Cidades

Ato lembra 50 anos de manifestação que impediu derrubadas de árvores no centro de Porto Alegre

Em 1975, grupo de estudantes da UFRGS evitou corte de dezenas de Tipuanas, presentes até os dias atuais na avenida João Pessoa

Abraço simbólico, discursos e música marcaram os 50 anos da mobilização histórica
Abraço simbólico, discursos e música marcaram os 50 anos da mobilização histórica Foto : Fabiano do Amaral

Uma das ações mais marcantes envolvendo a proteção do meio ambiente em Porto Alegre completa 50 anos nesta terça-feira. Em 25 de fevereiro de 1975, em plena ditadura militar, um grupo de estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) evitou a derrubada de dezenas de árvores na avenida João Pessoa. Para marcar a data, parte das pessoas que participaram da mobilização que entrou para a história voltaram na tarde de hoje ao local, na frente da Faculdade de Direito.

No dia em questão, ocorria a remoção dos vegetais como parte da construção do viaduto Imperatriz Dona Leopoldina. Para impedir que outras viessem abaixo, os então estudantes Carlos Dayrell, Marcos Saraçol e Teresa Jardim subiram em uma das Tipuanas ameaçadas. No instante seguinte, quase 500 pessoas apoiavam o protesto.

Teresa e Marcos sofreram violência policial, assim como dois jornalistas que cobriam o protesto. Os quatro foram presos e levados o segundo andar do Palácio da Polícia, onde funcionava o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), setor de repressão da Segurança Pública que se dedicava a ‘manter a ordem contra movimentos populares e terroristas’.

Enquanto estudantes protestavam, servidores da prefeitura continuavam a derrubar árvores | Foto: CP Memória

Na chegada dos detidos, mais um jornalista foi agredido e teve equipamento danificado. Horas depois, soube-se que outros dois profissionais foram agredidos por policiais militares na frente da Faculdade de Direito, ainda durante o protesto. O então presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN), José Lutzenberger, também foi chamado ao DOPS para prestar depoimento.

O fato repercutiu nacionalmente. Naquela época, Porto Alegre sediava sucursais dos principais jornais do país. Diante da mobilização social, os vegetais que, segundo os engenheiros da prefeitura, atrapalhariam o trânsito, foram poupados.

Corredor verde da João Pessoa sobreviveu a partir da mobilização dos estudantes | Foto: Fabiano do Amaral

“Lutamos e vamos continuar lutando. Tenho dito, usando as palavras do grande Bebeto Alves (Cantor e compositor), que nós somos um bando, um bando e muitos outros”, discursou Marcos Saraçol no ato desta tarde, ao lado da árvore na qual subiu para ajudar a salvar.

O encontro não é organizado por nenhuma entidade de preservação da Capital. É uma reunião de pessoas que estiveram juntas pela natureza naquele dia de verão. Além de um abraço simbólico na árvore que ajudou a poupar outras dezenas, é momento para rever amigos e lembrar da importância da preservação.

“Ainda estamos aqui, e sempre haverá quem esteja. Porque temos aqui um símbolo que chega aos seus 50 anos, é um um processo histórico, estaremos aqui, ou onde quer que seja, até quando for preciso”, disse a ex-vereadora e deputada estadual Jussara Cony, sob a sombra cinquentenária, numa tarde em que fez 37ºC em Porto Alegre.

Marcos Saraçol, junto da Tipuana em que subiu em 25 de fevereiro de 1975 | Foto: Fabiano do Amaral