Cidades

Audiência pública reforça busca soluções humanizadas para pessoas em situação de rua de São Leopoldo

Ações do governo municipal foram intensificadas durante período de maior calor

Audiência foi promovida pela vereadora Iara Cardoso
Audiência foi promovida pela vereadora Iara Cardoso Foto : Guilbert Trendt / Divulgação / CP

O Plenário da Câmara Municipal de São Leopoldo foi palco, de uma Audiência Pública promovida pela presidente da Casa, vereadora Iara Cardoso, para discutir a situação das pessoas em situação de rua no município. O evento reuniu representantes do governo municipal, organizações da sociedade civil, vereadores e membros da comunidade, com o objetivo de debater soluções conjuntas para essa questão desafiadora.

Conforme a secretária de Assistência Social, Simone Dutra, a pasta tem se esforçado para dar dignidade a essa população. “A cada dia aprendo mais sobre a situação dessas pessoas. Criamos a Operação Resgate, que une secretarias, comitês e órgãos para agir de forma humanizada e coletiva. Iniciamos abordagens para escutar essas pessoas, oferecer apoio médico e auxiliar com documentação”, destacou.

A titular da SAS também compartilhou algumas iniciativas recentes. “Realizamos a ação Verão Pop, oferecendo atendimentos médicos, psicológicos e de saúde bucal, além de encaminhamentos para emprego. Nosso objetivo é promover uma sociedade mais justa e humana”, ressaltou, se referindo à ação realizada na terça-feira devido ao calor intenso dos últimos dias.

Já o secretário de Direitos Humanos, Leonardo Klaus, destacou a relevância de uma atuação integrada para a promoção dos direitos humanos. “A situação dessas pessoas expõe múltiplas vulnerabilidades. Precisamos sair do discurso e partir para a ação. A Operação Resgate e o Verão Pop são exemplos do que podemos fazer com esforço conjunto”, afirmou.

Um dos momentos marcantes da audiência foi o depoimento de Anderson Vieira, conhecido como Bacana, que relatou sua experiência de vida nas ruas e sua luta contra a dependência química. Bacana, hoje integrante do Fórum da População em Situação de Rua, trouxe reflexões importantes sobre a realidade nas ruas. “Viver na rua não é escolha. É uma consequência de uma série de eventos e, muitas vezes, da falta de oportunidades”, iniciou. Ele relatou a dureza do dia a dia nas ruas e o constante sentimento de invisibilidade. “Você luta para sobreviver, mas também luta para ser visto. Muitas vezes, as pessoas passam por você como se você não existisse”, desabafou.

O ex-morador em situação de rua Rafael Godoy, de 39 anos, também emocionou a todos ao contar sua história de superação. Ele foi resgatado durante a Operação Resgate. “Usei cocaína por mais de 20 anos. Quando migrei para o crack, perdi tudo em três anos, até mesmo o vínculo com minha família”, contou. Ele, que hoje atua em um trabalho estável, também coincide com sua visão sobre a luta contra a dependência química. “Eu sou consultor terapêutico em dependência química e fiz vários cursos sobre o tema. Acredito que 80% é doença, mas 20% é um minuto de escolha errada. Ninguém te leva até lá, você vai sozinho. Por isso, é tão importante ter alguém que acredite em você”, confessou.

Operação Resgate realiza 50 abordagens e intensifica ações de acolhimento social

Segundo Caroline Timm, atendente social responsável pela Operação Resgate, a ação tem buscado intensificar o atendimento a pessoas em vulnerabilidade. “O total de abordagens foi de 50, com 46 pessoas abordadas, já que algumas foram abordadas mais de uma vez durante os dias da operação”, explicou.

Os dados também mostram a diversidade étnica entre os moradores em situação de rua: 22 pessoas se declararam brancas, 12 negras, uma indígena e outras 11 não forneceram informações. “Observamos um aumento de pessoas que se declaram da cidade de São Leopoldo e que começam a criar vínculos aqui. Isso é importante para entender se uma pessoa deseja permanecer ou retornar à sua cidade de origem”, destacou Caroline, ao explicar o trabalho de identificação

Outro ponto importante abordado pela equipe foi o uso intenso de substâncias psicoativas (SPA), presente em 31 dos indivíduos envolvidos. Do total, 12 são migrantes e 34 pessoas se declararam residentes de São Leopoldo, embora alguns não fossem nascidos na cidade.

Das 46 pessoas abordadas, 30 estão atualmente em acompanhamento psicossocial no Centro POP. “Algumas pessoas acabam não criando vínculo com o Centro POP por dificuldades de acesso, mas continuamos acompanhando in loco para novas sensibilizações e encaminhamentos”, explicou a atendente social.

Caroline também informou que o Centro POP segue trabalhando com a identificação de novos casos e no fortalecimento de vínculos familiares ou sociais para aqueles que desejam retornar às suas cidades de origem.

Durante o encerramento da Audiência Pública, a vereadora Iara Cardoso ressaltou a importância do trabalho técnico e da dedicação da equipe envolvida. “Acreditamos que São Leopoldo pode ser um exemplo para a Região Metropolitana, para o Brasil e para o mundo, mostrando como se trata dessa questão com técnica, expertise e, acima de tudo, com muito amor”, disse ela.