Cidades

“A cada previsão de chuva é um terror”, diz moradora da zona Norte de Porto Alegre

Noemi ficou com o marido em casa por 15 dias, sem luz e água, durante a enchente

Bairro Navegantes ainda sofre com entulhos da enchente nas ruas.
Dnª Noemi Dória, moradora no Bairro Navegantes
Bairro Navegantes ainda sofre com entulhos da enchente nas ruas. Dnª Noemi Dória, moradora no Bairro Navegantes Foto : Ricardo Giusti

Noemi Doria, residente do bairro Navegantes há mais de cinco décadas, compartilhou com tristeza os impactos devastadores da enchente de maio na Capital. Ela descreveu a experiência como algo “horrível e pavoroso”, lamentando a destruição que afetou não apenas sua casa, mas também as de seus familiares. Agora o que causa pânico são as previsões de chuva e o medo que tudo fique alagado, mais uma vez.

“A cada previsão de chuva é um terror. Essa noite não dormimos por medo da chuva”, disse contando que a rua estava cheia de água, nas primeiras horas da manhã.

A dona de casa lembrou que ela ficou com o marido em casa por 15 dias, sem luz e água, durante a enchente. Depois foi para a casa de parentes, mas ele permaneceu na residência por medo de saques. Ele é motorista de aplicativo e ficou mais de 40 dias sem trabalhar, agora a família está tentando recomeçar. "Minha casa é um pouquinho mais alta, mas a da minha mãe e da minha irmã foram totalmente atingidas. Elas perderam tudo", contou.

A luta pela normalidade tem sido difícil para Noemi e sua família. "Estamos conseguindo limpar e colocar em ordem, mas a segurança é precária. A qualquer momento podemos ter que sair correndo", diz, preocupada com a instabilidade do tempo e a falta de manutenção na rede de drenagem. "Está tudo entupido, as boca de lobo estão cheias de lixo”.

Noemi considera que uma negligência prolongada contribuiu para a catástrofe. "As comportas foram deixadas para o último, as bombas estavam estragadas há anos. Nada foi feito. É importante que as pessoas compreendam o que estamos passando. Foi um descaso que se acumulou ao longo dos anos", desabafou.

Apesar dos esforços locais para remediar a situação, Noemi expressou pouca esperança para o futuro próximo. "Esperaria que as coisas melhorassem um pouco, mas com o que está acontecendo dia a dia, não vejo boas perspectivas", diz.

Noemi revelou que até pensa em sair do bairro, mas considera todo o investimento que fez na sua casa e acredita que o valor do imóvel não vai chegar perto do que investiu.

Neste domingo, o foco da força-tarefa de limpeza do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) é na Zona Norte. Receberam a ação os bairros Ilha da Pintada, Anchieta, Vila Farrapos, Humaitá, Vila Elizabeth (Sarandi), com mutirão de limpeza em vias internas.

Desde 6 de maio, quando o trabalho começou nos pontos de resgate, até a noite de sábado, 22, foram retiradas 78.673 toneladas de resíduos das ruas, como restos de móveis estragados, raspagem de lodo acumulado e lixo de varrição.