Afeito a números contábeis e estatística, Cláudio Antônio Bittencourt Caldas trocou o trabalho na prefeitura de Porto Alegre no mandato de Loureiro da Silva e a posição de professor na Escola Técnica Protásio Alves, para se tornar um desbravador da pecuária brasileira e um dos pioneiros da Expointer no Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio. A mudança de curso, que lhe rendeu homenagem da Federação Brasileira das Associações de Criadores de Animais de Raça (Febrac) durante esta semana, no Parque de Exposições Assis Brasil, veio pela paixão. Em 1965, ele se casou com Elisa de Souza Caldas, pecuarista de Santana do Livramento, e poucos anos depois se mudou para a Fronteira Oeste e deu início à seleção genética que resultou na criação da raça bovina Brangus, hoje uma das principais do país.
“Eu só lidava com números e fui para os campos, que estavam abandonados. Fui criando, cruzando um pouco de genética e fiz a raça Brangus”, resume Caldas, 84 anos. Parece simples, mas entre um iniciante e um cientista da pecuária, o caminho exigiu muita leitura e adaptação à atividade. “Quando o pai chegou, sem conhecer vaca e boi, o grande problema era o carrapato, que ainda é até hoje”, conta o filho e herdeiro, Cláudio de Souza Caldas,
Em 1969, Caldas participou da última Exposição Estadual de Animais no Parque Menino Deus, na Capital. “Nosso gado veio de trem, três dias de viagem de Livramento para Porto Alegre. Não tinha ração, e a gente fazia comida, arroz e feijão, e dava para o gado”, revela.
Com a mudança da feira para o Parque de Exposições Assis Brasil, o pecuarista participou em 1970 da 33ª Exposição Estadual de Animais, que precedeu a internacionalização do evento e, em 1972, entrou na história como a 1ª Exposição Internacional de Animais (Expointer). “Isso aqui era um banhado, era até um crime trazer bicho para cá, mas a gente foi melhorando o Assis Brasil, e hoje é essa potência”, diz Caldas, que mora na cidade de Livramento, mas passa a maior parte do tempo na Cabanha Santa Rita. Além do Brangus, o produtor é precursor com os ovinos Pool Dorset e Merino Dohne.
Durante as lidas campeiras em Livramento, o problema carrapato persistia. Sem formação na área, Caldas começou a estudar o assunto e a Lei de Mendel, a base da genética, com princípios para o entendimento da transmissão hereditária de características e o papel dos genes dominantes e recessivos nos cruzamentos de raças. “Ele se deu conta de que o zebu era muito mais resistente do que a raça Angus, que tem pelo grosso e acumulava muito carrapato”, lembra o filho. O pioneiro viu a necessidade de combinar características das raças para dar ao Angus maior capacidade de adaptação aos campos rústicos e resistência ao carrapato. “Percebi o ótimo resultado desta prática”, conta Caldas, que reconhece o apoio da Embrapa Pecuária Sul, de Bagé, a qual iniciou os trabalhos para a formação e desenvolvimento do Brangus.
Na época, os criadores de raças puras dominavam o cenário. “Em Livramento e no país não aceitavam cruzamento, eram tradicionais, só queriam ventre puro e não queriam aceitar machos”, lembra Caldas, que buscou touros Nelore no Mato Grosso e em Minas Gerais e utilizou inseminação artificial na Estância Santa Rita. Criada a nova raça sintética, Caldas enfrentaria resistência dos pecuaristas tradicionais e do poder instituído para registrar a raça. Em 1981, o filho praticava equitação e estava com a equipe gaúcha em Brasília. “Fomos campeões brasileiros e passamos um dia com o presidente (João) Figueiredo na Granja do Torto. A gente começou a andar pelas cocheiras e todo mundo chamava meu pai, porque eram pessoas da nossa região que o conheciam e já tinham sido funcionários”, lembra o filho.
Caldas teve a oportunidade de comentar com Figueiredo que estava trabalhando na genética do Brangus, que não era considerada raça porque não tinha registro. Na véspera do encontro com o general, Caldas tentou ser recebido pelo então ministro da Agricultura Ângelo Amaury Stábile, que assumiu o posto em lugar de Delfim Neto e ficou no cargo de 1979 a 1984. Caldas contou que levou um “chá de banco” do ministro. “O Figueiredo olhou para o pai e disse: ‘Cláudio, se a hora que ele marcar contigo e não te receber, tu chuta a porta e entra’. No outro dia o pai chegou e estava lá o ministro com as portas abertas”, lembra o filho.
A história do Brangus evoluiu com a fundação, em 1979, da Associação Brasileira de Ibagé (ABI), que em 1988 trocou de nome para Associação Brasileira de Brangus-Ibagé e, depois, Associação Brasileira de Brangus (ABB). Caldas foi o primeiro presidente da entidade, venceu sete grandes campeonatos com a raça e vendeu inúmeros touros a criatórios Brasil afora. Na Expointer, que frequenta sem nenhuma falta desde 1970, Caldas recebeu a medalha Paulo Brossard da Febrac com humildade. “Isso é um pouco de bondade dos amigos”, desconversou.
Para o presidente da ABB, Cacaio Osório, Caldas é um dos primeiros pecuaristas a apostarem no cruzamento entre bovinos Angus e Nelore, na época conhecida como raça Ibagé. “Ele viu o grande potencial dessa genética, que hoje utilizamos em nossos rebanhos. Para nós é uma honra darmos seguimento a um trabalho que ele começou há tantos anos”, afirma.
Aos 84 anos, Caldas continua um entusiasta de Brangus. “Começamos do nada, pequenininhos. A raça está feita, o esquema está montado, o pessoal está trabalhando e a Brangus hoje é considerada a segunda raça mais importante no Brasil. Estamos satisfeitos que evoluiu. Fizemos grandes produtores e amigos Brasil afora. Está tudo marchando a contento”, celebra o avô de Gabriel, nove anos, e Juliana, cinco anos, e sogro de Cláudia Milanez Caldas. “Eles são os futuros cabanheiros, têm bota e bombacha e estão sendo preparados para a luta."