Os investimentos em Inteligência Artificial devem chegar a US$ 1,5 trilhão (o equivalente a R$ 8,02 trilhões) em 2025, e superar os US$ 2 trilhões (R$ 10,7 trilhões) no ano que vem. A projeção é da empresa norte-americana de consultoria Gartner. Com este volume gigantesco de investimentos, especialistas apontam que pode estar se formando uma bolha especulativa em torno da IA. E ela pode vir a estourar.
Para explicar de forma didática como funciona uma bolha especulativa, o economista Moisés Waismann, professor da Universidade La Salle (Unilasalle), recorre à imagem de uma bolha de sabão, que começa “bonita, firme e potente” e que, em algum momento, “se dissolve, pois é parte do seu processo”.
“Na economia, no ramo da inovação, sempre que temos uma nova onda de inovação tecnológica, cria-se uma expectativa de que isso será muito viável, que trará aos investidores mais recursos do que o investido. Mas, como isso é uma inovação, nós não sabemos efetivamente qual o retorno desse investimento”, afirma.
“Você investe um real e ganha dois, até que, daqui a pouco, investe um real e ganha 50 centavos. Quando a gente percebe isso, nos ausentamos desse mercado, dessa ideia. E ela vai se fragilizando e pode arrebentar”.
Waismann cita outras ferramentas que tiveram um “boom” em seu lançamento e que, com o tempo, tornaram-se bem menos lucrativas, como as enciclopédias.
“Os produtores e vendedores de enciclopédia ganharam muito dinheiro, até que apareceu a internet e essa turma perdeu”. Em relação à IA, o professor destaca que ainda estamos no início do desenvolvimento da tecnologia. “É uma grande promessa, por enquanto, não se sabe ainda como transformar essa promessa em negócio”.
Irracionalidade nos investimentos
Recentemente, o chefão do Google falou sobre o tema em entrevista exclusiva à BBC. O crescimento dos investimentos em IA vive um "momento extraordinário", mas há uma certa "irracionalidade" nesse boom em torno da tecnologia, afirmou Sundar Pichai, CEO da Alphabet, que controla o Google. Pichai afirmou ainda que todas as empresas serão afetadas se uma eventual bolha da IA estourar.
Jeff Bezos, fundador da Amazon, também citou essa “irracionalidade” nos investimentos, durante uma conferência de tecnologia na Itália. "Os investidores normalmente não dão US$ 2 bilhões a uma equipe de seis pessoas sem produto, e, no entanto, é isso que está acontecendo agora", avaliou.
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E se a bolha estourar?
O clima de preocupação também cresce. O mercado financeiro acompanha de perto empresas como Apple, Microsoft, Google, Amazon, Nvidia e OpenAI, diante do temor de uma bolha especulativa.
Gigantes da tecnologia e fabricantes de chips investem em startups de IA, para que depois as empresas comprem seus produtos e serviços. Trata-se de uma economia circular, modelo frágil diante de turbulências no mercado, e que remonta ao início do estouro da bolha da internet em 2000.
“Todas as inovações têm bolhas. Geralmente quem ‘paga o pato’ das bolhas é quem entra por último e tem menos recursos”, avalia o professor Waismann.
O bilionário Jeff Bezos enxerga um eventual estouro da bolha como uma espécie de seleção natural de mercado. Para o dono da Amazon, a bolha pode ser benéfica, pois “quando a poeira baixa e restam os vencedores, a sociedade se beneficia dessas invenções”.