O primeiro Death Stranding deixou muita gente confuso, intrigado, gerou algumas críticas de “Walking Simulator” (simulador de caminhada, na ironia em inglês)… Ou seja, um espécime legítimo Kojima. Agora, em Death Stranding 2: On the Beach, a essência do visionário criador japonês se mantém, mas num jogo muito mais “jogável” para as massas. E mais divertido para aquela sentada corrida ou mais densa na frente do videogame.
É o retorno ousado de Hideo Kojima a um universo onde conexões são mais valiosas que balas. Lançado exclusivamente para PlayStation 5, o jogo é ao mesmo tempo uma sequência direta e uma reinvenção sutil do original. Sam Porter Bridges, agora mais velho na marcante interpretação do astro de “Walking Dead” Norman Reedus, retorna em uma jornada ainda mais íntima e imprevisível por um mundo devastado e cheio de novas ameaças. Se no primeiro jogo o foco era reconectar as cidades dos EUA, aqui o objetivo ganha contornos mais filosóficos: reconstruir a própria ideia de “sentido coletivo”. O cenário entrega aquele dedinho na política que Kojima sempre usa, com a ambientação na fronteira com o México, um estender de mãos que na realidade parece cada vez mais difícil.
O jogador ainda deve enfrentar longas caminhadas, mas agora com novos equipamentos, perigos ambientais e combates mais presentes. A tarefa de organizar a complexa carga de Sam ficou mais prática e direta; o que ajuda. A travessia ganha verticalidade e variedade com tirolesas, veículos customizados e até uns trens monotrilho. Já o combate, antes um recurso emergencial, se transforma em um sistema tático com stealth, gadgets criativos e chefes gigantes — sem jamais abandonar o tom contemplativo e o ritmo cadenciado que tornaram o original tão divisivo quanto cultuado.
Momentos Kojima
Combate cinematográfico com slow-motion — Os headshots ativam breves “efeitos Matrix”, criando sequências que parecem saídas de um filme, somando tensão.
Chefões e referências absurdos — De um mech estilo polvo atirando carros a um crânio desidratado gigante, o game revive a tradição de monstros excêntricos e narrativas bizarras de Kojima.
Cameos e homenagens cinéfilas, com George Miller como NPC e referências explícitas a “maldição da mansão Hill” (sim Silent Hill para quem não pegou).
Trama densa e emocional, explorando conexão humana e isolamento, agora com temas que ressoam pós‑COVID.
Interação online sutil, em que você usa itens e estruturas deixadas por outros jogadores, reforçando o senso de rede e colaboração presente no original.
Death Stranding 2: On the Beach é uma obra que só poderia ter vindo da mente de Hideo Kojima. É ao mesmo tempo um jogo e uma reflexão audiovisual sobre o mundo, a perda, a reconexão — e o absurdo. Sua natureza contraditória é seu maior trunfo: ao mesmo tempo que expande mecânicas e melhora o combate, ele dobra a aposta em momentos silenciosos, sequências surreais e metáforas existenciais.
Nem tudo será para todos: ainda é um jogo mais lento que a maioria dos atuais e há muitos diálogos para quem não pular. Mas para aqueles que se conectaram emocionalmente com o primeiro jogo, ou que estão abertos a uma experiência profundamente autoral, On the Beach oferece a jornada. O caminho é, de fato, mais importante que o destino.
Em um mundo saturado de fórmulas, Death Stranding 2 prova que ainda há espaço para o estranho e o incômodo. Kojima continua sendo, para o bem ou para o mal, um dos últimos autores verdadeiros dos videogames.
Evolução, não revolução
Mantém o núcleo de entrega de cargas, mas adiciona combate mais robusto, veículos, monorails e evolução de personagem com habilidades que torna a progressão mais envolvente
A exploração adquire novas camadas: agora com acidentes geológicos (chuvas de areia, terremotos), clima dinâmico e mudanças de terreno que obrigam adaptação constante.
Tom e ritmo
Reduz o ritmo contemplativo do primeiro, com mais ação — combates e stealth entram como elementos centrais — mas sem abandonar pausas existenciais típicas de Kojima. As bizarrices permanecem intactas: sequências musicais absurdas, exposições complexas e rupturas de tom que só ele consegue costurar.
Narrativa e elenco
Sam e Lou seguem sua jornada pós‑épica, mas com foco mais direto em conexão e reconstrução humana. Elenco estelar retorna (Léa Seydoux, Troy Baker) e novos nomes como Elle Fanning e Guillermo del Toro reforçam a pegada Hollywood.
Imersão audiovisual
Gráficos de cair o queixo, com paisagens esmagadoras de realismo, misturadas com artísticas, devem ser experiência visual obrigatória no PS5. Trilha sonora reativa e nostálgica, incluindo momentos com músicas da franquia anterior, elevam a carga emocional.