Não houve distinção de classe social quando a enchente devastou o bairro Arquipélago, em Porto Alegre. Um exemplo disso é a Rua dos Pescadores, área nobre localizada na Ilha das Flores, onde é possível ver escombros do que um dia foram residenciais suntuosas. A localidade foi uma das mais atingidas na região e ainda apresenta trechos inundados, mesmo após 60 dias do dilúvio.
Além das ruínas, também há mansões que foram abandonadas. Com pátios tomados por água e paredes cobertas por lodo, a falta de proprietários gera um tom assombrado aos imóveis vazios.
São casarões que chegam a ter três andares e dispunham de forte esquema de segurança, mas tiveram os muros despedaçados e as câmeras de monitoramento inutilizadas por força do Rio Jacuí. Não há vida dentro desses palácios alquebrados, apenas a profusão de garças e saracuras em busca de alimento nos terrenos alagados.
Sem moradores, quase todas as casas foram alvo de furtos. O luxo foi substituído por desolação. Ali, restam apenas capatazes e outros funcionários contratados para limpar o lodo e descartar o que sobrou do mobiliário dos palacetes.
Jorge da Silva Campos, de 69 anos, trabalha como caseiro em um sítio na Ilha das Flores. Ele foi incumbido da limpeza na propriedade durante a ausência do patrão, que desde a enchente foi morar em Santa Catarina e não voltou mais.
“Era uma propriedade linda, mas agora parece um cenário de guerra. Vai levar muito tempo para que as pessoas superem isso. A enchente é um grande trauma na nossa vida”, lamentou o trabalhador.
O caseiro morava no sítio há 13 anos, mas a água o forçou a alugar um quarto de pousada em Eldorado do Sul. Ele retorna apenas para limpar a residência e calcular o prejuízo que o dono da terra sofreu, o que inclui o furto de uma lancha avaliada em R$ 300 mil.