Além de impactar as grandes empresas de tecnologia do mundo, a crise de escassez de memória RAM vem provocando, nos últimos meses, uma alta significativa no preço de eletrônicos como celulares, notebooks, câmeras fotográficas e videogames. Ainda que de maneira “invisível" e interna, esses componentes fazem parte do cotidiano e seu encarecimento impacta diretamente o bolso dos consumidores.
"Essas memórias são as mesmas que vão no teu celular ou no teu computador. E aí está a chave da questão. Está havendo um enorme esforço de construção de data centers que usam milhares dessas máquinas, consumindo milhões de módulos de memória", explica o professor do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Luigi Carro.
"Nós temos apenas quatro grandes empresas de tecnologia que são fabricantes de memória RAM no mundo, e elas não estão conseguindo dar conta dessa demanda das IAs e de outros eletrônicos. Com isso, o preço sobe. É natural, vamos dizer assim", acrescenta.
-
Direto ao Ponto: Entenda como IAs provocam crise de escassez de memória RAM e salto nos preços de eletrônicos
O especialista da Ufrgs relembra que, nos Estados Unidos, o preço dos iPhones saltou 30% justamente pela falta de memória. "Eles não têm memória suficiente para entregar. Chegou até o nosso bolso, por isso. As grandes empresas de tecnologia estão com uma demanda muito grande por data centers”.
- Tendência é de custos de IA caírem com aumento de modelos, afirma diretor da Nvidia
- Ações de tecnologia em queda: entenda os motivos
Não há milagre
E é justamente desse avanço nos preços que não há "truque" para o consumidor escapar. "Não existe milagre", resume Carro. "Uso sempre o exemplo da gasolina. Quem tem carro pode escolher entre álcool e gasolina, mas as opções continuam limitadas. Tu podes procurar o posto mais barato, mas não vais encontrar gasolina por R$ 1 o litro. A diferença será de alguns centavos. Com a memória, esse cenário é parecido", comenta.
Na avaliação dele, também não existe aparelho que esteja imune a essa alta, e não é possível cravar uma previsão de quando essa situação irá se normalizar. "É possível que a situação se regularize. Eu não digo que os preços vão cair, mas pelo menos podem se estabilizar em um período relativamente curto. Pode ser em breve, mas isso seria achismo puro. Esse mercado é muito dinâmico", alerta.
Celulares antigos
O professor não acredita que o cenário alcance uma paralisação na produção dos aparelhos e em uma inutilização acelerada de eletrônicos.
"A maior parte dos celulares continuará funcionando como um terminal de acesso. Eles vão se conectar à nuvem, onde estará rodando o software pesado de inteligência artificial. Nesse cenário, o celular precisa basicamente ter uma boa conexão com a internet e uma tela adequada. Se esse for o caminho tecnológico predominante, mesmo um celular mais antigo continuará sendo útil", sugere.
Apesar do impacto econômico, os usuários podem acabar tendo a vida útil de seus aparelhos prolongadas, projeta Carro. "Quem desenvolve inteligência artificial quer vender mais, quer que a tecnologia seja utilizada pelo maior número possível de pessoas e, por isso, ninguém vai querer criar uma IA que só funcione em um celular extremamente caro e sofisticado, porque isso reduziria muito o número de usuários", resume.
"Nesse ponto, eu acho que o consumidor tende a ser beneficiado. Ele continuará conseguindo utilizar essas aplicações mesmo em máquinas e celulares mais antigos", finaliza.