A situação na Zona Sul de Porto Alegre continua dramática para muitos moradores, com diversas áreas ainda praticamente vazias após as enchentes devastadoras de maio. A Avenida Orleans, no bairro Guarujá, e a Rua Dorival Castilho Machado, no bairro Hípica, são exemplos de locais onde os residentes ainda lidam com os danos causados pelas inundações.
Inácio Soares Longuave, de 73 anos, é um antigo morador da Zona Sul e reside às margens do Guaíba desde a década de 1960. “Estou acostumado com isso, nunca entrou água na minha casa, mas dessa vez entrou”, conta, com tristeza. “Meus vizinhos todos foram muito atingidos, casas caíram e móveis se perderam”, acrescenta.
A enchente de maio chegou a mais de um metro dentro de sua casa, uma situação inédita para ele. “O aumento do nível foi lento, mas como nunca tinha entrado, eu não salvei nada. Levantei o que deu, porém, ainda assim, perdi tudo. Mas estamos mobiliando, comprando aos poucos”, relata.
Apesar do impacto devastador, Inácio não teme uma repetição em breve, nem mesmo com as chuvas que caem sobre o Estado nesta semana. “Receio não tenho, estou acostumado com o Guaíba e acho que igual à última enchente (de maio) não vem tão cedo. A outra grande foi em 1941, essa foi maior, mas não acredito que aconteça novamente”, afirma.
Sr. Inácio Soares Longuave, 73 anos morador do bairro Guarujá, Av. Orleans Zona Sul de Porto Alegre, oficina de bicicletas atingida pela enchente.
A realidade em torno do lar de Longuave é desoladora. Muitos moradores não voltaram para suas casas, que permanecem fechadas, ou até abandonadas. Alguns chegaram a ir até suas residências, fizeram alguma coisa, mas não estão mais lá. A própria residência do idoso continua em processo de limpeza, enquanto ele também tenta reestabelecer sua oficina de bicicletas, onde perdeu cerca de 10 mil reais em mercadorias e equipamentos.
A história se repete na Rua Dorival Castilho Machado, no bairro Hípica. Bruno César da Silva, de 35 anos, relata os desafios enfrentados por sua família. “Minha casa é um pouco mais alta, por isso perdi alguns móveis de sala e cozinha, mas meu pai, que mora em uma parte mais baixa, perdeu tudo”, conta. Durante as chuvas desta semana, ele viu a água subir até o alicerce de sua casa, enquanto a residência de seu pai já estava sendo invadida pela água novamente.
Silva passou vários dias fora de casa, abrigando-se com amigos, e retornou há cerca de 20 dias para iniciar a limpeza e reparos. “A gente limpou tudo, porque tinha água de esgoto, e está se ajeitando aos poucos”, explica, com a esperança de que a situação atual se estabilize e a água comece a baixar, sem causar aumento no alagamento.
Desta forma, Silva afirma que ocorre uma falta de ação eficaz das autoridades locais, o que lhe causa certa frustração.”O sentimento é de tristeza, porque a Prefeitura e o Dmae aparecem e fazem apenas superficial, dão uma olhada, depois nunca mais voltam”, lamenta ao se referir sobre os problemas hídricos que causam os alagamentos.