Noemi Doria, residente do bairro Navegantes há mais de cinco décadas, compartilhou com tristeza os impactos devastadores da enchente de maio na Capital. Ela descreveu a experiência como algo “horrível e pavoroso”, lamentando a destruição que afetou não apenas sua casa, mas também as de seus familiares. Agora o que causa pânico são as previsões de chuva e o medo que tudo fique alagado, mais uma vez.
“A cada previsão de chuva é um terror. Essa noite não dormimos por medo da chuva”, disse contando que a rua estava cheia de água, nas primeiras horas da manhã.
A dona de casa lembrou que ela ficou com o marido em casa por 15 dias, sem luz e água, durante a enchente. Depois foi para a casa de parentes, mas ele permaneceu na residência por medo de saques. Ele é motorista de aplicativo e ficou mais de 40 dias sem trabalhar, agora a família está tentando recomeçar. "Minha casa é um pouquinho mais alta, mas a da minha mãe e da minha irmã foram totalmente atingidas. Elas perderam tudo", contou.
A luta pela normalidade tem sido difícil para Noemi e sua família. "Estamos conseguindo limpar e colocar em ordem, mas a segurança é precária. A qualquer momento podemos ter que sair correndo", diz, preocupada com a instabilidade do tempo e a falta de manutenção na rede de drenagem. "Está tudo entupido, as boca de lobo estão cheias de lixo”.
Noemi considera que uma negligência prolongada contribuiu para a catástrofe. "As comportas foram deixadas para o último, as bombas estavam estragadas há anos. Nada foi feito. É importante que as pessoas compreendam o que estamos passando. Foi um descaso que se acumulou ao longo dos anos", desabafou.
Apesar dos esforços locais para remediar a situação, Noemi expressou pouca esperança para o futuro próximo. "Esperaria que as coisas melhorassem um pouco, mas com o que está acontecendo dia a dia, não vejo boas perspectivas", diz.
Bairro Navegantes ainda sofre com entulhos da enchente nas ruas
Noemi revelou que até pensa em sair do bairro, mas considera todo o investimento que fez na sua casa e acredita que o valor do imóvel não vai chegar perto do que investiu.
Neste domingo, o foco da força-tarefa de limpeza do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) é na Zona Norte. Receberam a ação os bairros Ilha da Pintada, Anchieta, Vila Farrapos, Humaitá, Vila Elizabeth (Sarandi), com mutirão de limpeza em vias internas.
Desde 6 de maio, quando o trabalho começou nos pontos de resgate, até a noite de sábado, 22, foram retiradas 78.673 toneladas de resíduos das ruas, como restos de móveis estragados, raspagem de lodo acumulado e lixo de varrição.