecem mais espaço nas conversas sobre o vinho brasileiro. Resultado do cruzamento entre Cabernet Sauvignon e Grenache, realizado na França em 1961, ela reúne características que podem combinar cor intensa, aromas de frutas maduras, taninos presentes e boa concentração, sem necessariamente apresentar a rusticidade que algumas variedades mais estruturadas podem desenvolver. Em Flores da Cunha, a Vinícola Mioranza, fundada em 1964 e com uma trajetória que une tradição familiar e modernização, teve seu Marselan classificado entre os 30% mais representativos da Safra 2026, com mediana de 92 pontos e nota 93 da comentarista Malu Sevieri. A vinícola mantém um portfólio diversificado, com marcas de vinhos finos como Alvise e Catania, além de produtos que atendem a diferentes perfis de consumidores.
- Vinícola Campestre – Rebo | Campestre da Serra (RS): Entre as castas que despertam curiosidade na vitivinicultura brasileira, a Rebo merece atenção especial. Desenvolvida no norte da Itália a partir do cruzamento entre Merlot e Teroldego, ela combina o potencial de concentração e estrutura de suas origens genéticas e pode resultar em tintos de cor profunda, fruta madura, taninos marcantes e boa persistência. A Vinícola Campestre, que elabora vinhos na região dos Campos de Cima da Serra, teve sua amostra de Rebo classificada entre os 30% mais representativos da Safra 2026, com mediana de 93 pontos e nota 96 do comentarista Leandro Bortholacci. O resultado é particularmente interessante porque a região, de clima mais frio e altitude elevada, oferece condições distintas das encontradas em áreas tradicionais da vitivinicultura brasileira. A Campestre já comercializa o Zanotto Vero Talian Rebo, da safra 2025, elaborado com uvas dessa variedade e proveniente dos Campos de Cima da Serra, com passagem de 12 meses por carvalho francês. A vinícola também apresenta uma versão de vinificação integral, com fermentação em barricas e maior integração entre fruta e madeira.
- Villa Triacca Hotel Vinícola & Spa – Corte de Syrah, Marselan e Cabernet Franc | Brasília (DF): O Cerrado brasileiro também vem conquistando espaço no mapa do vinho, especialmente com a viticultura de inverno, técnica que permite programar a colheita em períodos mais favoráveis à maturação das uvas. Em Brasília, a Villa Triacca Hotel Vinícola & Spa levou à seleção da Safra 2026 um corte de Syrah, Marselan e Cabernet Franc, que alcançou mediana de 93 pontos e recebeu nota 96 do comentarista Eduardo Lira. A composição reúne três variedades com características complementares: a Syrah pode aportar fruta escura, especiarias e volume; a Marselan contribui com cor, concentração e estrutura; e a Cabernet Franc pode acrescentar frescor, notas herbáceas e complexidade aromática. O resultado potencial é um tinto de perfil contemporâneo, no qual o equilíbrio entre fruta, estrutura e acidez é tão importante quanto a maturação. A Villa Triacca já comercializa o Due Terre, um tinto elaborado com uvas de colheita de inverno, que reúne Syrah, Marselan, Cabernet Franc e Sangiovese, com passagem por barricas de carvalho. É um exemplo expressivo de como a vitivinicultura do Distrito Federal vem explorando a diversidade varietal e demonstrando que o Brasil pode produzir vinhos de identidade em regiões que, até pouco tempo, estavam fora do imaginário tradicional do consumidor.
