Os moradores da Ilha das Flores, local de grande vulnerabilidade social em Porto Alegre, novamente se dizem esquecidos, após o avanço das águas do Guaíba pelos banhados da região, causado pelas recentes chuvas fortes. Às margens da BR 290, na manhã desta terça-feira, o construtor Antônio Carlos carregava restos de madeira para servir como lenha nos dias frios de inverno, enquanto um ajudante transitava pelo barro com os pés descalços. “Vivemos meio que em um canto aqui”, disse Carlos, que vive há nove anos na rua dos Eucaliptos.
Os habitantes da área vivem muitas vezes no improviso, construindo suas simples casas de madeira no alto, a fim de evitar a invasão da água. Porém, ela toma conta dos pátios, ilhando as residências. A ajuda, quando vem, é considerada insuficiente. Ao lado, vive a família da catadora Carmem Silva Antônia da Silva. Além do alagamento tomar conta da área, dificultando praticamente todos os acessos às casas, houve falta de energia elétrica por dois dias, porém a luz já retornou. O local também tem rede do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) disponível.
“A água baixou um pouco, só que sabemos que ela vai subir de novo”, comenta o jovem Maiquel Douglas da Silva do Prado, sobrinho de Carmem, que vive ao lado. Um dos filhos dela tem sua casa na mesma área, e todas estão em situação bastante precária e comprometidas em algum grau. Há alguns meses, ela recebeu lonas para colocar no telhado da casa e evitar que chovesse dentro. Além do lodo, muito lixo toma conta da área.
As crianças circulam com botas de borracha, e algumas se arriscam, brincando em meio à sujeira e à contaminação. Os moradores já viram enchentes maiores, em que a água atingiu o nível da rua. No entanto, a maior preocupação é com a recorrência destes transtornos, já que, a cada chuva mais forte, há o risco de novos alagamentos. Enquanto isso, o nível do Guaíba tem se mantido relativamente estável, de acordo com o monitoramento da Agência Nacional de Águas (ANA).
Hoje, às 13h15, a marca medida no Cais Mauá, no Centro Histórico de Porto Alegre, estava em 1,94 metro, similar aos dos dois dias anteriores. Já a MetSul Meteorologia afirma que ainda há a expectativa hoje de vento Sul, o que pode agravar a situação, já que pode haver represamento das águas, podendo causar inclusive novas altas temporárias.
Segundo a Defesa Civil Municipal, “os agentes conhecem bem o local, devido aos atendimentos ali serem de longa data, então eles sabem exatamente aonde ir para constatar o nível do rio, visto que a região é muito extensa e não teriam como entrar em cada beco, rua e viela para vistoriar casa a casa. Os materiais de primeira necessidade, como lonas, colchões, cobertas e alimentação, são distribuídos conforme demanda, ou seja, os moradores que estiverem com a necessidade de qualquer material, devido aos eventos climáticos e desastres, devem entrar em contato através do 199 (número gratuito) para solicitar ajuda. Os agentes vão até o local e avaliam quais são as providências que devem ser tomadas”.
Em relação a esse último evento climático, a Defesa Civil informou que recebeu “duas solicitações de ajuda da Ilha das Flores, onde as famílias receberam lonas para a cobertura das residências. A região sempre teve uma atenção especial da Defesa Civil e sempre foi atendida quando solicitou ajuda. O monitoramento continuará e caso alguém necessite de auxílio deve entrar em contato com a Defesa Civil no 199. Estamos dando atenção a todos os bairros de Porto Alegre e atendendo sempre que solicitados”.
Já, a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) confirmou que uma das famílias da rua citada na matéria é acompanhada pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). E das que acessam algum serviço no Centro de Referência de Assistência Social (Cras), não houve busca por impactos do temporal.