Como fazer com que os produtos da agricultura familiar cheguem com mais facilidade ao consumidor final e a pontos de venda em todo o país? O desafio, que já era histórico no Rio Grande do Sul, ficou ainda mais evidente durante as enchentes de 2024. A partir desse cenário, começaram a surgir soluções que hoje ajudam a fortalecer a economia local.
O tema foi debatido no South Summit Brazil 2026, em Porto Alegre, a partir da experiência do coletivo Produtores Gaúchos Unidos.
Criado em maio de 2024, em meio à crise, o grupo reuniu pequenos produtores, chefs e agroindústrias com o objetivo de superar dificuldades logísticas e manter a circulação de alimentos. A iniciativa rapidamente evoluiu de uma resposta emergencial para um modelo estruturado de conexão entre quem produz e quem consome.
Encurtando o caminho
Baseado no conceito de cadeias curtas de comercialização, o projeto busca reduzir intermediários e aproximar produtores de consumidores e estabelecimentos, valorizando não apenas o alimento, mas também a história, a cultura e o território envolvidos em cada produto.
Durante o debate, o secretário de Desenvolvimento Rural do Estado, Gustavo Paim, ressaltou que os produtos da agricultura familiar carregam um valor que vai além da lógica industrial.
“Não são itens padronizados de prateleira. Cada produto carrega uma história, uma tradição e a identidade de quem produz”, afirmou. Segundo ele, reconhecer esse diferencial é essencial para ampliar o acesso a mercados.
O South Summit também conta com um estande dedicado à comercialização de produtos da agricultura familiar gaúcha. No espaço, os participantes podem encontrar uma variedade de itens, como geleias, queijos, vinhos e chocolates, valorizando a produção local diretamente junto ao público do evento.
"Estamos aqui trazendo um pouquinho dos sabores do terroir gaúcho para que as pessoas possam levar para casa", explica a CEO do Produtores Gaúchos Unidos, Aline Barilli Alves.
Plataforma conecta produtores ao consumidor
Como desdobramento da iniciativa, foi criada a Feira Digital Sabor Gaúcho, uma plataforma que conecta produtores tanto ao consumidor final quanto a restaurantes e outros pontos de venda. A proposta é ampliar o alcance da produção local, ao mesmo tempo em que fortalece as cadeias curtas e melhora a rentabilidade dos produtores.
“Temos uma ferramenta em que a gente foi melhorando. Trazendo o embargo tecnológico e de logística, meio de pagamento para que essas agroindústrias consigam se cadastrar e administrar os seus estoques”, explica a CEO.
O projeto conta com apoio institucional, incluindo parcerias com a Secretaria de Desenvolvimento Rural e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), reforçando o papel da articulação entre governo, academia e iniciativa privada.
Além das soluções de mercado, o painel também destacou políticas públicas voltadas ao fortalecimento do setor. Um dos pontos é o incentivo à sucessão rural, com destinação de recursos para apoiar jovens agricultores.
Censo das agroindústrias familiares gaúchas
Outro destaque é a produção de dados para orientar decisões. Segundo o secretário, um censo da agroindústria familiar está em andamento e deve oferecer um diagnóstico detalhado do setor, que reúne mais de 4 mil agroindústrias habilitadas no Estado, sendo mais de 2 mil vinculadas ao selo Sabor Gaúcho.
A pesquisa busca identificar gargalos e oportunidades, desde entraves burocráticos até o nível de digitalização dos produtores, funcionando como um raio-x do setor e auxiliando na definição de políticas com maior impacto econômico e social.