Longe de bolhas etárias e estereotipadas, as amizades intergeracionais têm enriquecido relações e impactado positivamente o comportamento de uma sociedade cada vez mais longeva e conectada. Para além das histórias de “amigos de infância” ou “colegas desde a escola”, há também aquelas que falam de reencontros na fase adulta e aproximação depois de algum momento difícil vivido.
Para ser considerada uma amizade intergeracional basta uma diferença de 10 anos entre as pessoas, explica Geraldine Alves dos Santos, psicóloga docente na Feevale. A profissional reforça o benefício destas relações e destaca a quebra de expectativas sociais que esses ‘elos’ carregam: “os jovens com os jovens, os adultos com os adultos e as pessoas idosas com pessoas idosas, como se dentro desses grupos, desses nichos etários, as pessoas fossem se compreender melhor, fossem melhor aceitos”.
Nesse sentido, Geraldine concorda que é possível considerar que algumas coisas estão adequadas e que “algumas vezes, muito específicas, isso pode ser muito útil”, mas ela também defende que relações intergeracionais podem ser benéficas. “Essa troca que as pessoas estabelecem de diferentes idades enriquece muito para todas as partes.”
Assim, pessoas mais velhas se sentem mais acolhidas e interessadas pelas novidades quando estão com pessoas mais jovens. Da mesma forma, pessoas mais jovens acabam aprendendo muito com as experiências dos mais experientes, adquirindo maturidade e aprendizagem.
“Os mais jovens não deixam de errar porque estão com pessoas que têm mais idade e mais experiência. Mas eles vão amadurecendo um pouco mais rápido”, observa.
“O amor da vida na amizade”
Rosane Schmidt e Michele Martins, 59 e 37 anos, se reaproximaram em 2020 por meio de amigos em comum entre elas. O início da amizade ficou marcado num almoço em pleno dia do amigo. Elas já tinham trabalhado juntas em 2009, mas em um contato estritamente profissional.
“Nos encontramos e firmamos uma amizade muito linda, com muita lealdade e parceria. Já curtimos show juntas, nascer do sol na praia, saímos uma vez por mês pra jantar”, conta Rosane, que atualmente é servidora pública. Os encontros são semanais e incluem jogar uma canastra, beber um vinho ou fazer uma janta. Online, a conexão é sempre presente pelas redes sociais. “Uma é confidente da outra.”
Já Michele define a relação com Rosane como “o amor da vida na amizade”. Há dez anos ela perdeu a mãe, com quem tinha uma grande amizade. A ocasião fez com que a amiga também ocupasse o papel de “mãezona”. “A Rosane não a substitui, mas é alguém que sei que posso contar para tudo e em todos momentos”, diz.
As amigas contam, que para além dos bons momentos compartilhados, foram nas dificuldades que uma fez a diferença na vida da outra. Quando Rosane ficou sem veículo por um par de anos, Michele reorganizou a rotina e o trajeto para levar e buscar, todos os dias, a amiga no trabalho. “Ali vi que estaria comigo sempre. Se fosse outras amizades, não fariam isso, diriam para eu pegar motorista de aplicativo e vida que segue”, lembra Michele que hoje trabalha como auxiliar administrativa.
A dupla acumula também muitos momentos bons. O mais marcante foi o nascer do sol no litoral gaúcho, que era um desejo até então não realizado de Michele. “Vimos o sol nascer, bebemos uma champanhe. Foi bem marcante para mim, pois nunca tinha feito”, recorda.
A diferença de 22 anos nem é sentida pela dupla de amigas. Rosane, que completa 60 anos em agosto, conta que não sente a idade que tem. Para ela é como se tivesse a energia de uma pessoa de 40 anos. Elas destacam a amizade intergeracional como além de uma conexão afetiva.
Amizade de troca e acolhimento
A amizade entre o promotor de eventos Éderson Forsin, 44 anos, e o modelo William Soares, 24, é mais uma daquelas que seria improvável, não apenas pela diferença de idade, mas também pelo fato de um, na época, morar em Parobé, no Vale do Paranhana, e o outro em Porto Alegre.
Essas barreiras foram quebradas em 2019 durante um concurso de beleza promovido por Éderson. Apesar do contato ser profissional, a dupla já se conheceu em contexto de encorajamento em que William começava a dar os primeiros passos na carreira e, naquela época, com medo.
“Ele conversou comigo, me deu total apoio. Falou que eu tinha capacidade de ganhar um concurso, que eu poderia prosperar com isso. E aí eu acabei entrando nesse ramo, que eu acho que foi o primeiro passo para a nossa amizade começar”, detalha.
Os dois acreditam que a experiência de um e a coragem de outro é o que os une. “Eu acho que, apesar de eu já ter 44 anos, acho que eu tenho espírito mais jovem. Então fica mais fácil. Mas, mesmo assim, tem coisas que ele me passa muito frescor, muita vontade de viver. Que é coisa que talvez uma pessoa com mais idade já não tenha mais tanto, né? Ele me passa muita frescor de vida, assim, muita vontade de viver”, destaca Éderson. Os amigos já moraram juntos por quatro anos.
A amizade também impactou fortemente a vida de Éder na inspiração por bons hábitos e cuidado com a saúde. Há dois anos, ele passou a mudar os hábitos alimentares e a frequentar academia. “Se me perguntarem o que eu mais devo a ele, hoje eu vou dizer isso. Foi de tanto ele me incentivar, me encher o saco, me incentivar até hoje, que eu mudei totalmente minha saúde, meu corpo, meu tudo.”
“Eu tenho uma relação de pai e filho com ele”, diz William ao lembrar que foi o amigo que o ajudou a aprender a dirigir. As trocas de incentivo e ensinamentos é apenas um plus nessa dupla que acredita que a lealdade e cumplicidade são os pilares da amizade.
Afetos intergeracionais no combate ao etarismo
As amizades intergeracionais têm efeito a longo prazo para a sociedade, tendo em vista que a população brasileira está envelhecendo. Os dados mais recentes sobre a população brasileira, que remontam o cenário de 2022 no país, mostram um maior índice de envelhecimento na história. Conforme o IBGE, o Brasil tem 55 pessoas com 65 anos ou mais de idade para cada 100 crianças de até 14 anos. Para nível de comparação, o índice era de 30,7 idosos em 2010.
O levantamento ainda mostra que no Rio Grande do Sul (115,0) e no Rio de Janeiro (105,9), o número de pessoas com 60 anos ou mais ultrapassou o de crianças de 0 a 14 anos.
Se observamos a idade mediana – que é o indicador que divide uma população entre os 50% mais jovens e os 50% mais velhos – ela subiu de 29 anos para 35 anos em 12 anos, evidenciando o envelhecimento da população.
Para a psicóloga Geraldine Alves dos Santos, as amizades intergeracionais têm efeito a longo prazo para a sociedade e combatem naturalmente o preconceito que as pessoas têm em envelhecer ou estar com pessoas mais velhas. Na avaliação da especialista, a mudança comportamental interferiu na configuração. Ela cita por exemplo a pandemia.
“Quem foram os jovens que entraram antes da pandemia, os que entraram durante e os que entraram após? Vemos três gerações diferentes em um espaço curto de tempo”, aponta.
Como surgiu o ‘dia do amigo’
No último dia 20, o Brasil celebrou o dia do amigo. Conforme o historiador Duilio Martins da Rosa, a comemoração neste dia foi ideia de um psicólogo e filósofo argentino Enrique Ernesto Febbraro, que se inspirou na chegada do ser humano à lua para a criação da data. “Para ele, tal feito não era apenas uma vitória da ciência, mas fruto da união entre os povos da terra. Depois de ter acompanhado a conquista da lua em 20 de julho de 1969, ele passou a enviar cartas diplomáticas para outras nações, sugerindo a oficialização da data como dia do amigo”, explica Rosa.
Ainda de acordo com o historiador, “dez anos depois, em 1979, a data foi oficializada na Argentina e por volta dos anos 1990 chegou ao Brasil de modo informal”.