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A próxima onda da IA: Empresas investem em robôs humanoides para revolucionar o trabalho físico

Corrida levanta preocupações sobre a perda de postos de trabalho e sobre questões de privacidade

Modelos de IA física também precisam lidar com a visão e a relação espacial entre os objetos
Modelos de IA física também precisam lidar com a visão e a relação espacial entre os objetos Foto : AFP

Um par de braços robóticos giratórios, semelhantes a humanos e construídos para pesquisa em Inteligência Artificial (IA) Física, imitam os movimentos de um operador que, usando óculos de realidade virtual, move suas mãos como um mágico. Com prática suficiente, aparelhos como estes poderão realizar tarefas cotidianas por conta própria.

Essa é a visão da empresa japonesa Enactic, que desenvolve robôs humanoides em Tóquio para lavar louça ou roupa em asilos, um setor que enfrenta escassez de pessoal. "A próxima onda de IA é a IA física", afirmou no ano passado Jensen Huang, diretor da gigante americana de semicondutores Nvidia, definindo-a como "uma IA que entende as leis da física, uma IA que pode trabalhar entre nós".

Corrida global e projeções de mercado

Grandes empresas estão injetando somas significativas de dinheiro na tecnologia. O entusiasmo é acentuado por vídeos virais que mostram androides avançados, muitas vezes de fabricação chinesa, dançando ou levantando objetos pesados.

No entanto, a corrida levanta preocupações sobre a perda de postos de trabalho, questões de privacidade e quanto tempo essas inovações levarão para se tornar verdadeiramente úteis, além da promessa de mordomos robóticos de ficção científica.

Hiro Yamamoto, de 24 anos, é o CEO da Enactic, cujos dispositivos de treinamento de IA física "OpenArm" são usados pela Nvidia e por universidades de prestígio, como Stanford. Ele planeja começar a implementar novos robôs, atualmente em desenvolvimento, a partir do próximo verão boreal para "conviver com pessoas em ambientes muito caóticos e nos quais as condições mudam constantemente", como lares de idosos, enfatizando que eles devem ser "seguros".

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Avanços na China

Na China, a fabricante de veículos elétricos XPeng também está apostando na IA física. Em Cantão, a empresa apresentou seu mais recente robô humanoide: uma figura feminina que caminhou lentamente imitando os movimentos naturais do corpo humano, entre aplausos.

Embora as ágeis máquinas de empresas americanas, como os robôs em forma de cachorro da Boston Dynamics, tenham dominado as manchetes, o forte apoio governamental e as robustas cadeias de suprimentos estão ajudando os rivais chineses.

O CEO da XPeng, He Xiaopeng, declarou que acredita que, dentro de uma década, serão vendidos mais robôs do que carros por ano. No entanto, o custo ainda é um obstáculo. O preço de uma mão robótica, que deve ser substituída periodicamente em trabalhos pesados, poderia cobrir o salário de um trabalhador por anos.

Apesar disso, o copresidente da XPeng, Brian Gu, acredita que, com dados e treinamento suficientes, os robôs humanoides com IA poderão desempenhar "quase qualquer função humana", desde babá até cozinheiro ou jardineiro.

Limites físicos

As ferramentas de IA baseadas em texto, como o ChatGPT, são treinadas com vastos volumes de palavras. Contudo, os modelos de IA física também precisam lidar com a visão e a relação espacial entre os objetos. Segundo Yamamoto, são necessárias apenas entre 30 e 50 demonstrações de cada tarefa para ajustar os modelos de IA de "visão-linguagem-ação".

Empresas como a Enactic e a startup americana-norueguesa 1X estão focando em tarefas domésticas e de assistência para liberar cuidadores qualificados. O assistente doméstico humanoide da 1X, o NEO, custa US$ 20.000, mas seu desempenho ainda é instável, como demonstrado em um vídeo onde o robô tem dificuldades para fechar a porta de uma máquina de lavar louça, mesmo sendo controlado remotamente.

Essa instabilidade reflete uma "grande lacuna" entre os sistemas de IA dos robôs e suas capacidades físicas, que estão atrasadas, afirma Sara Adela Abad Guaman, professora assistente de robótica na University College de Londres. Ela salienta que "a natureza nos demonstrou que, para se adaptar ao ambiente, é necessário ter o corpo adequado". Diante dos questionamentos sobre o futuro do trabalho humano, a professora conclui que "o nosso sentido do tato é incomparável", minimizando a preocupação com a substituição total.