Minha relação com o futebol vem desde sempre. Nasci em maio de 1962, um mês depois o Brasil tornava-se bicampeão mundial no Chile, na Copa do genial Mané Garrincha. Mas confesso que sempre gostei muito mais de jogar do que propriamente torcer. Joguei futebol durante toda a minha infância e adolescência praticamente todos os dias. Quando estudava de manhã e trabalhava à tarde, o jogo era à noite, em qualquer lugar onde tivesse iluminação, isso muito antes das atuais quadras esportivas fartamente alugadas para os praticantes fanáticos.
No meu imaginário de infância está Pelé. Assisti à Copa de 1970 aos oito anos e aquele time foi a minha primeira e talvez maior paixão esportiva até hoje. Já revi aqueles seis jogos várias vezes e sei de cor os 19 gols marcados naquela copa. Sempre fui fascinado pela figura do craque. Depois de Pelé, veio Zico e na mesma época o grande Falcão, que fez com que o chamado "centro do país" prestasse atenção no futebol praticado no Rio Grande do Sul.
Já trabalhando na imprensa, comprei inúmeras brigas saindo em defesa de Romário, um gênio, mas que era mais analisado por suas atitudes fora de campo do que pelas suas realizações no gramado. Sofreu enorme preconceito e era acusado de tudo. Se na sua época tivéssemos as redes sociais com a força atual, certamente estaria sofrendo o mesmo que Neymar sofre no momento.
Mas o que realmente me intriga é por que Neymar incomoda tanto? O que leva tanta gente a se importar com o seu cabelo, seu choro ou a sua namorada? É criticado até por filtrar comentários nas suas redes sociais, permitindo o acesso apenas para seus amigos, como milhões de pessoas fazem. Por que isso incomoda tanto? Na verdade, imprensa e redes sociais não estão refletindo a verdade por completo, afinal Neymar é um dos esportistas com maior alcance publicitário. Segundo a revista especializada SportsPro, ele é “o esportista mais comercializável do mundo”. Os especialistas em marketing esportivo concordam: “Neymar vende felicidade”. Transmite sucesso baseado na alegria, tanto nos bons momentos como nos complicados.
Como todo jogador de futebol no Brasil, Neymar é de origem humilde (seu pai trabalhava em um escritório e sua mãe era faxineira). Foi criado em Mogi das Cruzes em uma casa bastante modesta. Com o dinheiro de seu primeiro grande contrato, logo tratou de comprar uma casa grande para sua família. Com apenas 18 anos sua namorada na época, Carol Dantas, de 17 anos, ficou grávida. Neymar decidiu ter seu filho Davi Lucca e nunca o escondeu, pelo contrário, tratou de mostrar toda a sua felicidade com o fato.
O Instituto Neymar, criado pelo craque, é hoje um projeto social que se dedica às causas sociais e sem fins lucrativos. Atende crianças de 7 a 17 anos, que residem na Praia Grande, SP, comunidade carente onde Neymar passou parte da sua infância. Nadine Gonçalves, mãe de Neymar, é a presidente do Instituto. São oferecidas aulas de espanhol, inglês, robótica, artes, informática, leitura e escrita. Além de judô, natação, dança, jogos de tabuleiro, futebol, futsal, vôlei, basquete e handebol.
O Instituto também oferece atendimento médico: eletrocardiograma, exames clínicos (sangue), atendimento odonto e oftalmológico. Os pais, responsáveis legais e os familiares que moram com os alunos também podem participar das atividades propostas para a família. É um trabalho social 100% gratuito. O jogador e a família contribuem com os custos do Instituto.
Mas por que Neymar incomoda tanto, a ponto de jornalistas importantes dedicarem boa parte dos seus espaços apenas para tentar desconstruir a sua imagem? O que tanto os afeta? Seria o tal “complexo de vira-latas” denunciado por Nelson Rodrigues ou ainda a máxima de Tom Tobim que afirmava que “sucesso no Brasil é ofensa pessoal”? Neymar causa inveja também pela sua coragem e autenticidade. Não teve medo de sair do Barcelona e começar de novo no PSG. E logo veio o refrão de “mercenário”, como se fosse pecado querer ganhar mais, ser protagonista ou buscar o topo. A ambição é legítima e não torna ninguém desonesto.
Mas num país reconhecidamente racista como o Brasil, é difícil aceitar um jovem negro que saiu da periferia se tornar multimilionário, ostentar felicidade e seus bens patrimoniais nas suas redes sociais, namorar uma atriz global branca e dividir a capa da revista Vogue com Gisele Bündchen. “Quem esse moleque pensa que é?”
Neymar terá de provar todos os dias a sua qualidade. Quando for mal, vão cair de pau em cima e quanto arrebentar alguns irão reconhecer e outros ficarão em silêncio. Será assim a sua vida inteira, mas o importante é que siga sua trajetória mantendo o seu estilo, a sua autenticidade e a sua forma genial de jogar, pois é deste jeito que com apenas 26 anos já é o terceiro maior artilheiro da seleção brasileira em todos os tempos.
Nando Gross: "Por que Neymar incomoda tanto?"
Gerente da Rádio Guaíba e colunista do Correio do Povo reflete sobre razões para críticas ao craque brasileiro