A plataforma de criptomoedas Binance, a maior de negociação desse câmbio do mundo em volume diário de operações, afirmou que as investigações haviam "identificado pontos adicionais de comprometimento". Inicialmente, a Binance havia anunciado que o ataque envolveu apenas um computador portátil. "Este foi um ataque complexo, e estamos fazendo todo o possível, em coordenação com as forças de segurança, para solucioná-lo", informou a empresa em sua conta em espanhol na rede social X voltada para a América Latina.
A empresa prometeu nesta sexta-feira que cobrirá integralmente as perdas de seus clientes. O valor do ciberataque "complexo" é de US$ 6,3 bilhões (R$ 33 bilhões). Quase metade (cerca de US$ 3 bilhões – R$ 16,2 bilhões) desse montante foi congelada para evitar um roubo em massa. Os mercados de criptomoedas registraram forte volatilidade após o incidente.
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O que são criptomoedas
As criptomoedas se baseiam em uma tecnologia chamada cadeia de blocos, ou blockchain, um registro digital que documenta as transações e foi projetado para tornar sua falsificação especialmente difícil. As transferências desses ativos são autorizadas por meio de 'chaves privadas', longas sequências de caracteres mantidas em segredo. No entanto, isso não protege completamente os recursos contra roubos.
'Mesmo quando você acredita estar utilizando uma das plataformas de negociação mais robustas do mundo, ela ainda pode ser hackeada', declarou à AFP Stéphane Ifrah, analista da Coinhouse
Indícios do ciberataque
A análise das causas do incidente ainda não foi concluída. Inicialmente, a Binance identificou indícios de que o ataque teria começado pelo comprometimento do notebook de um engenheiro de DevOps, profissional responsável pela manutenção e operação da infraestrutura tecnológica da empresa.
Por meio do equipamento, os criminosos teriam conseguido acessar um ambiente de serviço interno e executar transações de retirada de ativos sem autorização.
Para acessar essas chaves privadas ou os sistemas que autorizam as transferências, os hackers podem explorar vulnerabilidades dos programas, instalar softwares maliciosos ou atacar usuários específicos por meio de técnicas como o phishing. Para evitar esses riscos, alguns usuários armazenam as chaves em 'carteiras físicas', dispositivos de armazenamento que não ficam conectados à internet.
No entanto, investigações posteriores identificaram outros pontos de comprometimento, indicando que a invasão foi mais complexa do que a hipótese apresentada inicialmente. O co-CEO da Binance, Richard Teng, explicou que os elementos reunidos até agora não permitem atribuir o ocorrido à atuação de um único funcionário. O executivo também afastou, preliminarmente, a possibilidade de que os invasores tenham obtido as chaves privadas utilizadas para proteger as carteiras digitais.
"Este ataque não foi realizado por uma única pessoa", acrescentou Teng. Segundo o executivo, os hackers utilizaram um dispositivo de autodestruição que apagava seus rastros e conseguiram acessar essa carteira sem passar pelos controles internos. "Temos boas expectativas de que os usuários possam realizar saques antes do fim de domingo", ou seja, "dentro de 40 horas", declarou Teng.
O FBI afirmou à AFP estar "ciente do incidente" e informou que trabalha com parceiros dos setores público e privado para "compreender sua dimensão, avaliar as possíveis consequências e coordenar as medidas de investigação". O Departamento de Justiça dos Estados Unidos não confirmou a existência de uma investigação e lembrou que a plataforma continua "obrigada a cooperar com as forças de segurança", conforme um acordo firmado em 2023.
O valor seria quatro vezes maior que o do maior ciberataque desse tipo registrado até agora: os US$ 1,5 bilhão (R$ 8 bilhões, cotação atual) subtraídos da plataforma Bybit em fevereiro de 2025. A empresa de pesquisa em blockchain TRM Labs afirmou na quinta-feira ter "alto grau de confiança" de que o ataque foi orquestrado pelo TraderTraitor, um grupo de hackers vinculado à Coreia do Norte.
"Várias características deste ataque coincidem com roubos anteriores vinculados à Coreia do Norte", afirmou a TRM. Acredita-se que o TraderTraitor faça parte do Grupo Lazarus, que ganhou notoriedade em 2014, quando foi acusado de hackear a Sony Pictures em represália ao filme "A Entrevista", que satirizava o líder norte-coreano Kim Jong-un.
Fundos congelados
Por volta das 21h30 de sexta-feira, a Binance informou que todos os depósitos e saques haviam sido "temporariamente suspensos", enquanto sua equipe "realizava verificações de segurança, congelava fundos e colaborava com as autoridades". "Não encontramos evidências de qualquer vazamento de chaves privadas de carteiras", afirmou a Binance.
O ex-diretor da Binance Changpeng Zhao, que já não comanda o grupo, mas continua sendo seu acionista majoritário, considerou na noite de quinta-feira que "realmente parece um ataque".
Paolo Ardoino, diretor da Tether, empresa emissora de uma criptomoeda conhecida como USDT, afirmou que havia congelado cerca de US$ 1,6 bilhão "relacionados a um possível ataque à plataforma de negociação Binance".
Jeremy Allaire, diretor da plataforma de criptomoedas Circle, acrescentou que sua empresa havia bloqueado mais de US$ 800 milhões (R$ 4,33 bilhões) em outra moeda digital, a USDC.
Tanto o USDT quanto o USDC são stablecoins, ou seja, moedas digitais cujo valor está atrelado a uma moeda tradicional, o dólar americano.
O ataque à Binance ocorre em um momento em que muitos observadores alertam para as capacidades cada vez maiores dos modelos de inteligência artificial, que poderiam comprometer a criptografia e os protocolos de segurança tecnológica.
O mercado "não está em modo de pânico", avaliou à AFP Stéphane Ifrah, analista da plataforma francesa Coinhouse, que mencionou um impacto "muito, muito limitado".
Reservas
O codiretor da Binance, Richard Teng, afirmou em um vídeo publicado na rede social X nesta sexta-feira que a plataforma reservou mais de US$ 6,34 bilhões (R$ 34,3 bilhões) de seu próprio capital para cobrir os ativos roubados. "Nós jamais utilizamos os fundos dos clientes e, portanto, eles não foram afetados", assegurou, ao explicar que o ciberataque teve como alvo uma carteira da Binance conectada à internet.
A Binance publicará na segunda-feira um relatório de comprovação de suas reservas, que permitirá a verificação pública de seus fundos. Por volta das 14h30 em Brasília, o preço do bitcoin era de US$ 77.183,25, com queda de 4,71% nas últimas 24 horas.