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“Estamos próximos de responder uma antiga pergunta”, diz astrofísico sobre descobertas em Marte

Sinais inéditos encontrados pela Nasa reforçam hipótese de vida microscópica em Marte, no passado

Amostra foi coletada em 2024, em Neretva Vallis, pelo rover Perseverance da Nasa
Amostra foi coletada em 2024, em Neretva Vallis, pelo rover Perseverance da Nasa Foto : EFE/NASA/JLP-caltech/msss

Uma descoberta classificada pela Nasa como uma das mais promissoras até então na busca por sinais de vida antiga em Marte foi divulgada nesta quarta-feira, 10. Em artigo publicado na revista Nature, cientistas detalharam que uma amostra coletada pelo rover Perseverance pode conter evidências de que o planeta já abrigou vida microscópica em algum momento de sua história.

A rocha, batizada de Sapphire Canyon, foi coletada em 2024 em Neretva Vallis, um antigo canal de rio que desembocava na cratera Jezero. Formada há bilhões de anos, a amostra revelou a presença de minerais como vivianita (fosfato de ferro) e greigita (sulfeto de ferro), que na Terra costumam surgir em ambientes aquáticos associados à decomposição de matéria orgânica por micro-organismos.

“Para o imaginário popular, isto pode reforçar o fascínio. Ainda não achamos vida em Marte mas estamos cada vez mais próximos de responder uma antiga pergunta”, afirma o astrofísico José Eduardo Costa, do Departamento de Astronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Segundo o professor, a região estudada pelo Perseverance é um dos pontos mais estratégicos para investigar o passado em Marte, já que reúne evidências de que houve água fluindo para dentro da cratera Jezero e depositando sedimentos em diferentes condições ambientais.

“A grande surpresa veio quando os instrumentos detectaram carbono orgânico associado a esses minerais. Carbono orgânico se refere a moléculas de carbono ligadas principalmente a hidrogênio, oxigênio, nitrogênio ou enxofre. Isso em si já é significativo, porque o carbono orgânico é considerado um ingrediente fundamental para a vida, embora possa se formar também por processos não biológicos”, explica.

Descobertas exigem interpretação cuidadosa

Apesar do achado surpreendente, a Nasa reforçou em comunicado a necessidade de cautela na interpretação sobre a origem dos sinais. Segundo os cientistas, esses achados por si só não confirmam a existência de vida em Marte, mas demonstram que o ambiente registrou química ativa e complexa mesmo depois da formação das rochas.

“A presença de água corrente, depósitos lacustres e química redox cria um ambiente propício para a vida microbiana, similar a ambientes habitáveis da Terra primitiva, o que fortalece a hipótese de habitabilidade passada. A associação entre carbono orgânico e minerais redox é muito sugestiva, pois na Terra isso quase sempre envolve micro-organismos vivos”, explica o astrofísico.

"Entretanto, esses mesmos sinais podem ser gerados por processos que não têm ligação com qualquer atividade biológica, como reações químicas entre minerais e fluidos ou até mesmo o aporte de meteoritos ricos em carbono”, acrescenta.

Costa esclarece que, ao se referir a um ambiente “habitável”, não significa que ele tenha sido de fato habitado ou que possa vir a ser no futuro, mas apenas que apresenta condições potencialmente compatíveis com a vida microbiana.

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Desafios adiante

A confirmação de que essas formações ocorreram com a participação ou não de organismos vivos exige que as amostras passem por exames de laboratórios com tecnologias avançadas na Terra.

Esse retorno, porém, ainda enfrenta incertezas. Quando o Perseverance foi lançado em 2020, a Nasa esperava que as amostras voltassem à Terra no início da década de 2030, porém, o cronograma foi adiado para os anos 2040 devido ao aumento dos custos da missão, estimados em cerca de US$ 11 bilhões.

Enquanto isso, os cientistas recorrem a experimentos em solo terrestre e discutem alternativas, como o envio de equipamentos mais sofisticados diretamente a Marte. Dez tubos de titânio já foram deixados na superfície marciana como reserva, mas o plano definitivo para trazer o material segue em aberto.

“Os instrumentos do Perseverance, e de outros rovers, são sofisticados, mas limitados quando comparados com instrumentos de laboratórios na Terra. As análises que eles podem fazer, em geral, são indicativas, mas não definitivas. Por isso é tão importante o retorno de amostras para a Terra. Assim, poderíamos ter respostas mais conclusivas”, afirma o professor.

A amostra Sapphire Canyon é apenas uma das 30 coletadas pelo Perseverance desde 2021, todas aguardando futuras missões de retorno à Terra.