A população de Eldorado do Sul, na região Metropolitana, ainda sofrem com inundações. A enchente em maio chegou a atingir 97% do território urbano e 80% da área total do município, que ainda soma 150 desabrigados e cerca de 6 mil desafogados. Nesta terça-feira, 60 dias após o dilúvio, o água ainda invade vias e impede a volta de moradores para casa.
A estimativa da prefeitura é que, dos quase 40 mil habitantes de Eldorado do Sul, pelo menos 30 mil foram afetados. Parte deles morava no bairro Sans Souci, onde a inundação não dá trégua há dois meses.
No bairro, mesmo após o recuo do Rio Jacuí, ainda há água por sobre toda a extensão da rua Rejane Cartier da Silva e em esquinas com vias adjacentes, como na rua Hildo Bastos da Silva. Quem caminha na localidade não consegue distinguir o ponto que separa Rio Jacuí e terra firme.
Em outras palavras, a água encobre o limite com o bairro e não há mais uma linha divisória. Um exemplo é a Praça Santa Souci, também conhecida como Praça dos Pescadores, onde há trechos em que a inundação ultrapassa a altura do joelho de uma pessoa adulta.
Ali, o que era uma quadra de futebol se tornou algo similar a uma lagoa, com direito a embarcações atracadas nas laterais. Bancos, balanços e gangorras também foram engolidos por água. O cenário é propício para gansos e patos que aproveitam para nadar nas antigas áreas de lazer da praça.
Sem exceção, todos os imóveis na rua Rejane Cartier da Silva apresentam marcas da enchente. A maior parte das casas está em destroços e quase todo o restante que ainda está de pé, foi abandonado pelos proprietários.
Paulo Roberto Gloski, de 63 anos, é uma das poucas pessoas que conseguiu retornar à localidade. Conhecido como Pirata, ele é professor de uma escola de canoagem e acumula mais de 37 anos de experiência no remo.
Pirata cedeu oito canoas para resgates durante a enxurrada. Destas, seis foram furtadas. Além disso, também desapareceram mais 40 coletes salva-vidas e 27 remos, incluindo itens avaliados em R$ 4 mil por peça.
O homem, que ficou desalojado por mais de um mês, não se deixou abater com a situação. Ele limpa a oficina de barcos diariamente e espera retomar a rotina de aulas o mais rápido possível.
“O pior momento foi quando me deparei com a destruição pela primeira vez. É um choque ver que a água levou o trabalho de uma vida inteira. Apesar disso, tenho certeza que vamos nos recuperar desse baque. Dias melhores virão”, afirmou o professor de canoagem.
A diminuição no nível do Rio Jacuí permitiu que alguns remadores profissionais voltassem a treinar. Por hora, apenas quatro profissionais estão autorizados por Pirata a entrar na água. Outros 40 alunos de remo seguem com as práticas suspensas, sem previsão para retomada.