Por três dias, São Paulo se transforma na capital mundial dos negócios do vinho. A ProWine São Paulo 2026 reúne mais de 2 mil produtores e expositores de 43 países, ocupando 25.967 m² do Expo Center Norte e criando uma verdadeira geografia internacional da bebida. Mais do que uma grande feira de degustação, o evento é um dos principais pontos de encontro entre produtores, importadores, distribuidores, compradores, sommeliers e profissionais do setor. É ali que muitos rótulos fazem sua primeira apresentação ao mercado brasileiro, que regiões produtoras encontram novos parceiros e que tendências começam a ganhar espaço nas taças. França, Itália, Portugal, Espanha, Alemanha, Chile, Argentina, Uruguai, África do Sul, Austrália, Japão, Geórgia e Armênia, entre tantos outros países, mostram a diversidade de estilos, castas e territórios que hoje disputam a atenção do consumidor brasileiro.
Entre as novidades que chegam ao mercado estão movimentos que revelam como o vinho está ampliando suas fronteiras. A Alemanha, por exemplo, participa pela primeira vez com dois espaços coletivos, reunindo 20 propriedades de diferentes regiões e mostrando que seu universo vai muito além do Riesling, com Pinot Noir, Chardonnay, Silvaner, Lemberger e espumantes. A Grand Cru apresenta uma seleção que percorre Espanha, Argentina, Chile, Itália e Portugal, incluindo a chegada da histórica Família Torres ao portfólio da importadora, além de opções sem álcool, de baixo teor alcoólico e rótulos direcionados ao varejo. A Bodegas Grupo Wine apresenta ao público brasileiro o Piccini Chianti Orange, um Chianti contemporâneo, frutado e fresco que ajudou a transformar a centenária vinícola italiana em uma marca global. São exemplos de como a ProWine funciona como uma vitrine antecipada: aquilo que hoje é novidade na feira pode amanhã estar nas cartas de restaurantes, nas lojas especializadas e nas taças dos consumidores brasileiros.
Mas a grande surpresa também está em olhar para dentro. Em uma feira que recebe produtores de 43 países, o Brasil mostra que já possui uma identidade vinícola plural e capaz de dialogar de igual para igual com o mundo. O Rio Grande do Sul ganha protagonismo especial com o espaço Vinhos Gaúchos, que reúne 43 vinícolas e apresenta um território que vai muito além da tradicional imagem da Serra Gaúcha. Estão representadas diferentes regiões, da Serra à Campanha e à Serra do Sudeste, com novas castas, pequenas produções, espumantes, tintos e brancos. O Vale dos Vinhedos também marca presença com 21 vinícolas, reafirmando a importância da primeira Denominação de Origem brasileira para vinhos e espumantes. E o mapa brasileiro se completa com outras realidades, como o Vale do São Francisco, onde o clima e a irrigação permitem até duas safras e meia por ano. É uma demonstração clara de que nossa vitivinicultura não precisa imitar os grandes territórios internacionais: sua força está justamente na diversidade de terroirs que o país oferece.
A ProWine, portanto, é muito mais do que uma feira de vinhos. É um radar do mercado e um palco de lançamentos, encontros e oportunidades, onde se pode perceber para onde caminha o consumo e quais histórias estarão nas taças nos próximos anos. Entre milhares de garrafas abertas, algumas despertam curiosidade; outras têm potencial para se transformar em grandes sucessos comerciais. E talvez essa seja a maior riqueza do evento: permitir que o profissional brasileiro viaje pelo mundo sem sair de São Paulo, enquanto produtores de diferentes continentes descobrem as possibilidades do nosso mercado. No meio dessa grande cartografia internacional, o vinho brasileiro ocupa cada vez mais espaço — e o Rio Grande do Sul, com sua tradição, diversidade e capacidade de inovação, mostra que também tem muito a ensinar ao mundo.
PROVEI E AMEI
Cinco novidades que chamaram minha atenção na ProWine São Paulo 2026:
- UVVA Microlote Chardonnay 2025 — Chapada Diamantina (BA): A UVVA, vinícola instalada em Mucugê, na Chapada Diamantina, trabalha seus vinhedos a cerca de 1.150 metros de altitude, em um terroir de clima tropical de altitude e solos de origem sedimentar. O novo Microlote Chardonnay 2025 representa uma evolução de um dos rótulos de destaque da casa: além da colheita manual e do estágio de seis meses em carvalho francês, a novidade apresentada na ProWine passa a utilizar leveduras autóctones isoladas no próprio vinhedo, reforçando a identidade microbiológica do lugar. O vinho combina notas de flores brancas, frutas maduras, chocolate branco e nuances minerais, com acidez vibrante e final persistente. É um Chardonnay de personalidade, que traduz muito bem a proposta da UVVA de revelar a Chapada Diamantina através da taça.
- Cave Antiga Rosso Autorale — Tannat & Schönburger: Um dos blends mais inusitados que encontrei entre os lançamentos brasileiros. A Cave Antiga, tradicional vinícola familiar de Farroupilha, na Serra Gaúcha, une 70% Tannat da Campanha Gaúcha, de Santana do Livramento, a 30% Schönburger de Cotiporã, na Serra. O Tannat passa por 17 meses em carvalho francês e entrega estrutura, taninos e frutas negras; já a Schönburger, variedade aromática pouco conhecida no Brasil, acrescenta flores, frutas tropicais e frescor. O resultado é um tinto de rubi profundo, com aromas de amoras, ameixas, tâmaras, especiarias, chocolate branco e nozes, além de corpo, acidez equilibrada e final longo. Uma combinação surpreendente e muito bem resolvida.
- Rio Manso Olhar da Onça 2024 — Serra da Mantiqueira (MG): A Vinícola Rio Manso é uma das novas e interessantes expressões dos chamados vinhos de inverno brasileiros. O projeto está localizado entre Jacutinga e Espírito Santo do Pinhal, na Serra da Mantiqueira, com vinhedos em torno de 1.000 a 1.050 metros de altitude, em solos graníticos e de boa drenagem. O Olhar da Onça 2024 é um corte de Syrah, Cabernet Franc e Viognier, com 12 meses em barricas de carvalho francês. Na taça, mostra fruta escura, cassis, amora madura, flores, especiarias, chocolate e nuances tostadas, apoiados por taninos bem integrados e boa acidez. É um vinho que mostra como o Sudeste brasileiro vem construindo uma identidade própria para os vinhos de colheita de inverno.
- Castellamare Chenin Blanc 2026 — Serra Gaúcha (RS): A Cooperativa Vinícola São João, responsável pela marca Castellamare, apresenta uma novidade que chega para ampliar o repertório de brancos brasileiros: um Chenin Blanc elaborado com uvas cultivadas em Farroupilha, na Serra Gaúcha. De coloração amarelo-palha com reflexos esverdeados, apresenta aromas delicados de pêssego e ameixa branca, acompanhados por nuances de amêndoas, pão e chocolate branco. Em boca, é fresco, macio e equilibrado, com agradável salinidade, corpo médio e notas de levedura que acrescentam complexidade. Um branco versátil, pensado para acompanhar peixes, aves, massas de molhos leves e queijos de média intensidade. Uma variedade de origem francesa que encontra na Serra Gaúcha uma interpretação brasileira bastante interessante. O lançamento chega em lote de apenas 6 mil garrafas.
- Fit Bubbles — Casa Perini: E aqui está uma novidade que foge completamente do conceito tradicional de vinho — justamente por isso merece estar nesta seleção. A Casa Perini, vinícola familiar do Vale Trentino, em Farroupilha, que tem suas origens na produção de vinhos desde 1929, estreia em uma nova categoria com o Fit Bubbles, uma bebida gaseificada à base de chá verde, sem álcool e sem açúcar. A proposta é preservar o ritual de celebração — abrir a garrafa, servir na taça e brindar — mas oferecer uma alternativa para quem busca momentos de consumo mais leves. A linha chega em três versões: pera, morango branco e lichia, todas zero álcool, zero açúcar e calorias, além de veganas, sem glúten e sem conservantes. Não é um vinho sem álcool, e essa é justamente a proposta: criar uma nova categoria, dialogando com o movimento de mindful drinking e com consumidores que alternam entre bebidas alcoólicas e não alcoólicas conforme a ocasião. Uma aposta ousada de uma vinícola quase centenária para olhar para o futuro do consumo.
