Foto: Fabiano do AmaralPor Felipe Samuel
A utilização de um robô promete revolucionar a cirurgia para a retirada da próstata - conhecida como prostatectomia radical - no Rio Grande do Sul. Produzido pela empresa Intuitive Surgical, o robô Da Vinci foi apresentado ontem à noite, no Hospital Moinhos de Vento, a uma plateia de 200 médicos de diferentes especialidades. Os benefícios apontados pelo uso da nova tecnologia vão desde uma cirurgia menos invasiva, com cortes menores e menos sangramento, até uma recuperação mais rápida do paciente. Reunidos no Anfiteatro Schwester Hilda Sturm, da instituição, o grupo assistiu à transmissão da cirurgia robótica via internet de um paciente com câncer na próstata.
Brasileiro radicado há mais de 10 anos nos Estados Unidos e professor na University of Southern California (USC), o médico André Berger comandou o equipamento e realizou o procedimento no paciente. Acompanhado dos cirurgiões Eduardo Carvalhal e Milton Berger, especialistas do Serviço de Urologia do Hospital Moinhos de Vento, Berger detalhou cada movimento do robô.
De acordo com Berger, a técnica robótica faz a cirurgia igual à aberta, porém com incisões menores. E leva vantagem em relação à cirurgia laparoscópica pela precisão dos movimentos e qualidade da performance, necessários em intervenções mais complexas. "Um dos benefícios dessa técnica minimamente invasiva é que gera menos chances de sangramento e, por consequência, da necessidade de transfusão sanguínea. Além disso, a recuperação do paciente é mais rápida. Há casos de pacientes que recebem alta no mesmo dia", explica. O superintendente médico do Hospital Moinhos de Vento, Luiz Antonio Nasi, destaca que o grande benefício dessa cirurgia é o fato de ela ser menos traumática possível. "É uma nova era de medicina à distância, menos invasiva. Talvez se vá poder se promover muito mais do que a gente hoje tem ideia. Esse século certamente vai trazer mais benefícios aos nossos pacientes no sentido de trazer cirurgias menos traumáticas e mais precisas", pondera.
Nasi acrescenta que o grande objetivo é reduzir as duas grandes complicações dessa cirurgia da retirada da próstata: a incontinência urinária e a impotência. Ao ressaltar que a maior parte dos robôs em atividade estão no Sudeste e Centro do país, Nasi avalia que o investimento vale a pena para a instituição, que é a primeira entidade privada do Sul do Brasil a oferecer o procedimento. "O cirurgião quando opera desta forma tem uma visão tridimensional. É como se ele tivesse dentro da barriga do doente, fazendo a visão tridimensional e conseguindo acessar os tecidos que precisam ser removidos". Conforme Nasi, o procedimento passa a ser um diferencial para o Moihos de Vento. O objetivo é realizar anualmente entre 80 e 100 procedimentos utilizando o Da Vinci.
Diretor Clínico do HMV, Marco Weiss informa que 90% das cirurgias para retirada de próstata nos EUA são realizadas com uso da tecnologia. E garante que o procedimento é importante tanto para o paciente quanto para os médicos, que operam sentados e com os braços apoiados. "Ao paciente interessa curar o câncer, ter uma cirurgia onde não sangre, não tenha dor, que ele fique pouco tempo no hospital e recupere bem as funções, tanto urinar bem como a função sexual. E isso a tecnologia robótica está provando, ao longo desses 20 anos que já existe, que ela está atingindo", avalia. Weiss acrescenta que a utilização do robô - cujo investimento foi de U$$ 3,5 milhões - permite uma visão tridimensional do abdômen do paciente. "Isso minimiza muito a chance de lesões de órgãos que a gente não quer lesionar, que são vasculares e nervosos. Com os pés a gente tem a segurança de mexer na câmera. O controle da câmera fica com o médico, que pode mover para qualquer direção, e o conforto é total para o cirurgião. Ele dá mais longevidade ao cirurgião, pois uma cirurgia que demandaria 4 ou 5 horas em pé, eventualmente um cirurgião de 70 anos ou mais teria uma vida cirúrgica menor", compara.
No Brasil, existem 39 robôs, dois em Porto Alegre. Um no HMV e outro no Hospital de Clínicas. "Os EUA têm quase 3 mil. No mundo todo são 5 mil robôs Da Vinci. O custo de manutenção anual vai de U$ 200 a 250 mil dólares por ano. E tem ainda o custo de formação do profissional, cujo investimento para a formação de cada profissional gira em torno de R$ 50 mil", acrescenta Weiss. A ideia, conforme o especialista, é realizar de duas a três cirurgias por semana. O superintendente-executivo do Hospital Moinhos de Vento, Mohamed Parrini, destacou que a instituição está entre os quatro melhores hospitais do país. E garantiu que o novo procedimento estará à disposição a pacientes particulares e convênios. "É uma tecnologia também a serviço do médico, melhorando a vida útil desse profissional. Médicos com idade mais avançada podem ter mais tempo operando, porque o campo de visão aumenta, o equipamento compensa eventuais movimentos e falhas na mão".