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“Brain rot”: especialistas orientam como consumir conteúdo online sem atrofiar o cérebro

Termo que remete ao ‘apodrecimento’ cerebral foi escolhido a palavra do ano pela universidade de Oxford

Plataformas são construídas para entregar conteúdo breve, mas é possível 'adestrar' o algoritmo
Plataformas são construídas para entregar conteúdo breve, mas é possível 'adestrar' o algoritmo Foto : Firmbee/Unsplash/CP

O consumo excessivo de conteúdos breves e rasos na internet pode estar afetando o funcionamento do seu cérebro e sua saúde mental. O “brain rot” - ou, em português, “cérebro apodrecido” - pode ser definido como uma exaustão ou deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa, em função do consumo excessivo de material. Neste caso, conteúdos disponíveis online em aplicativos como Tik Tok, Instagram, Youtube e outros.

O termo foi escolhido como a palavra do ano de 2024 pela universidade de Oxford, após uma votação pública que reuniu mais de 37 mil participantes. Entre 2023 e 2024, a busca por esse termo voltou teve um aumento de 230% no número de pesquisas na internet.

O professor da Escola de Saúde da Unisinos e doutor em neuropsicologia, Chrystian Kroeff, avalia que o termo “apodrecimento” é um tanto “dramático”. Kroeff avalia que o processo pelo qual passa o cérebro se assemelha mais a uma atrofia. Ele explica que o cérebro humano tem milhões de conexões neurais se construindo e desconstruindo constantemente.

Cada evento que vivemos configura certas conexões neurais. Conforme esses eventos se repetem, essas conexões se tornam mais fáceis, parte do processo de aprendizagem.

“Quando mais desafiadoras forem as tarefas, os hobbies, os interesses que eu tiver contato, mais trabalho vai ter meu cérebro, para criar novas conexões neurais. E quanto mais repetitivos, simples e empobrecidos forem as tarefas, menos o cérebro vai precisar fazer isso. É como se ele fosse ficando preguiçoso, uma espécie de atrofiamento cerebral”, explica o especialista.

Essa estimulação rápida e fugaz, que proporciona um prazer imediato e de curta duração, vai acostumando o cérebro. “Na clínica, vemos muitos relatos de adolescentes que conseguem ficar horas jogando videogame, horas no celular, mas quando precisam prestar atenção em uma sala de aula, não conseguem. Porque o cérebro está acostumado àquela velocidade de estímulo diferente.”

Diversos estudos apontam que uma exposição excessiva a telas na infância impacta o desenvolvimento da linguagem e até de questões psicomotoras.

Kroeff indica alguns efeitos e sintomas que podemos observar e que indicam que nossa relação com esse tipo de conteúdo está deixando de ser saudável. Entre os sintomas são uma maior compulsão pelas telas, e que pode deslizar para outros tipos de compulsão, problemas de atenção e memória, ansiedade e cansaço mental, além de prejuízos à qualidade do sono.

Plataformas feitas para entregar conteúdo breve

As plataformas de redes sociais estão diretamente relacionadas à entrega e estímulos ao consumo de um conteúdo rápido. É o caso do Tik Tok e do Instagram, por exemplo. É um modelo de negócio baseado na venda da atenção do usuário, explica o professor Alisson Coelho, coordenador do curso de Jornalismo e Relações Públicas da Universidade Feevale.

“A plataforma não está preocupada sinceramente com a saúde mental das pessoas, está preocupada em manter as pessoas lá pelo maior tempo possível”, resume Coelho. “Para isso, elas vão fazendo alterações na oferta de conteúdo de acordo com o que você demonstra ter interesse. Os vídeos curtos são hoje o grande foco de interesse das pessoas. Então as plataformas estão focadas em entregar o maior número possível de conteúdo curto, rápido, que acaba gerando esse fenômeno.”

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É possível ‘adestrar’ o algoritmo

Não é preciso abolir completamente esse tipo de conteúdo do cotidiano, alertam os especialistas entrevistados pelo Correio do Povo. Até porque, atualmente, isso seria praticamente inviável. O usuário, entretanto, pode aderir a alguns comportamentos para prevenir o “Brain rot”.

  • Diversificar o material consumido, incluindo outros conteúdos, mais aprofundados e que demandam a atenção por um período de tempo mais longo.
  • Conhecer suas relações com o celular e as telas. Ocupe o tempo com outras coisas interessantes, como leituras de jornais e livros, aprender novas atividades, idiomas, hobbies, e buscar, mesmo nas telas, atividades mais complexas, que desafiem mais o cérebro.
  • ‘Adestrar’ o algoritmo, dando sinais de que você quer receber outros tipos de conteúdo. As redes sociais sabem que você gostou do conteúdo pelo tempo que você ficou nele. Existem bons conteúdos na internet, interessantes, densos e bem pesquisados. É possível treinar a plataforma para entregar um conteúdo menos rápido e raso.